Enquanto esperam a chegada do avião do Santo Padre, os coreanos são convidados a continuar o trabalho de reconciliação e de paz, como garantia de um desenvolvimento humano integral consolidado, não só económico
Seul, 13 de Agosto de 2014 (Zenit.org) Alfonso M. Bruno
A vida em Seul corre como as águas do rio Han e passa
através das grandíssimas construções da cidade, uma das mais
desenvolvidas da Ásia, terceira depois de Hong Kong e Cingapura,
principalmente em arranha-céus. A partir de amanhã um novo desafio será
lançado pelo Papa Francisco aqui nessa cidade.
A primeira viagem do Papa Bergoglio no Extremo Oriente se insere em
um programa pastoral de pontificado, que, o levará, no mínimo,
anualmente à Ásia. É o reconhecimento do papel social e político e do
potencial religioso (especialmente católico) que o “Continente
Amarelo” construiu nos últimos 30 anos. Não só as Filipinas, mas também
Vietname, a Coreia, a China e o Japão, parecem fazer brotar agora mais do
que nunca, as sementes da evangelização.
Baptizada com o sangue dos mártires e fecundada pelo extraordinário
compromisso dos leigos seduzidos pela mensagem cristã, a Coreia acolhe o
irmão de Matteo Ricci. Este foi um missionário jesuíta de Macerata,
Itália, que no século XVI exportou ao Oriente "A verdadeira noção do
Senhor do Céu", um trabalho comentado pelo coreano Lee Deok-mu, mas
assimilado até o martírio por Paulo Yun Ji-ching, pai do cristianismo na Coreia, o primeiro dos 123 companheiros mártires que no sábado, 16 de Agosto, serão beatificados por Francisco.
A mensagem cristã atrai os coreanos por causa da sua elevação moral,
pela exemplaridade de Cristo e pelo desenvolvimento e a continuidade
daquelas “sementes de verdade” que estavam presentes já na cultura
oriental. Wonhyo, o célebre mestre zen do budismo coreano, que viveu no
VII século, afirmava que “fazer o bem a si mesmo e fazer o bem aos
outros são como as duas asas de um pássaro”. O cristianismo já se
mostrava naquela época mais eficaz e coerente com a realidade, se
comparado com as regras da imobilidade de Confúcio.
No seu comentário aos textos de Matteo Ricci, Lee Deok-mu teve
palavras elogiosas para o mesmo Papa. Comparava o "nobre poder
espiritual" do Papa com aquele terreno das dinastias asiáticas,
destacando, porém, a necessidade de separar o Estado da Igreja, seguindo
o ensinamento de Cristo (Mt 22, 21) e a sua aplicação no Magistério.
Durante as perseguições do século XIX, a Igreja passou por um período
de catacumbas do qual, no entanto, saiu, chegando hoje à linha de
frente. A Igreja é fermento, não somente na vida política, quando, por
exemplo, lutou contra a ditadura militar Yushin, mas é protagonista da
esfera social e cultural através das batalhas em favor dos pobres, dos
marginalizados e, especialmente, em defesa da vida, contra a manipulação
genética e a eutanásia.
O Papa Francisco, como Pedro, vem para confirmar os irmãos na fé. Vai
incentivá-los nos encontros positivos já existentes e lhes oferecerá
novas ideias para fazer melhor onde for necessário.
De fato, nos últimos anos, a prática dos sacramentos estava
diminuindo e o cristianismo corria o risco de estar só na elite, embora,
no passado, a Igreja tenha contribuído significativamente para o
reconhecimento da mesma dignidade dos homens na então sociedade feudal
hierarquizada.
O Papa Bergoglio tem um forte consenso na Coreia. De acordo com uma
recente pesquisa nacional, os coreanos confiam no catolicismo mais do
que no budismo, que antes tinha a primazia da divulgação e adesão.
As conversões para o catolicismo aumentaram e dessa forma aumentou o
número de fieis nas igrejas. Continua a tristeza, mas a esperança não
morre para os cristãos da Coreia do Norte, para a resolução do conflito
interno que continua a dividir uma nação por arame farpado entre o 38⁰ e
o 39⁰ paralelo: entre Seul e Pyngyang.
O "Palácio dos Correios” de Seul é composto de dois arranha-céus que
reproduzem uma dobradiça aberta que forma uma gigantesca letra V. Ao
vê-la, com a mente elevada aos arranha-céus do espírito, o Papa
Bergoglio conseguiria pensar na dobradiça aberta que deve ser fechada
para reunir em um mesmo povo, vítima da ideologia totalitária do passado
e herdeiro dos campos de batalha da Cortina de Ferro entre o Oriente e o
Ocidente do mundo.
A oração da Santa Missa para a Reconciliação, que irá concluir a
Viagem Apostólica na segunda-feira, 18 de Agosto, será como uma carta
para o Céu, onde cada coreano poderá escrever no alfabeto do Rei Seyong e
enviar, não do Palácio dos Correios, mas do Altar do Senhor, as mais
belas páginas de reconciliação e de paz pelo seu País.
* Enviado de ZENIT na Coreia do Sul
(13 de Agosto de 2014) © Innovative Media Inc.
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