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quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Em Seul, o Papa Francisco e os arranha-céus do espírito

Enquanto esperam a chegada do avião do Santo Padre, os coreanos são convidados a continuar o trabalho de reconciliação e de paz, como garantia de um desenvolvimento humano integral consolidado, não só económico


Seul, 13 de Agosto de 2014 (Zenit.org) Alfonso M. Bruno


A vida em Seul corre como as águas do rio Han e passa através das grandíssimas construções da cidade, uma das mais desenvolvidas da Ásia, terceira depois de Hong Kong e Cingapura, principalmente em arranha-céus. A partir de amanhã um novo desafio será lançado pelo Papa Francisco aqui nessa cidade.

A primeira viagem do Papa Bergoglio no Extremo Oriente se insere em um programa pastoral de pontificado, que, o levará, no mínimo, anualmente à Ásia. É o reconhecimento do papel social e político e do potencial religioso (especialmente católico) que o “Continente Amarelo” construiu nos últimos 30 anos. Não só as Filipinas, mas também Vietname, a Coreia, a China e o Japão, parecem fazer brotar agora mais do que nunca, as sementes da evangelização.

Baptizada com o sangue dos mártires e fecundada pelo extraordinário compromisso dos leigos seduzidos pela mensagem cristã, a Coreia acolhe o irmão de Matteo Ricci. Este foi um missionário jesuíta de Macerata, Itália, que no século XVI exportou ao Oriente "A verdadeira noção do Senhor do Céu", um trabalho comentado pelo coreano Lee Deok-mu, mas assimilado até o martírio por Paulo Yun Ji-ching, pai do cristianismo na Coreia, o primeiro dos 123 companheiros mártires que no sábado, 16 de Agosto, serão beatificados por Francisco.

A mensagem cristã atrai os coreanos por causa da sua elevação moral, pela exemplaridade de Cristo e pelo desenvolvimento e a continuidade daquelas “sementes de verdade” que estavam presentes já na cultura oriental. Wonhyo, o célebre mestre zen do budismo coreano, que viveu no VII século, afirmava que “fazer o bem a si mesmo e fazer o bem aos outros são como as duas asas de um pássaro”. O cristianismo já se mostrava naquela época mais eficaz e coerente com a realidade, se comparado com as regras da imobilidade de Confúcio.

No seu comentário aos textos de Matteo Ricci, Lee Deok-mu teve palavras elogiosas para o mesmo Papa. Comparava o "nobre poder espiritual" do Papa com aquele terreno das dinastias asiáticas, destacando, porém, a necessidade de separar o Estado da Igreja, seguindo o ensinamento de Cristo (Mt 22, 21) e a sua aplicação no Magistério.

Durante as perseguições do século XIX, a Igreja passou por um período de catacumbas do qual, no entanto, saiu, chegando hoje à linha de frente. A Igreja é fermento, não somente na vida política, quando, por exemplo, lutou contra a ditadura militar Yushin, mas é protagonista da esfera social e cultural através das batalhas em favor dos pobres, dos marginalizados e, especialmente, em defesa da vida, contra a manipulação genética e a eutanásia.

O Papa Francisco, como Pedro, vem para confirmar os irmãos na fé. Vai incentivá-los nos encontros positivos já existentes e lhes oferecerá novas ideias para fazer melhor onde for necessário.

De fato, nos últimos anos, a prática dos sacramentos estava diminuindo e o cristianismo corria o risco de estar só na elite, embora, no passado, a Igreja tenha contribuído significativamente para o reconhecimento da mesma dignidade dos homens na então sociedade feudal hierarquizada.

O Papa Bergoglio tem um forte consenso na Coreia. De acordo com uma recente pesquisa nacional, os coreanos confiam no catolicismo mais do que no budismo, que antes tinha a primazia da divulgação e adesão.

As conversões para o catolicismo aumentaram e dessa forma aumentou o número de fieis nas igrejas. Continua a tristeza, mas a esperança não morre para os cristãos da Coreia do Norte, para a resolução do conflito interno que continua a dividir uma nação por arame farpado entre o 38⁰ e o 39⁰ paralelo: entre Seul e Pyngyang.

O "Palácio dos Correios” de Seul é composto de dois arranha-céus que reproduzem uma dobradiça aberta que forma uma gigantesca letra V. Ao vê-la, com a mente elevada aos arranha-céus do espírito, o Papa Bergoglio conseguiria pensar na dobradiça aberta que deve ser fechada para reunir em um mesmo povo, vítima da ideologia totalitária do passado e herdeiro dos campos de batalha da Cortina de Ferro entre o Oriente e o Ocidente do mundo.

A oração da Santa Missa para a Reconciliação, que irá concluir a Viagem Apostólica na segunda-feira, 18 de Agosto, será como uma carta para o Céu, onde cada coreano poderá escrever no alfabeto do Rei Seyong e enviar, não do Palácio dos Correios, mas do Altar do Senhor, as mais belas páginas de reconciliação e de paz pelo seu País.

* Enviado de ZENIT na Coreia do Sul

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