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sábado, 4 de abril de 2026

Homilia do bispo de Beja na Celebração da Paixão do Senhor

A Igreja nasce da Cruz

Foto Diocese de Beja, Celebração da Paixão do Senhor

Caríssimos irmãos,

A Sexta-Feira Santa é o dia em que revivemos a paixão, crucifixão e morte de Jesus. Neste dia não se celebra a Santa Missa, mas a comunidade cristã reúne-se para meditar, à luz da Palavra de Deus, os padecimentos do Senhor. Hoje a liturgia é despojada, o altar está desnudado, não se canta o cântico de entrada e vários gestos expressam, exteriorizam o nosso sentir diante dos sofrimentos de Jesus e do amor com que, por nós, os suportou.

É também uma ocasião para ter presente o grande mistério do mal e do pecado que oprimem a humanidade. Depois de termos ouvido a narração da paixão de Cristo, iremos rezar, daqui a pouco por todas as necessidades da Igreja e do mundo, iremos adorar a Cruz e iremo-nos alimentar da Eucaristia, consumindo as espécies conservadas da Missa da Ceia do Senhor, que celebrámos no dia de ontem.

No Domingo passado ouvimos o relato da Paixão do Senhor, a partir do Evangelho segundo S. Mateus, o evangelista deste ano. No Evangelho que acabámos de escutar, é-nos narrada a Paixão de Jesus, desta vez segundo S. João e é sempre assim, neste dia de Sexta-Feira Santa. Gostaria de partilhar convosco duas breves meditações a partir deste texto evangélico.

O apelo à não violência

Nos três evangelhos sinóticos, alguém corta a orelha de um servo do sumo sacerdote, mas só S. João dá o nome do servo (Malco) e identifica o agressor como Pedro (Jo 18,10). S. João dá uma enfase especial a este episódio, acrescentando detalhes. Jesus não quer a violência, o seu Reino não é conquistado pela espada, mas pelo amor, pelo serviço e pelo sacrifício.

Vivemos um tempo muito marcado pela violência, pela guerra. Como esta mensagem de Jesus é atual, tremendamente atual! Não podemos desistir de construir a paz, criando pontes, dialogando, perdoando e rezando. Iremos rezar, também pela paz, daqui a pouco, nesta celebração, e hoje de uma forma particularmente expressiva. E somos convidados a ser instrumentos de paz e concórdia onde estamos, onde vivemos, nas nossas casas, famílias, comunidades, locais de trabalho, escolas, vizinhança. Cada um de nós pode, de alguma forma e a seu modo, contribuir para a construção da paz e da concórdia.

A Igreja nasce da Cruz

“Após a morte de Jesus, um soldado trespassa-lhe o lado com uma lança, e sai sangue e água” (Jo 19,34).

Esta passagem, exclusiva do Evangelho segundo S. João, é carregada de simbolismo e significado reconhecidos pela grande Tradição da Igreja, nomeadamente por S. Agostinho, S. João Crisóstomo, S. Bernardo de Claraval, entre outros:

Diz S. João Crisóstomo: “esta água e este sangue simbolizavam o Batismo e a Eucaristia. Foi destes sacramentos que nasceu a Igreja, pelo banho de regeneração e pela renovação do Espírito Santo, isto é, pelo sacramento do Batismo e pela Eucaristia que brotaram do lado de Cristo. Foi do lado de Cristo, por conseguinte, que se formou a Igreja, como foi do lado de Adão que Eva foi formada”.

Neste sentido místico, que nos é proposto pelos Padres da Igreja, podemos afirmar que a Igreja nasce do lado aberto do Senhor na Cruz. Dito de forma mais formal: Cristo instituiu a Igreja, sobre a qual havia de descer o Espírito Santo no Pentecostes. Contudo, antes de expirar, o Senhor entrega uma Mãe à Sua Igreja, como está escrito em Jo. 19, 26-27: “Jesus disse a sua Mãe: «Mulher, eis o teu filho». Depois disse ao discípulo: «Eis a tua Mãe».”.

Ao morrer na Cruz, Jesus confiou a Sua própria Mãe ao discípulo amado. Nesse discípulo — como reconhece a Tradição da Igreja — estamos todos nós: está a Igreja inteira. Em João, cada um de nós é confiado a Maria, que se torna, assim, também nossa Mãe. Pela comunhão com Cristo, somos feitos membros do Seu Corpo Místico e introduzidos na Sua família; por isso, tornamo-nos verdadeiramente filhos e filhas da Mãe de Jesus.

Como não dar graças a Deus pelo dom imenso de pertencermos à Igreja? Como não reconhecer tudo aquilo que nos foi dado ao sermos nela incorporados? A Igreja não é uma mera organização ou associação humana; é muito mais do que isso: é o Sacramento Universal da Salvação. Damos graças ao Senhor pela Sua Santa Cruz, pela qual nos salvou e nos deu a Igreja, na qual caminhamos na esperança da Ressurreição.

Por vezes, porém, vemos cristãos — praticantes e até empenhados — que manifestam de modo muito visível a sua pertença a diversos grupos: associações culturais, filantrópicas, profissionais, partidos políticos ou clubes desportivos. Nada há de errado nestes envolvimentos cívicos; pelo contrário! No entanto, causa apreensão notar que alguns destes mesmos cristãos não só não expressam a sua pertença à Igreja com o mesmo entusiasmo e visibilidade, como chegam, por vezes, a ocultá-la ou dissimulá-la, talvez por receio ou timidez social.

É, pois, necessário redescobrir o valor, a beleza e a alegria de pertencer à Igreja. Porque não se pertence a Cristo sem pertencer ao seu Corpo, que é a Igreja. Ou seja, é pela pertença à Igreja que pertencemos verdadeiramente a Cristo.

Peçamos a graça de nos unirmos mais intimamente ao Senhor, contemplando a Sua Paixão e adorando a Sua Santa Cruz, neste caminho rumo à Páscoa da Ressurreição.

Que Nossa Senhora das Dores — que permaneceu com admirável coragem e fidelidade ao pé da Cruz do Seu Filho — e São José, nosso padroeiro, nos amparem sempre neste caminho que fazemos em Igreja.

D. Fernando Paiva, Bispo de Beja




O mundo precisa da Páscoa…

Olá Bom Dia

O Papa presidiu ontem à Via-Sacra no Coliseu de Roma, com meditações do franciscano Francesco Patton, que denunciam os abusos de poder e o impacto da guerra. “Lançai um olhar de ternura sobre as muitas, demasiadas mães que ainda hoje, como vós, veem os seus filhos detidos, torturados, condenados, mortos. Lançai um olhar de ternura sobre as mães que são acordadas no meio da noite por uma notícia devastadora, e sobre aquelas que velam no hospital um filho que está a morrer”, pede o religioso, antigo custódio da Terra Santa, numa oração dirigida à Virgem Maria.

Os textos sobre as 14 estações - momentos ligados à prisão, julgamento e execução de Jesus Cristo - foram inspirados na espiritualidade de São Francisco de Assis, falecido há 800 anos.

O Papa conversou também por telefone com os presidentes da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, e de Israel, Isaac Herzog, abordando os conflitos em curso nos dois países, informou o Vaticano. Segundo nota enviada aos jornalistas, a conversa entre Leão XIV e Zelensky “centrou-se na situação humanitária, reiterando a urgência de garantir a ajuda necessária à população afetada pelo conflito”.

“Foi também feita referência aos esforços para promover iniciativas humanitárias, especialmente no que diz respeito à libertação de prisioneiros”, acrescenta o comunicado oficial.

O Papa deixou votos de boas festas da Páscoa, “reafirmando a sua proximidade com o povo ucraniano”.

“Por último, renovou-se a esperança de que, com o empenho e o apoio da comunidade internacional, o fim das hostilidades e uma paz justa e duradoura possam ser alcançadas o mais rapidamente possível”, conclui a nota.

Propostas para hoje… Para uma melhor vivência pascal.

Já sabe que pode acompanhar toda a atualidade religiosa, em Portugal e no mundo, no site www.agencia.ecclesia.pt/portal/

 

Cumprimentos

 

Luis Filipe Santos

 


agencia.ecclesia.pt

      



sexta-feira, 3 de abril de 2026

Beja: Eucaristia é uma «escola de doação e de serviço», afirmou D. Fernando Paiva

Bispo diocesano alertou para o dever de, ao comungar, estar atento ás «necessidades do próximo»

Foto Diocese de Beja, Missa da Ceia do Senhor

Beja, 02 abr 2026 (Ecclesia) – O bispo de Beja afirmou na homilia da Missa da Ceia do Senhor que o gesto do lava-pés “inverte a lógica do poder” e disse que participar na Eucaristia significa entrar numa “escola” de “doação e de serviço”.

“A Eucaristia é verdadeiramente uma escola de amor, de doação e de serviço. Nela, somos moldados por uma lógica distinta da do mundo: a lógica do dom”, disse D. Fernando Paiva.

“Celebrar a Eucaristia exige, portanto, que aceitemos entrar nesta escola. Ao comungarmos a hóstia santa, comungamos um estilo de vida que nos impele a baixarmo-nos diante das necessidades do próximo”, afirmou.

“A Eucaristia ensina-nos, pois, a viver na lógica da doação de nós mesmos e do serviço humilde em favor dos nossos irmãos”.

D. Fernando Paiva afirmou que, quando Jesus lavou os pés aos discípulos, assumiu a “condição de servo”, invertendo a “a lógica do poder” e revelando “a natureza do Seu Reino”.

O bispo de Beja lembrou que a Missa da Ceia do Senhor assinala a instituição da Eucaristia e do sacerdócio ministerial e ajuda a “entrar mais profundamente no mistério da Eucaristia”.

“A Eucaristia é de instituição divina; não se trata de uma criação humana ou de uma convenção social, mas de um mistério que nasce do próprio Cristo”, sublinhou.

D. Fernando Paiva afirmou também que “é vital compreender que a Eucaristia não emana da vontade da comunidade; ela vem de Cristo e é entregue à Igreja, que se torna o lugar próprio da sua transmissão e guarda”.

Durante a Missa da Ceia do Senhor, o bispo de Beja realizou o gesto do lava-pés a 12 homens.

PR






Uma tarefa para a vida inteira

Sexta-feira da Semana Santa é um dia de pausa, de memória da morte do Justo e de procura constante para tentar compreender o acontecimento talvez mais paradoxal da humanidade.

No início do Tríduo Pascal, muitas propostas de compreensão de uma morte na cruz passaram pelas homilias dos bispos diocesanos, em todo o país, que estão publicadas na Agência Ecclesia. Também em muitas mais reflexões e pronunciamentos, que sugerem abordagens essenciais para compreender essa doação total de Jesus Cristo.

O gesto do lava-pés, no contexto em que aconteceu, oferece uma chave de interpretação essencial para toda a paixão, morte e ressurreição de Cristo. E foi sobre foi esse gesto que o Papa Leão XIV quis refletir, na homilia da Missa da Ceia do Senhor. Proponho dois parágrafos da sua homilia:

Com a surpresa silenciosa dos seus discípulos, até mesmo o orgulho humano nos faz abrir os olhos para o que está a acontecer: tal como Pedro, que inicialmente resiste à iniciativa de Jesus, também nós devemos «aprender sempre de novo que a grandeza de Deus é diversa da nossa ideia de grandeza, […] porque sistematicamente desejamos um Deus do sucesso e não da Paixão». Estas palavras do Papa Bento XVI admitem com lucidez que somos sempre tentados a procurar um Deus que “nos sirva” e nos faça vencer, que seja prestativo como o dinheiro e o poder. Não compreendemos, porém, que Deus nos serve de verdade, sim, mas com o gesto gratuito e humilde de lavar os pés: eis a onipotência de Deus. Assim se cumpre a vontade de dedicar a vida a quem, sem este dom, não pode existir. Por causa do seu amor, o Senhor ajoelha-se para lavar o homem. E o dom divino transforma-nos.

Com o seu gesto, Jesus purifica a nossa imagem de Deus das idolatrias e blasfémias que a mancharam, mas purifica também a nossa imagem do homem, que se considera poderoso quando domina, que quer vencer matando quem lhe é igual, que se considera grande quando é temido. Verdadeiro Deus e verdadeiro homem, Cristo dá-nos, pelo contrário, um exemplo de dedicação, serviço e amor. Precisamos do seu exemplo para aprender a amar, não porque sejamos incapazes disso, mas precisamente para nos educarmos a nós próprios, e uns aos outros, no amor verdadeiro. Aprender a agir como Jesus, Sinal que Deus imprime na história do mundo, é tarefa para a vida inteira.

Que esta Sexta-feira seja um dia de contemplação, que motiva à doação, a exemplo do Mestre!

Paulo Rocha

 

 


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