A Igreja nasce da Cruz

Caríssimos irmãos,
A Sexta-Feira Santa é o dia em que revivemos a paixão, crucifixão e morte de Jesus. Neste dia não se celebra a Santa Missa, mas a comunidade cristã reúne-se para meditar, à luz da Palavra de Deus, os padecimentos do Senhor. Hoje a liturgia é despojada, o altar está desnudado, não se canta o cântico de entrada e vários gestos expressam, exteriorizam o nosso sentir diante dos sofrimentos de Jesus e do amor com que, por nós, os suportou.
É também uma ocasião para ter presente o grande mistério do mal e do pecado que oprimem a humanidade. Depois de termos ouvido a narração da paixão de Cristo, iremos rezar, daqui a pouco por todas as necessidades da Igreja e do mundo, iremos adorar a Cruz e iremo-nos alimentar da Eucaristia, consumindo as espécies conservadas da Missa da Ceia do Senhor, que celebrámos no dia de ontem.
No Domingo passado ouvimos o relato da Paixão do Senhor, a partir do Evangelho segundo S. Mateus, o evangelista deste ano. No Evangelho que acabámos de escutar, é-nos narrada a Paixão de Jesus, desta vez segundo S. João e é sempre assim, neste dia de Sexta-Feira Santa. Gostaria de partilhar convosco duas breves meditações a partir deste texto evangélico.
O apelo à não violência
Nos três evangelhos sinóticos, alguém corta a orelha de um servo do sumo sacerdote, mas só S. João dá o nome do servo (Malco) e identifica o agressor como Pedro (Jo 18,10). S. João dá uma enfase especial a este episódio, acrescentando detalhes. Jesus não quer a violência, o seu Reino não é conquistado pela espada, mas pelo amor, pelo serviço e pelo sacrifício.
Vivemos um tempo muito marcado pela violência, pela guerra. Como esta mensagem de Jesus é atual, tremendamente atual! Não podemos desistir de construir a paz, criando pontes, dialogando, perdoando e rezando. Iremos rezar, também pela paz, daqui a pouco, nesta celebração, e hoje de uma forma particularmente expressiva. E somos convidados a ser instrumentos de paz e concórdia onde estamos, onde vivemos, nas nossas casas, famílias, comunidades, locais de trabalho, escolas, vizinhança. Cada um de nós pode, de alguma forma e a seu modo, contribuir para a construção da paz e da concórdia.
A Igreja nasce da Cruz
“Após a morte de Jesus, um soldado trespassa-lhe o lado com uma lança, e sai sangue e água” (Jo 19,34).
Esta passagem, exclusiva do Evangelho segundo S. João, é carregada de simbolismo e significado reconhecidos pela grande Tradição da Igreja, nomeadamente por S. Agostinho, S. João Crisóstomo, S. Bernardo de Claraval, entre outros:
Diz S. João Crisóstomo: “esta água e este sangue simbolizavam o Batismo e a Eucaristia. Foi destes sacramentos que nasceu a Igreja, pelo banho de regeneração e pela renovação do Espírito Santo, isto é, pelo sacramento do Batismo e pela Eucaristia que brotaram do lado de Cristo. Foi do lado de Cristo, por conseguinte, que se formou a Igreja, como foi do lado de Adão que Eva foi formada”.
Neste sentido místico, que nos é proposto pelos Padres da Igreja, podemos afirmar que a Igreja nasce do lado aberto do Senhor na Cruz. Dito de forma mais formal: Cristo instituiu a Igreja, sobre a qual havia de descer o Espírito Santo no Pentecostes. Contudo, antes de expirar, o Senhor entrega uma Mãe à Sua Igreja, como está escrito em Jo. 19, 26-27: “Jesus disse a sua Mãe: «Mulher, eis o teu filho». Depois disse ao discípulo: «Eis a tua Mãe».”.
Ao morrer na Cruz, Jesus confiou a Sua própria Mãe ao discípulo amado. Nesse discípulo — como reconhece a Tradição da Igreja — estamos todos nós: está a Igreja inteira. Em João, cada um de nós é confiado a Maria, que se torna, assim, também nossa Mãe. Pela comunhão com Cristo, somos feitos membros do Seu Corpo Místico e introduzidos na Sua família; por isso, tornamo-nos verdadeiramente filhos e filhas da Mãe de Jesus.
Como não dar graças a Deus pelo dom imenso de pertencermos à Igreja? Como não reconhecer tudo aquilo que nos foi dado ao sermos nela incorporados? A Igreja não é uma mera organização ou associação humana; é muito mais do que isso: é o Sacramento Universal da Salvação. Damos graças ao Senhor pela Sua Santa Cruz, pela qual nos salvou e nos deu a Igreja, na qual caminhamos na esperança da Ressurreição.
Por vezes, porém, vemos cristãos — praticantes e até empenhados — que manifestam de modo muito visível a sua pertença a diversos grupos: associações culturais, filantrópicas, profissionais, partidos políticos ou clubes desportivos. Nada há de errado nestes envolvimentos cívicos; pelo contrário! No entanto, causa apreensão notar que alguns destes mesmos cristãos não só não expressam a sua pertença à Igreja com o mesmo entusiasmo e visibilidade, como chegam, por vezes, a ocultá-la ou dissimulá-la, talvez por receio ou timidez social.
É, pois, necessário redescobrir o valor, a beleza e a alegria de pertencer à Igreja. Porque não se pertence a Cristo sem pertencer ao seu Corpo, que é a Igreja. Ou seja, é pela pertença à Igreja que pertencemos verdadeiramente a Cristo.
Peçamos a graça de nos unirmos mais intimamente ao Senhor, contemplando a Sua Paixão e adorando a Sua Santa Cruz, neste caminho rumo à Páscoa da Ressurreição.
Que Nossa Senhora das Dores — que permaneceu com admirável coragem e fidelidade ao pé da Cruz do Seu Filho — e São José, nosso padroeiro, nos amparem sempre neste caminho que fazemos em Igreja.
D. Fernando Paiva, Bispo de Beja




