D. Andrés Carrascosa Coso presidiu à Missa na Sé da cidade, onde encorajou a não ter medo de «experimentar caminhos novos», comprometendo-se a voltar ao território

Beja, 19 set 2026 (Ecclesia) – O núncio apostólico em Portugal desafiou, este sábado, a Diocese de Beja a sair em missão e a concretizar a sinodalidade, na Eucaristia a que presidiu na Catedral daquela cidade.
“Somos uma Igreja que não fica parada. E talvez aqui esteja uma das grandes perguntas para o caminho pastoral da diocese. Como podemos passar de uma Igreja que espera que venham a uma Igreja que vai, que sai ao encontro?”, afirmou D. Andrés Carrascosa Coso na homilia.
O arcebispo espanhol, que recorreu à parábola dos trabalhadores na vinha, lembrou que o dono desta plantação “não fica sentado à espera que os trabalhadores apareçam”, mas sai ao encontro, realçando que “esta imagem” pode ajudar “a compreender o que significa uma Igreja missionária, uma Igreja sinodal, uma Igreja que não se fecha sobre si mesma”.
“A sinodalidade não significa simplesmente caminhar juntos porque estamos todos reunidos. Significa reconhecer que todos somos chamados a caminhar com Cristo e que todos temos alguma coisa a oferecer à missão da Igreja”, defendeu.
Na Eucaristia que encerrou o Dia Diocesano de Beja, o representante do Papa em Portugal salientou a palavra “ide” como “missionária”, enfatizando a importância de que esta seja escutada.
Ide às famílias. Ide ao encontro dos jovens. Ide às periferias. Ide ao encontro daqueles que deixaram de vir. Ide ao encontro dos que procuram. Ide aos que sofrem. Ide aos que estão sós. Quanta solidão. Ide aos que não conhecem o Evangelho. Ide também àqueles que pensam que a Igreja já não tem nada para lhes dizer. Ide. Ide vós também para a minha vinha”, pediu.
Segundo Andrés Carrascosa Coso, “uma diocese será tanto mais viva quanto mais os seus membros descobrirem que não são simplesmente destinatários da pastoral, mas que são protagonistas da missão”.
Perante os participantes do Dia Diocesano de Beja que encheram a catedral para a Eucaristia, o núncio apostólico apontou que “talvez uma das grandes tentações da Igreja” seja “pensar que já não há pessoas suficientes”.
“Que somos poucos. Que as nossas comunidades envelhecem. Que faltam sacerdotes. Que os jovens não participam. Que tantas pessoas já não entram nas nossas igrejas. Tudo isso é uma realidade que não podemos ignorar. Mas não podemos ficar nos lamentos”, alertou.
Na homilia, o arcebispo espanhol considerou que “o caminho pastoral de uma diocese não pode ser apenas uma sucessão de atividades”, salientando que é, antes de tudo, um caminho de conversão: “Conversão pessoal. Conversão comunitária. Conversão pastoral. Conversão missionária”.
“E talvez a pergunta que hoje deveríamos levar para casa seja muito simples. Senhor, o que Tu queres converter em mim? O que Tu queres converter em mim? E depois, Senhor, o que Tu queres converter na nossa comunidade? Porque a verdadeira renovação pastoral não começa por querer que os outros mudem. Começa por deixar que Cristo nos mude a nós”, evidenciou.
O “caminho de procura, de participação” e de renovação pastoral” da Diocese de Beja nos últimos anos foi mencionado pelo arcebispo espanhol, que advertiu que “a sinodalidade não pode ficar apenas nas palavras”, mas “tem de se transformar em vida”.
Sinodalidade significa aprender a escutar. Escutar a Deus em primeiro lugar. Escutar a palavra de Deus. Escutar os irmãos. Escutar aqueles que pensam como nós. Mas também escutar aqueles que pensam de maneira diferente a nós. Significa discernir juntos. Significa reconhecer os carismas, os dons que cada um tem. Significa criar espaço para participação. Significa, sobretudo, caminhar juntos para a missão”, acrescentou.
O núncio apostólico em Portugal encorajou também a Diocese de Beja a não ter medo de começar de novo, bem como “de experimentar caminhos novos”, “de confiar nos jovens”.
“Não tenhais medo, padres e diáconos, de dar responsabilidades aos leigos. Não tenhais medo de reconhecer os carismas das mulheres, que sois maioria absoluta. Não tenhais medo de acolher quem regressa. Às vezes somos duros com quem regressa”, desenvolveu.
No final da celebração, o representante do Papa em Portugal incentivou também os presentes a saírem ao encontro das respetivas paróquias, famílias, ambientes de trabalho, jovens e pobres.
“Ide ao encontro dos que sofrem. Ide ao encontro daqueles que perderam a esperança. Ide de ao encontro daqueles que estão à espera. Talvez sem sequer saberem que estão à espera de Deus. E não vos pergunteis. Será que somos suficientes? Perguntai antes. Estamos disponíveis?”, apelou.
Antes da celebração, D. Andrés Carrascosa Coso revelou, em declarações à Agência ECCLESIA, que visitava Beja pela primeira vez e que tinha previsto passar o dia na cidade, mas a tomada de posse do bispo do Algarve obrigou-o a limitar a sua presença à Eucaristia de encerramento.
“Vou prometer que vou voltar noutro momento para me encontrar com os padres, para encontrar com os membros da vida consagrada, com o laicado, etc”, disse.
O núncio apostólico em Portugal explicou que tem vindo a visitar as dioceses a convite dos bispos portugueses e desta vez foi o bispo de Beja que fez o convite.
“Acho que como representante do Papa, para fazer bem o meu trabalho, devo conhecer primeiramente o país e a Igreja. Se fico no escritório, não conheço nada”, mencionou.

O arcebispo espanhol tem a certeza que vai ser possível arranjar um momento para organizar outra visita a Beja: “Vou voltar”.
Desde que foi nomeado núncio apostólico em Portugal, D. Andrés Carrascosa Coso tem realizado visitas às dioceses que, confessa, incluem programas cheios de “encontros”, sobretudos com as pessoas, nomeadamente com os bispos, com os padres e também membros da vida consagrada.
“Em algumas dioceses, surpreendiam-se: ‘Mas o núncio quer-se encontrar connosco’. Sim, quero encontrar-me com os leigos. Conversar, não apenas falar para eles, mas também escutá-los e ter um diálogo”, referiu.
Eu acho que, como igreja, se queremos caminhar juntos, como deve ser, temos que nos conhecer, temos que nos falar, temos que escutar. E é isso que estou a fazer aos poucos. Acho que visitei metade das dioceses. Agora tenho um programa de três dioceses em oito dias. Aos poucos vou chegar todo o país”, acrescentou.
LJ/OC









