Em entrevista, o procurador da Igreja caldeia junto à Santa Sé denuncia estratégia estabelecida pelos extremistas, acusa os EUA e anuncia oração ecuménica pela paz
Roma, 15 de Agosto de 2014 (Zenit.org) Federico Cenci
O ano era 1840. A cidade italiana de Otranto era esmagada
por um dos mais brutais massacres perpetrados na história por mão
islâmica contra os cristãos. Morreram, em somente 18 dias de cerco pelo
exército otomano, 813 pessoas que corajosamente se recusaram a renunciar
à fé em Cristo. Neste dia 14 de Agosto, aniversário do fim dessa
chacina, a Igreja recordou os seus mártires.
E é impactante saber que, exactos 174 anos depois daqueles
acontecimentos, em outra área do planeta, no Iraque, a história se
repete.
Explodem nos jornais de todo o mundo as notícias da cruel perseguição
que está afligindo dezenas de milhares de cristãos iraquianos e de
yazidis, outra minoria do país, forçados a fugir das próprias cidades
sitiadas pelos fundamentalistas que, sob a sigla do Estado Islâmico do
Iraque e do Levante (EIIL), alimentam a intenção de estabelecer um
califado baseado em rígidas e brutais interpretações religiosas.
Muitas pessoas já foram mortas, outras muitas ficaram feridas ou
isoladas no Monte Sinjar, sem comida nem água, vendo de perto a ameaça
da morte. Seguem-se apelos e mais apelos à paz por parte do papa e da
Igreja, assim como convites à oração e ao comprometimento em actos
concretos de ajuda.
Um encontro ecuménico de oração está programado para a próxima
segunda-feira, 18 de Agosto, no Egipto. Estará presente mons. Philip
Najim, procurador da Igreja caldeia junto à Santa Sé e visitador
apostólico para a Europa. Neste período, ele é também o encarregado de
administrar a diocese dedicada aos caldeus no Egipto.
ZENIT conversou com ele por telefone.
***
ZENIT: Excelência, poderia nos falar sobre a iniciativa da qual o senhor vai participar no Egipto?
Mons. Philip Najim: É uma resposta ao apelo do Santo Padre para
rezarmos pela paz. Aderiram a ela todos os líderes das Igrejas cristãs
presentes no Egito, para dar à assembleia um forte valor ecuménico. Nós
vamos orar por todos os cristãos perseguidos no Oriente Médio,
especialmente no Iraque.
ZENIT: Falando no Iraque, em 2009 o senhor declarou, a
respeito da escalada de atentados, que estava em andamento um plano para
expulsar os cristãos do país. É uma declaração que, infelizmente, se
revelou profética...
Mons. Philip Najim: O que está acontecendo hoje não é surpreendente.
Já faz anos que o Iraque está nas garras do terrorismo. Foi queimado um
grande número de igrejas e foram mortos muitos cristãos em vários
atentados. Eu me lembro que, em 2008, foi morto mons. Faraj Rahho, bispo
de Mossul, além do secretário da diocese e de vários diáconos e
sacerdotes caldeus. Nós não podemos nos esquecer, também, da tragédia da
Igreja siro-católica de Saydat-al-Najat, onde um grupo de terroristas
pertencentes ao EIIL massacrou a sangue frio 37 fiéis que estavam
reunidos em oração. Estes episódios são uma prova de que a situação de
hoje é o resultado de uma estratégia programada, desenvolvida ao longo
dos anos para esvaziar o Iraque da presença de cristãos. Eu gostaria
também de fazer um comentário...
ZENIT: À vontade!
Mons. Philip Najim: Esses terroristas interpretam a nossa fé pacífica
de cristãos como um sinal de fraqueza. Mas eles estão errados, porque a
nossa fé é um testemunho do facto de que nós acreditamos que a única
arma para se construir uma sociedade baseada no bem é a oração e não a
violência.
ZENIT: Como é que um grupo como o EIIL, que ninguém conhecia no Ocidente até poucos meses atrás, conseguiu tanta força?
Mons. Philip Najim: Falava-se do EIIL no passado como uma das muitas
facções fundamentalistas que existem no Oriente Médio, composta por não
muitos militantes. Hoje se estima que cerca de 20 mil homens façam parte
do grupo. Este crescimento mostra que houve uma estratégia precisa,
facilitada pelo facto de que o exército iraquiano fugiu de Mossul
deixando os barracões cheios de armas. O EIIL se apropriou rápido desse espólio, aumentando o seu potencial bélico.
ZENIT: Além desse aumento do poderio bélico, parece que o
EIIL também conta com amplo apoio popular. O senhor tem a mesma
impressão?
Mons. Philip Najim: Sem dúvida. O EIIL tem uma notável capacidade de
arrebanhar os jovens, especialmente os mais desesperados, ou seja,
aqueles que precisam de dinheiro, ou aqueles que são ameaçados de morte
se não aderirem à organização. E eles usam o componente religioso,
convencendo os novos adeptos de que os seus actos são feitos em nome do
islão. É uma mensagem errada, porque os verdadeiros crentes muçulmanos
sabem que Deus deu a vida ao homem e ela não pode ser tirada por outro
homem. Esses dias, aqui no Egipto, eu me encontrei com o grande imã da
Universidade de Al-Azhar e disse a ele expressamente: "Excelência, se o
EIIL não é o islão, se a Al-Qaeda não é o islão, se a Irmandade Muçulmana
não é o islão, então o mundo quer ver os líderes do islão não só
condenando, mas também proibindo a adesão dos islâmicos a esses grupos".
Neste sentido, foi muito importante a declaração do Conselho Pontifício
para o Diálogo Inter-Religioso, que afirma que não se pode usar a
religião para justificar o terrorismo.
ZENIT: O senhor acredita que a intervenção norte-americana
vai conseguir deter o avanço do EIIL? O patriarca caldeu Louis Raphael I
Sako disse que é obrigação dos Estados Unidos, da União Europeia e da
Liga Árabe “limpar a planície de Nínive dos extremistas islâmicos”...
Mons. Philip Najim: No passado, os Estados Unidos vieram para o
Iraque só para proteger os seus próprios interesses, não para ajudar o
povo. Em nome da democracia, eles intervieram no país em 2003 para
libertá-lo de uma ditadura, mas o jogaram nas mãos dos terroristas. Por
esta razão, eu concordo com o apelo do nosso patriarca e acho que os
americanos têm hoje a responsabilidade de tomar medidas para resolver
esta situação.
ZENIT: Qual é o nível de importância da criação de uma
unidade política em Bagdá? O senhor confia no novo primeiro-ministro
Al-Abadi?
Mons. Philip Najim: É dever de todo político defender a dignidade, a
unidade e a vida do povo. Se você é incapaz de perseguir esse objectivo,
tem que abandonar o papel que foi atribuído a você. Eu espero que o
Iraque possa recuperar uma unidade política digna de representar todo o
povo.
ZENIT: Como o senhor avalia a escolha do papa de enviar o cardeal Filoni como enviado pessoal ao Iraque?
Mons. Philip Najim: A presença do cardeal Filoni é muito importante.
Eu acredito que o papa escolheu o homem certo como seu enviado pessoal,
porque, no período da invasão americana, ele era o núncio apostólico no
Iraque e sofreu junto com a população. Ele é uma pessoa conhecida e
apreciada, capaz de dialogar tanto com os políticos quanto com os
líderes religiosos das várias confissões. A escolha do papa é sábia, é
uma forma autêntica de mostrar solidariedade para com os cristãos no
Iraque.
(15 de Agosto de 2014) © Innovative Media Inc.
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