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sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Bispos coreanos: descendentes dos mártires, guardiões da memória e da esperança

Segundo compromisso da viagem à Coreia: o Papa se encontra o episcopado em Seul e adverte contra a tentação de avaliar os progressos da Igreja coreana de acordo com uma óptica triunfalista e mundana


Roma, 14 de Agosto de 2014 (Zenit.org) Salvatore Cernuzio


É uma Igreja dinâmica, que se apresenta aos olhos do Papa Francisco durante as poucas horas passadas na Coreia do Sul. Um dinamismo que se reflecte acima de tudo no serviço dos bispos asiáticos, pastores que o Santo Padre chamou para serem "guardiões" não só do rebanho do Senhor, mas sim da memória, da esperança e das maravilhas do Criador entre o seu povo.

O encontro do Papa com os bispos da Ásia ocorreu às 17:30 (hora local, 5:30 horário de Brasília), na sede da Conferência Episcopal de Seul. Este é o segundo compromisso oficial da viagem do Pontífice, depois daquele com as autoridades na "Blue House". Que acolhe o Papa foi o presidente da CBCK e bispo de Cheju, Mons Peter Kang U-il, em conjunto com o arcebispo emérito de Seul, o Cardeal Nicholas Cheong Jinsuk, e o seu sucessor também administrador apostólico de P'yŏng-yang, o card. Andrew Yeom Soo-jung.

Os prelados acompanharam o Papa na capela onde estavam esperando os sacerdotes e religiosos hóspedes da estrutura, com alguns missionários idosos de Maryknoll, sociedade americana para as missões estrangeiras.

Na pequena capela Bergoglio pronunciou o seu longo discurso, o qual, não como Papa, mas como "irmão no episcopado", concedeu aos bispos algumas orientações e conselhos para cumprir totalmente o seu mandato, ou seja, "cuidar do povo de Deus". Uma tarefa não fácil em um país onde a fé cristã floresceu graças ao sangue dos mártires e do trabalho de gerações de intelectuais leigos. Seu trabalho constante, paciente e fiel de evangelização significou que em menos de um século, os seguidores de Cristo aumentaram do 2 para o 30% da população.

O Papa Francisco exorta os bispos a reflectir sobre isso, ou seja, da memória de uma igreja que hoje abrange cerca de 5,5 milhões de pessoas, mas que em suas origens foi marcada por perseguições e banhado em sangue inocente. "Ser guardiões da memória" é, de facto, a exortação do Bispo de Roma, que convida a "agradecer ao Senhor que, a partir de sementes espalhadas pelos mártires, trouxe à luz uma colheita abundante de graça nesta terra".

"Vocês são os descendentes dos mártires - diz Francisco - herdeiros do seu heróico testemunho de fé em Cristo". É "significativo", acrescenta, que a história da Igreja na Coreia "tenha começado a partir de um encontro directo com a Palavra de Deus", isto é, graças à "beleza intrínseca" do Evangelho que impressionou YiByeok e os nobres anciãos da primeira geração.

A essa mensagem, “à sua pureza”, que a Igreja coreana olha “como em um espelho, para descobrir autenticamente a si mesma”, afirma o papa. E observa com agrado o "florescimento de paróquias activas e de movimentos eclesiais", os “sólidos” programas de catequese, "o cuidado pastoral com os jovens nas escolas católicas, nos seminários e nas universidades". Sinais eloquentes que o Evangelho e o legado dos antepassados ​​realmente fecundaram na terra asiática.
"De terra de missão a Coreia tornou-se uma terra de missionários", diz Bergoglio, ela se tornou uma referência para a Igreja universal que "se beneficia de muitos sacerdotes e religiosos que vocês enviaram ao mundo". Ser guardiões da memória, então, significa "algo mais do que lembrar e entesourar as graças do passado". Significa "também tirar delas os recursos espirituais para enfrentar com visão e determinação as esperanças, as promessas e os desafios do futuro", sem medir tudo "em termos exteriores, quantitativos e institucionais".

A nossa memória deve ser, portanto, "realista", e não "idealizada", nem sequer "triunfalista", diz o Papa. Este mesmo realismo deve permear até mesmo a "custódia da esperança", aquela mesma esperança "oferecida pelo Evangelho", que "inspirou os mártires "e que deve ser proclamada em um mundo que," apesar da sua prosperidade material, está à procura de algo maior", autêntico, que dê plenitude. Especialmente os bispos são chamados a cumprir este mandato - observa o Papa – chamando os fieis “às fontes da graça na liturgia e nos sacramentos” e mantendo viva “a chama da santidade, da caridade fraterna e do zelo missionário na comunhão eclesial”.

Por esta razão, o Papa pede-lhes para ficar perto dos sacerdotes, “incentivando-os no seu trabalho diário, na busca da santidade e no anúncio do Evangelho da salvação". Em seguida, pede um especial cuidado” com as crianças e os mais anciãos. “Como podemos ser guardiões da esperança se negligenciarmos a memória, a sabedoria e a experiência das pessoas mais velhas e as aspirações dos jovens?", pergunta.

Acima de tudo é a educação dos jovens que deve ser salvaguardada, “apoiando na sua indispensável missão não só as universidades, mas também as escolas católicas de todos os graus, desde os elementares, onde as jovens mentes e os corações são formados no amor de Deus e da sua Igreja, para o bem, o verdadeiro e o belo, para serem bons cristãos e cidadãos honestos”.

Mas não se chega a verdadeiros “guardiões da esperança" se esquecemos do “cuidado” com os pobres, os refugiados e os migrantes e por “aqueles que vivem às margens da sociedade”. Essa - observa Bergoglio - "deveria manifestar-se não só através de iniciativas concretas de caridade, mas também no trabalho constante de promoção a nível social, ocupacional e educacional". O risco é, de facto, de "reduzir o nosso compromisso com os necessitados à dimensão só existencial”, deixando “a necessidade de cada um de crescer como pessoa e de poder expressar com dignidade a própria personalidade, criatividade e cultura”.

A esperança de Francisco é, portanto, que o mesmo "ideal apostólico de uma Igreja dos pobres e para os pobres" que encontrou expressão eloquente nas comunidades cristãs primitivas “continue a modelar o caminho da Igreja na Coreia na sua peregrinação para o futuro”.

Desta forma, o Papa identifica alguns desafios para a Igreja na Coreia, especialmente no meio de uma sociedade "próspera, mas sempre cada vez mais secularizada e materialista". A primeira é a tentação dos agentes pastorais de "adoptar não só eficazes modelos de gestão, planeamento e organização tirados do mundo dos negócios, mas também um estilo de vida e uma mentalidade guiados mais por critérios mundanos de sucesso e até de poder do que pelos critérios estabelecidos por Jesus no Evangelho". "Ai de nós se a cruz for esvaziada de seu poder para julgar a sabedoria deste mundo!", adverte o Papa citando São Paulo. Todos os bispos e os sacerdotes devem "rejeitar essa tentação em todas as suas formas", salvando-se "daquele mundanismo espiritual e pastoral que sufoca o Espírito".

Em conclusão, Francisco assegura a sua oração para que possa aumentar “a unidade, a santidade e o zelo dos fiéis na Coreia". Finalmente, invoca Maria, Mãe da Igreja, para que as suas orações possam levar “à plena floração nesta terra as sementes espalhadas pelos mártires, pulverizadas por gerações de fiéis católicos e transmitida a vocês como uma promessa para o futuro do país e do mundo."

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