Segundo compromisso da viagem à Coreia: o Papa se encontra o episcopado em Seul e adverte contra a tentação de avaliar os progressos da Igreja coreana de acordo com uma óptica triunfalista e mundana
Roma, 14 de Agosto de 2014 (Zenit.org) Salvatore Cernuzio
É uma Igreja dinâmica, que se apresenta aos olhos do Papa
Francisco durante as poucas horas passadas na Coreia do Sul. Um
dinamismo que se reflecte acima de tudo no serviço dos bispos asiáticos,
pastores que o Santo Padre chamou para serem "guardiões" não só do
rebanho do Senhor, mas sim da memória, da esperança e das maravilhas do
Criador entre o seu povo.
O encontro do Papa com os bispos da Ásia ocorreu às 17:30 (hora
local, 5:30 horário de Brasília), na sede da Conferência Episcopal de
Seul. Este é o segundo compromisso oficial da viagem do Pontífice,
depois daquele com as autoridades na "Blue House". Que acolhe o Papa foi
o presidente da CBCK e bispo de Cheju, Mons Peter Kang U-il, em
conjunto com o arcebispo emérito de Seul, o Cardeal Nicholas Cheong
Jinsuk, e o seu sucessor também administrador apostólico de P'yŏng-yang,
o card. Andrew Yeom Soo-jung.
Os prelados acompanharam o Papa na capela onde estavam esperando os
sacerdotes e religiosos hóspedes da estrutura, com alguns missionários
idosos de Maryknoll, sociedade americana para as missões estrangeiras.
Na pequena capela Bergoglio pronunciou o seu longo discurso, o qual,
não como Papa, mas como "irmão no episcopado", concedeu aos bispos
algumas orientações e conselhos para cumprir totalmente o seu mandato,
ou seja, "cuidar do povo de Deus". Uma tarefa não fácil em um país onde a
fé cristã floresceu graças ao sangue dos mártires e do trabalho de
gerações de intelectuais leigos. Seu trabalho constante, paciente e fiel
de evangelização significou que em menos de um século, os seguidores de
Cristo aumentaram do 2 para o 30% da população.
O Papa Francisco exorta os bispos a reflectir sobre isso, ou seja, da
memória de uma igreja que hoje abrange cerca de 5,5 milhões de pessoas,
mas que em suas origens foi marcada por perseguições e banhado em sangue
inocente. "Ser guardiões da memória" é, de facto, a exortação do Bispo
de Roma, que convida a "agradecer ao Senhor que, a partir de sementes
espalhadas pelos mártires, trouxe à luz uma colheita abundante de graça
nesta terra".
"Vocês são os descendentes dos mártires - diz Francisco - herdeiros
do seu heróico testemunho de fé em Cristo". É "significativo",
acrescenta, que a história da Igreja na Coreia "tenha começado a partir
de um encontro directo com a Palavra de Deus", isto é, graças à "beleza
intrínseca" do Evangelho que impressionou YiByeok e os nobres anciãos da
primeira geração.
A essa mensagem, “à sua pureza”, que a Igreja coreana olha “como em
um espelho, para descobrir autenticamente a si mesma”, afirma o papa. E
observa com agrado o "florescimento de paróquias activas e de movimentos
eclesiais", os “sólidos” programas de catequese, "o cuidado pastoral com
os jovens nas escolas católicas, nos seminários e nas universidades".
Sinais eloquentes que o Evangelho e o legado dos antepassados
realmente fecundaram na terra asiática.
"De terra de missão a Coreia tornou-se uma terra de missionários",
diz Bergoglio, ela se tornou uma referência para a Igreja universal que
"se beneficia de muitos sacerdotes e religiosos que vocês enviaram ao
mundo". Ser guardiões da memória, então, significa "algo mais do que
lembrar e entesourar as graças do passado". Significa "também tirar
delas os recursos espirituais para enfrentar com visão e determinação as
esperanças, as promessas e os desafios do futuro", sem medir tudo "em
termos exteriores, quantitativos e institucionais".
A nossa memória deve ser, portanto, "realista", e não "idealizada",
nem sequer "triunfalista", diz o Papa. Este mesmo realismo deve permear
até mesmo a "custódia da esperança", aquela mesma esperança "oferecida
pelo Evangelho", que "inspirou os mártires "e que deve ser proclamada em
um mundo que," apesar da sua prosperidade material, está à procura de
algo maior", autêntico, que dê plenitude. Especialmente os bispos são
chamados a cumprir este mandato - observa o Papa – chamando os fieis “às
fontes da graça na liturgia e nos sacramentos” e mantendo viva “a chama
da santidade, da caridade fraterna e do zelo missionário na comunhão
eclesial”.
Por esta razão, o Papa pede-lhes para ficar perto dos sacerdotes,
“incentivando-os no seu trabalho diário, na busca da santidade e no
anúncio do Evangelho da salvação". Em seguida, pede um especial cuidado”
com as crianças e os mais anciãos. “Como podemos ser guardiões da
esperança se negligenciarmos a memória, a sabedoria e a experiência das
pessoas mais velhas e as aspirações dos jovens?", pergunta.
Acima de tudo é a educação dos jovens que deve ser salvaguardada,
“apoiando na sua indispensável missão não só as universidades, mas
também as escolas católicas de todos os graus, desde os elementares,
onde as jovens mentes e os corações são formados no amor de Deus e da
sua Igreja, para o bem, o verdadeiro e o belo, para serem bons cristãos e
cidadãos honestos”.
Mas não se chega a verdadeiros “guardiões da esperança" se esquecemos
do “cuidado” com os pobres, os refugiados e os migrantes e por “aqueles
que vivem às margens da sociedade”. Essa - observa Bergoglio - "deveria
manifestar-se não só através de iniciativas concretas de caridade, mas
também no trabalho constante de promoção a nível social, ocupacional e
educacional". O risco é, de facto, de "reduzir o nosso compromisso com os
necessitados à dimensão só existencial”, deixando “a necessidade de
cada um de crescer como pessoa e de poder expressar com dignidade a
própria personalidade, criatividade e cultura”.
A esperança de Francisco é, portanto, que o mesmo "ideal apostólico
de uma Igreja dos pobres e para os pobres" que encontrou expressão
eloquente nas comunidades cristãs primitivas “continue a modelar o
caminho da Igreja na Coreia na sua peregrinação para o futuro”.
Desta forma, o Papa identifica alguns desafios para a Igreja na Coreia, especialmente no meio de uma sociedade "próspera, mas sempre
cada vez mais secularizada e materialista". A primeira é a tentação dos
agentes pastorais de "adoptar não só eficazes modelos de gestão,
planeamento e organização tirados do mundo dos negócios, mas também um
estilo de vida e uma mentalidade guiados mais por critérios mundanos de
sucesso e até de poder do que pelos critérios estabelecidos por Jesus no
Evangelho". "Ai de nós se a cruz for esvaziada de seu poder para julgar
a sabedoria deste mundo!", adverte o Papa citando São Paulo. Todos os
bispos e os sacerdotes devem "rejeitar essa tentação em todas as suas
formas", salvando-se "daquele mundanismo espiritual e pastoral que
sufoca o Espírito".
Em conclusão, Francisco assegura a sua oração para que possa aumentar
“a unidade, a santidade e o zelo dos fiéis na Coreia". Finalmente,
invoca Maria, Mãe da Igreja, para que as suas orações possam levar “à
plena floração nesta terra as sementes espalhadas pelos mártires,
pulverizadas por gerações de fiéis católicos e transmitida a vocês como
uma promessa para o futuro do país e do mundo."
(14 de Agosto de 2014) © Innovative Media Inc.
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