Dom Ignatius Kaigana explica os "Diálogos da Vida" com os muçulmanos
Roma, 05 de Agosto de 2014 (Zenit.org)
Dom Ignatius Kaigama, da diocese de Jos, presidente da
Conferência dos Bispos da Nigéria, passou recentemente alguns dias em
Nova Iorque e abordou a situação de violência cada vez mais intensa em
seu país, onde os jihadistas do grupo radical Boko Haram continuam a
matar indiscriminadamente muçulmanos e cristãos.
No espaço de apenas uma semana no final de Julho, o grupo explodiu
duas bombas que mataram 100 pessoas, atacou uma igreja católica na
cidade de Kano e deixou 5 mortos e, numa acção profundamente
perturbadora, usou jovens meninas de apenas 10 anos de idade como
suicidas para detonar explosivos. Além disso, a data de 30 de Julho
marcou o 100º dia de sequestro de cerca de 300 meninas pelo Boko Haram, a
maioria delas cristãs.
O arcebispo conversou com a associação internacional católica Ajuda à Igreja que Sofre, em 31 de Julho.
Ajuda à Igreja que Sofre: Deixando o extremismo islâmico de
lado por um momento, qual é a relação entre os cristãos e os muçulmanos
na Nigéria?
Dom Kaigama: Há uma competição bastante saudável entre os dois
grupos. Muitas vezes, é uma luta por expansão geográfica e pela política
de dados. Cada grupo religioso reivindica superioridade numérica, mas
os registos não confirmam os dados. Há uma tensão inter-religiosa mais
pronunciada no norte. No sul, há uma abordagem mais liberal na relação
entre muçulmanos e cristãos. Existe uma compreensão melhor do casamento
entre cristãos e muçulmanos e o espírito de fanatismo ou fundamentalismo
é menos pronunciado.
No norte, em geral, um homem muçulmano pode se casar com uma mulher
muçulmana ou cristã; mas uma mulher muçulmana não pode se casar com um
cristão. Já no sul, existem casos de homens muçulmanos de destaque se
casando com mulheres cristãs e permitindo que elas continuem a praticar a
sua própria fé.
Que o norte muçulmano tenha sido dominante politicamente é um legado
do colonialismo. Na transferência de poder, em 1960, os britânicos
optaram por tirar proveito da administração indirecta e da prática da
sharia, o que levou a uma certa estabilidade e ordem.
AIS: O senhor acredita muito no diálogo, não é?
Dom Kaigama: Nós fazemos o nosso melhor para criar harmonia e
compreensão. Existe a Associação Cristã da Nigéria e o Conselho
Inter-Religioso da Nigéria. Esses órgãos unem muçulmanos e cristãos.
Temos que explorar o que nos une e o que nos diferencia. Não estamos
apenas lutando uns contra os outros. Isso é uma caricatura enganosa do
nosso país.
AIS: Mas, dadas as diferenças entre os dois grupos, o que o
diálogo pode realmente alcançar? Há uma diferença teológica e filosófica
bem considerável.
Dom Kaigama: Mas é melhor acender uma vela do que amaldiçoar a
escuridão. No meio da escuridão ou da violência, é melhor acender uma
vela, uma vela de esperança para dissipar a escuridão terrível da
violência. É verdade que não podemos entrar em teologia porque não
haverá qualquer progresso. Existe o que chamamos de "Diálogo da Vida".
Não há alternativa a não ser nos unirmos, como seres humanos, tomar chá
ou café juntos. Assim vamos conhecer uns aos outros. Pode haver alguma
troca de ideias. O "Diálogo da Vida" significa, simplesmente, “a sua
vida afecta a minha e a minha afecta a sua”. É muito simples. Não se trata
de produzir resultados imediatos, mas de ser amigos e de estar
envolvidos na conversa. Eu comecei este processo de forma modesta em
Jos, onde as coisas estavam muito mal quando eu fui nomeado para a
arquidiocese.
AIS: O governo não está à altura da tarefa de gerir
adequadamente o país? As coisas estavam muito ruins mesmo antes de o
Boko Haram estourar no cenário...
Dom Kaigama: Os nossos líderes simplesmente não são muito sensíveis
aos pobres, mesmo quando existe ajuda disponível. A Igreja, com as suas
possibilidades limitadas, tenta promover o diálogo, a prestação de
socorro e, mais simplesmente, esta lá, presente. Nós nos destacamos, sem
querer nos vangloriar, porque temos sido úteis indo além das divisões
políticas e religiosas. Esta boa vontade vem do coração e as pessoas a
apreciam. As pessoas vêm me pedir ajuda e muitas vezes eu me sinto
envergonhado porque só posso fazer muito pouco. Nós acabamos sendo
assistentes sociais. Eu pensava que o meu trabalho era apenas de
abençoar as pessoas... Mas eu também tenho que me preocupar com água e electricidade.
AIS: Existe algum tipo de apoio de alguma parcela da população ao Boko Haram?
Dom Kaigama: É difícil dizer, porque nós realmente não sabemos quem
eles são. Eles poderiam ser seus vizinhos; seus amigos da vida toda. Eu
sempre digo: “Você só os conhece quando eles estão mortos, quando eles
se explodem como homens-bomba”. Eles usam carros bons, porque querem ser
vistos como gente respeitável. E de repente, antes que você perceba,
acontece uma explosão.
AIS: O senhor acredita que o Boko Haram recebe financiamento do exterior?
Dom Kaigama: Tanto dentro quanto fora da Nigéria existem
simpatizantes poderosos. Até agora, o nosso governo não foi capaz de
acabar com o grupo. Deve haver maneiras de rastrear o financiamento e
outras formas de apoio, mas eu não acredito que o nosso governo esteja
fazendo disto uma prioridade. Esperamos que, com a ajuda da comunidade
internacional, o fluxo de armas e de fundos possa ser bloqueado. Mas,
apesar das minhas expectativas, não aconteceu quase nada, mesmo no
tocante ao rapto das alunas que virou manchete no mundo todo. O Boko
Haram é bem treinado e bem armado. Quem está ajudando na organização? Eu
suspeito de financiamento estrangeiro. Mas, apesar da grande quantidade
de dinheiro gasto pelo nosso governo e pelas forças armadas, ainda não
sabemos a maior parte das respostas.
AIS: Parece que o Boko Haram ampliou a sua gama de alvos,
incluindo também os muçulmanos moderados e instituições do Estado,
correto?
Dom Kaigama: No começo, nós pensamos que eles eram simplesmente
contra a educação ocidental e queriam propagar o que eles acreditavam
que fosse a autêntica mensagem do islão. Mas depois eles começaram a
atacar o governo e em seguida as igrejas. Os ataques contra igrejas têm
acontecido em muitos lugares, com a trágica perda de vidas, e continuam
até hoje. Não podemos esquecer que os lugares de culto dos muçulmanos
também têm sido alvos. Os ataques repetidos em Kano e em Kaduna mostram
que a luta foi além das religiões do islão e do cristianismo. Aliás,
muitos muçulmanos e cristãos de boa vontade estão falando uma linguagem
comum e agora estão procurando maneiras de combater essa ameaça.
AIS: O senhor, pessoalmente, tem medo?
Dom Kaigama: Bom, sim, é normal ter medo. Mas, dada a minha missão,
eu desisti de tudo para servir a Deus e ao seu povo. Eu não tenho uma
família biológica, esposa e filhos, nenhuma posse para chamar de minha.
Se eu perder a minha vida no processo de defesa dos direitos das pessoas
à liberdade de culto e à unidade da humanidade, eu não tenho mais nada,
além dos meus queridos colaboradores pastorais e das excelentes pessoas
de boa vontade, de várias origens étnicas e religiosas, que eu deixaria
para trás. Você não corteja a morte, mas ela é um fim inevitável para
todos nós, incluindo os que afirmam que estão matando e bombardeando em
nome de Deus. Mesmo sendo tão certo que a morte virá para todos, você
ainda tem medo da morte, e isso também é verdade para todos.
AIS: O senhor já recebeu alguma ameaça?
Dom Kaigama: Graças a Deus, não, mas eu sei que os meus movimentos e
actividades e até mesmo o meu celular estão sendo monitorizados. Mas como
eu não pretendo fazer nenhum mal, não incentivo nenhum mal nem apoio
nenhum mal, não tenho nada a esconder.
AIS: O que o senhor diz aos seus sacerdotes e religiosos quando se trata de lidar com o medo?
Dom Kaigama: Eu vou atrás das coisas. Eu nunca perco nenhuma cerimónia pública. Isso diz a eles que eu estou com eles, com as
pessoas. Mesmo que a violência aconteça ali do lado, eu continuo
participando das coisas públicas, usando o meu traje formal, para estar
presente. Os funcionários do governo já ficam longe. Eu não tenho uma
segurança particular. Isto seria um íman para os ataques. Os militantes
odeiam a polícia.
Além disso, usar segurança pessoal me tornaria um prisioneiro. E
faria o nosso povo sentir mais medo! Imagine os sacerdotes andando por
aí com guarda-costas. Nós acreditamos que Deus está connosco. Acreditamos
que vamos triunfar apesar das maquinações dos malfeitores.
AIS: O senhor acredita que o Boko Haram representa o mal?
Dom Kaigama: Sem dúvida. Quando você mata e extermina não só os
combatentes, mas as mulheres, as crianças, os pobres, isso é o mal. No
atentado contra o mercado de Jos, morreram 118 pessoas! E não eram
burocratas ou pessoas importantes; quem morreu era vendedor de laranja,
vendedor de amendoim, vendedor de leite, gente que estava tentando fazer
um pouco de dinheiro. Isso é uma expressão do mal.
AIS: De que as pessoas mais precisam na Nigéria?
Dom Kaigama: As pessoas precisam de solidariedade. A primeira coisa
que eu vou fazer quando retornar desta viagem é ir a uma paróquia e
participar de uma celebração de uma congregação que comemora o seu 50º
aniversário de fundação. Eu vou ficar numa aldeia que não tem electricidade, e não importa. Eu tenho que estar lá, presente.
AIS: Por causa da escassez de sacerdotes na América do Norte,
um número crescente de sacerdotes nigerianos tem vindo para os Estados
Unidos, para trabalhar em paróquias daqui. Qual é o dom da
espiritualidade nigeriana, o carisma da Igreja nigeriana? Qual é o seu
dom para a Igreja do mundo inteiro?
Dom Kaigama: Os nigerianos são um povo muito resistente. Nós passamos
por tanta coisa, guerra civil, violência, as atrocidades do Boko Haram,
mas você vê todos os nigerianos ainda sorrindo e prontos para seguir em
frente. Eles nunca dizem que tudo acabou. Esse espírito vibrante também
vem para dentro da Igreja. As nossas liturgias são algo especial, não é
apenas um assunto de rotina. Na sexta-feira, todo mundo já está
pensando no domingo para se preparar. No sábado, as roupas estão sendo
lavadas e preparadas. Isso diz: “tem algo grande sendo esperado!”. E até
porque nós não temos muitas oportunidades sociais e recreativas, a
missa dominical é tanto um evento espiritual quanto social.
(05 de Agosto de 2014) © Innovative Media Inc.
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