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quinta-feira, 20 de junho de 2019

Nossa Senhora de Paris

Nossa Senhora de Paris! Notre Dame de Paris! Ou simplesmente Notre Dame. O mundo incrédulo ouviu que Notre Dame estava a arder. Depois viu na televisão. Era mesmo verdade. Amigos telefonavam. Não se acreditava até se ligar a T.V. e ver, claramente visto, que era mesmo verdade. Vermos a Catedral, a Notre Dame, roída pelas chamas, ver a sua flecha com as labaredas subindo lentamente, como se alguém fosse trepando por ela acima! Finalmente ver o pináculo dobrar-se, inclinar-se e cair! Não era um filme de ficção. Era um filme de horror, mas da vida real.

Oitocentos anos de História a serem consumidos pelas chamas! A torre central, que se erguia para o céu, como duas mãos unidas em prece, agora, aparece-nos decepada. Metáfora do mundo atual? Talvez.

Mas a Catedral, que sempre congregou milhares, continuou com milhares à sua volta, solidários com o seu sofrimento. Milhares que choravam, rezavam, cantavam, num uníssono de fé e de esperança, muitos de joelhos. E isto numa França profundamente secularizada, em que o laicismo é um dos valores da república, onde muitas manifestações de religiosidade são proibidas em público.

Perto da Catedral, há um restaurante, misto de cabaré antigo e de piano-bar, que já se encontrava cheio à hora do incêndio. Nessa noite, a música foi outra: cerca de trinta pessoas, de joelhos sobre o asfalto, de mãos postas, olhos fechados, cantavam Ave-Marias. E ninguém se ria. Todos respeitavam ou juntavam-se ao grupo.

Outro grupo optou por cantar a Salve Rainha, em latim, para que todos, independentemente da língua, pudessem acompanhar. Um grupo de pessoas mais idosas vem cantar Chez nous soyez reine, que podemos traduzir por Sede a nossa rainha.

Nossa Senhora de Paris! Todas as catedrais de França são chamadas apenas pelo nome da cidade: Catedral de Chartres, Catedral de Reims, Catedral de Poitiers e  tantas outras. Mas a Catedral de Paris introduziu a invocação especial da Mãe de Jesus, confiando-lhe a proteção da cidade.

E assim aconteceu ao logo da História.

Paris viveu cinco anos sob a terrível ocupação nazi. Depois do desembarque das tropas aliadas na Normandia, Hitler deu ordem ao Comandante Von Choltitz, que governava Paris, para que destruísse a cidade, o que atrasaria um pouco a derrota da Alemanha nazi. Choltitz desobedeceu e não houve destruição alguma. Nossa Senhora de Paris salvou a sua cidade. E salvou a sua Catedral: ela ficou ferida mas de pé.

Notre Dame está situada numa ilha natural no meio do Sena, com o formato de um barco à vela. O brasão da cidade, que é tão antigo como a Catedral, é um barco sobre mar encapelado, com a inscrição em latim: Fluctuat nec Mergitur , que podemos traduzir por Flutua mas não se afunda.

E daqui a cinco anos teremos novamente Notre Dame em todo o seu esplendor e beleza.


Cecília Rezende



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