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domingo, 23 de junho de 2019

Estranhos na Noite

Há quase sempre uma música que nos preenche o coração com a qual nos identificamos ou que foram um marco na nossa vida. Comigo aconteceu há muitos anos com a música “Strangers in The Nigth” cantada por Frank Sinatra. Pela primeira vez, os pais autorizaram que fosse passar umas férias, sozinha em casa de familiares. Nunca mais vou esquecer a sensação de liberdade, de ter alcançado alguma independência. Foi a primeira vez que sai à noite com os tios e primos. Fomos tomar café a um forte sobre a praia. Havia um maravilhoso cheiro a maresia. O encanto de uma noite, com o céu repleto de estrelas à descoberta de novos horizontes, do futuro. Recordo que havia o som de uma música, que me marcou particularmente, ou seja, Strangers in the Nigth. Apercebi-me que tinha crescido, que tinha deixado a infância, agora adolescente, em convívio sadio com os primos, com os quais confraternizava longamente, discutindo o nosso futuro, os nossos sonhos, as nossas aspirações. E foram assim aquelas miniférias. Mais tarde regressaria com a família ao local, sem contudo, achar que possuía o mesmo encanto. Muitas vezes penso que não devemos voltar ao local onde fomos felizes, deve permanecer assim na memória. As circunstâncias são diferentes. Recordo também que uma vez fui, na companhia de uma minha irmã, assistir a uma ópera na cidade de Viena, na Staats Oper denominada Nabucco, de Giuseppi Verdi. O mais bonito coro dos Escravos Hebreus, a ária Va Pensiero… que alguma vez ouvimos. Uma acústica fantástica. Uma noite maravilhosa que não esqueceríamos jamais. Tudo era bom, o cenário, a força do coro, a acústica, o local, o tempo que vivenciávamos, livre de grandes preocupações, de angústias, de doenças… Na verdade através da música alcançamos a liberdade. Algum tempo mais tarde ao visitarmos a cidade de Praga, constatámos que a mesma ópera se encontrava em exibição. Não resistimos e fomos assistir. Uma desilusão. Não tinha o mesmo brilho, o mesmo impacto, o mesmo guarda-roupa… Tudo tem o seu momento, o seu encanto, o seu contexto. Não que o espetáculo fosse de fraca qualidade. Unicamente as expetativas em termos de comparação eram muito altas. Logo, tudo tem o seu momento, a sua influência em nós.

E o que me deu o mote para escrever este artigo, foi a frase de uma amiga, que referia a música All you need is love, como algo que muito a tinha sensibilizado, sendo a frase muito atual. Esta minha amiga, que possuí uma veneração enorme a Nossa Senhora, comentou que se tornava necessário santificar as nossas angústias, voltando-nos para Jesus cheios de confiança, solicitando que nos console e anime por intercessão de Maria, Virgem prudentíssima, que nos foi concedida a graça de ter aparecido aos pastorinhos em Fátima, nestas terras de Santa Maria, em que apelou no dia 13 de maio de 1917, que se rezasse o rosário todos os dias para se alcançar a paz no mundo e o fim da guerra.

Outro momento que vivenciei e que também não esquecerei, foi relativo ao canto gregoriano, teve lugar no Rio de Janeiro, há uns anos atrás, na belíssima Igreja abacial em estilo barroco, do Mosteiro de São Bento, datada de 1590, fundada por dois monges portugueses, “O mais belo monumento colonial que o Brasil possui”. Dom Marcos Barbosa escreveu: “Flor de pedra e de prece na colina, lugar alto de paz e de silêncio, onde a cidade para de repente e se ajoelha no chão de antigos túmulos… Palpitam na penumbra asas de arcanjos, bispos e reis na talha abrem seus braços, e a Virgem do seu trono, entrega o Filho”… Foi por ocasião da Páscoa, numa deslocação ao Brasil, participando inesperadamente na mais bela e longa cerimónia da Vigília Pascal a que alguma vez assisti na companhia de um dos meus filhos que estudava então neste país da lusofonia. Na verdade cantar é rezar duas vezes. Também a arte e a cultura preenchem o nosso coração.

Não posso concluir este artigo sem referir os belíssimos Coros do Vaticano que abrilhantam as cerimónias na Basílica de São Pedro ajudando-nos a rezar, proporcionando uma melhor interiorização e meditação espiritual. Recordo igualmente os momentos passados na Praça de São Pedro, por ocasião do Natal, quando na companhia da família íamos observar a árvore de Natal e, sobretudo, o Presépio, ao som da música Adeste Fideles, que ecoava nessa Praça. Belíssimo! Ainda hoje comentam esses momentos inesquecíveis. Graças a Deus, que os podemos vivenciar, para hoje em dia recordar. “Mãe, gloriosa Virgem Maria, que sois a mais bela estrela da nossa vida, Porta do Céu, como vos queremos bem. Protegei-nos sob o vosso manto glorioso, concedei-nos a paz interior e exterior. O nosso coração suspira por vós, ama-vos, que sois a mais bela canção de sempre”, não permitindo que sejamos estranhos na noite, mas sim mulheres e homens muito amados de Jesus.

Maria Helena Paes



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