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terça-feira, 8 de julho de 2014

Um anjo pode derrotar o ogro!

Uma história de (extra)ordinária pedofilia


Roma, 07 de Julho de 2014 (Zenit.org) Maria Cristina Corvo


"Durante oito anos  trago um peso horrível dentro de mim. Quando eu era pequena os meus familiares vieram para a Itália, deixando-me com o meu irmão mais velho... Eu tinha um primo da idade do meu irmão... 26 anos... ele fazia algumas coisas comigo que eu não compreendia o que fossem, mas me dizia para ficar calada e eu obedecia. Mas, com o tempo, o medo de ficar sozinha crescia e eu procurava me esquecer de tudo... quando me diziam para ficar com ele, eu não queria, inventando as desculpas mais absurdas.

Isso durou uns dois ou três anos, até que a minha mãe finalmente voltou e ele foi embora. Nunca tive a coragem de dizer a ninguém o que acontecia quando eu ia dormir e ficava sozinha com ele, mas agora, como tantas coisas estão vindo à luz e eu não sei o que fazer...

Nem sequer consigo me abrir com a psicóloga que o meu namorado me trouxe; sinto falta de ar só com o pensamento de falar com alguém. Me bloqueio. 

Começo a pensar que eu deveria falar com os meus familiares, mas então, eu me sentiria muito mal se eles se sentissem culpados. Me preocupo com o meu irmão e com o que aconteceria com ele, se um dia soubesse.

Tudo isso me deixa com medo; com muito medo! Com medo de falar, com medo do que poderia acontecer ... medo".

***

Caríssima Cecília, quando, no bate-papo, você me narrou a sua história, eu não podia acreditar. Toda vez que eu entrava na sua sala, via o seu rosto doce, a sua forma serena e tranquila, a sua pacata reserva... e nunca teria imaginado!

Não tenha medo do medo que você sente: é normal. Não é normal o que foi feito com você!

Não se sinta "estranha", por você não conseguir abrir-se com uma psicóloga: é normal. Mais cedo ou mais tarde você vai encontrar uma boa profissional (e eu vou tentar te ajudar nesse sentido) que será capaz de cuidar e proteger a pequena e indefesa Cecília que ainda está em você.

Não se sinta mal se você está irritada com os adultos que deveriam tê-la defendido: é normal e você tem todo o direito. Depois, você terá que encontrar uma maneira de não se tornar prisioneira da raiva, porque você nasceu livre e livre deverá voltar!

Não se sinta culpada pelo que aconteceu, pensando que poderia ter gritado um pouco mais forte ou ter se defendido melhor: você era pequena, ele era grande. Ponto final. A cada um a sua responsabilidade.

Não se sinta impotente como se, agora, o estrago já tenha sido feito e as garras do ogro tenham danificado irreparavelmente o seu coração. A vida colocou do seu lado um rapaz maravilhoso e apaixonado por você: qualquer psicóloga será superada pelo amor que só ele pode lhe dar, para renascer.

Não carregue pesos que outros deveriam carregar: por exemplo, se arrepender ou se preocupar excessivamente com possíveis reacções de sua família e de seu irmão. Você já tem o seu belo fardo para carregar, e o sentido de culpa não deve somar-se aos seus ombros tão jovens.

Muitas "vítimas" são induzidas a se culpar pelo que aconteceu de ruim em suas vidas. As crianças se sentem culpadas por terem irritado o pai abusivo ... as mulheres se sentem culpadas por terem irritado seu marido violento ... os judeus se sentiam culpados por terem sobrevivido ao campo de concentração ...

Remova esta confusão do seu jovem coração! 

Remova também a vergonha e a tristeza da sua alma ferida: as feridas podem cicatrizar-se, fazendo a sua pele ainda mais forte e grossa.

Talvez um dia, a sua força vai ajudar alguma outra menina; quem sabe?

Cada criança que nasce é uma criatura de Deus, confiada a outras criaturas de Deus, agora adultas e prontas para proteger “os pequenos”.

Transformar em medo, a confiança de uma criança pequena, é gravíssimo!

Roubar a inocência, transformando a vida de uma criança em um pesadelo, não ficará sem consequências.

Ninguém se engane: não se pode quebrar as asas de uma criatura, sem assumir a responsabilidade pelo voo perdido.

Caríssima Cecília, saiba que “Aquele que protege Israel não cochilará e nem dormirá” (Salmo 121, 4).

E há muitas pessoas que (na mesma linha Daquele que ama e protege a vida dos “pequenos”) não cochilam e não dormem, diante da dor inocente.

Por exemplo, nos últimos anos nasceram associações que desejam fazer voar de novo as criaturas cujas asas foram quebradas.

Não cochila nem sequer o seu namorado que, aos poucos, está lhe ajudando a falar do seu passado, para lhe fazer segura das suas actuais carícias.

Lentamente o passado voltará a ser passado e o presente lhe envolverá, fazendo você renascer de novo.

O seu medo dos homens será derrotado com os abraços do seu namorado, e uma boa psicóloga lhe dará novamente a capacidade de cuidar de você, defender-lhe e amar-lhe.

Você não está sozinha! 

Lá em cima, Alguém, não cochila, mas lhe ama e lhe faz ser amada por outros! 

Para terminar, eu quero que você conheça uma garota como você que, quando criança, sofreu sua mesma dor (mas elevada a uma potência indizível): Josefina Bakhita.

Leia a sua história, fale com ela, peça-lhe para protege-la e ajuda-la a fazer as escolhas certas: quem, mais do que ela, poderá lhe entender?
Fazermos parte de uma grande equipe e aqueles que já estão no Céu ficam radiantes quando podem nos dar uma mão, para que sejamos felizes! 

A história de Bakhita é trágica e fantástica ao mesmo tempo, porque fala de renascimento e você (sem dúvida) vai conseguir, amiga!(Trad. T.S.)

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