Homilia do Papa Francisco na viagem a Molise
Roma, 06 de Julho de 2014 (Zenit.org)
Apresentamos a homilia do Papa na viagem a Molise, Itália, neste sábado 5 de Julho.
“A sabedoria, porém, libertou dos sofrimentos os seus fiéis” (Sab. 10,9)
A primeira leitura nos lembrou das características da sabedoria
divina, que liberta do mal e da opressão àqueles que se colocam a
serviço do Senhor. Na verdade, Ele não é neutro, mas sua sabedoria está
do lado das pessoas frágeis, das pessoas discriminadas e oprimidas que
se abandonam confiantes a Ele.
Esta experiência de Jacob e José, narrada no Antigo Testamento revela
dois aspectos essenciais na vida da Igreja: a Igreja é um povo que serve
a Deus; A Igreja é um povo que vive na liberdade que nos foi dada por
Ele.
Antes de tudo nós somos um povo que serve a Deus. O serviço a Deus se
realiza de várias maneiras, especialmente em oração e adoração, no
anúncio do Evangelho e no testemunho da caridade. Maria é sempre o ícone
da Igreja, a “serva do Senhor” (cf. Lc 1,38). Logo após receber o
anúncio do anjo e ter concebido Jesus, Maria vai às pressas ajudar sua
prima Isabel, de idade avançada. Assim, mostra que a melhor maneira de
servir a Deus é servir os nossos irmãos e irmãs que precisam de ajuda.
Na escola da Mãe, a Igreja aprende a tornar-se cada dia “serva do
Senhor”, para estar pronta a sair para atender às situações de maior
necessidade, para ser atenta aos pequenos e excluídos. Mas o serviço da
caridade, todos nós somos chamados a viver na realidade comum, ou seja,
na família, na paróquia, no trabalho, com os vizinhos… É a caridade
comum de todos os dias.
O testemunho da caridade é a via principal da evangelização. Nisto, a
Igreja está sempre “em linha de frente”, presença materna e fraterna
que compartilha as dificuldades e fragilidades das pessoas. Desta forma,
a comunidade cristã busca propagar na sociedade aquele “suplemento da
alma” que permite olhar além e ter esperança.
É o que também vós, queridos irmãos e irmãs desta Diocese, estão
fazendo generosamente, apoiado no zelo pastoral de seu Bispo. Vos
encorajo a todos vocês, sacerdotes, pessoas consagradas e fiéis leigos, a
perseverarem neste caminho, servindo a Deus no serviço aos irmãos e
difundindo a cultura da solidariedade em todos os lugares. Há tanta
necessidade desse compromisso, diante das situações de precariedade
material e espiritual, especialmente a do desemprego, uma praga que
requer esforço e muita coragem por parte de todos. A falta de trabalho é
um desafio que questiona de modo particular às responsabilidades das
instituições, empresas e sectores financeiros.
É necessário colocar a dignidade da pessoa humana no centro de todas
as perspectivas e de todas as acções. Os outros interesses, mesmo que
legítimos, são secundários. No centro está a dignidade da pessoa humana!
Por que? Porque a pessoa humana é a imagem de Deus, foi criada à imagem
de Deus e nós somos todos imagem de Deus!
Portanto a Igreja é o povo que serve o Senhor. Por isto, é o povo que
experimenta a sua liberdade e vive nesta liberdade que Ele dá. A
verdadeira liberdade o Senhor a dá sempre. A liberdade do pecado, do
egoísmo e todas as suas formas: a liberdade de doar-se e de realizar com
alegria, como a Virgem de Nazaré que é livre de si mesma, não se
entrega à sua condição – e tinha motivo para fazer!- mas pensa em quem
naquele momento tem mais necessidade. É livre na liberdade de Deus, que
se realiza no amor. E esta é a liberdade que Deus nos dá, e nós não
podemos perdê-la: a liberdade de adorar a Deus, de servir a Deus e
servi-lo também nos nossos irmãos.
Esta liberdade que, com a graça de Deus, experimentamos na comunidade
cristã, quando nos colocamos ao serviço uns dos outros. Sem ciúmes, sem
partidos, sem conversas. Servir-nos uns aos outros, servir-nos! Então o
Senhor nos liberta das ambições e rivalidades, que minam a unidade da
comunhão. Nos liberta da desconfiança, da tristeza – esta tristeza é
perigosa, porque nos joga pra baixo, é perigosa, fiquem atentos! Nos
liberta do medo, do vazio interior, do isolamento, das lágrimas, dos
lamentos.
Também em nossas comunidades, de fato, não faltam atitudes negativas,
que fazem as pessoas auto-referenciais, preocupadas mais em defender-se
que doar-se. Mas Cristo nos liberta deste soturno existencial, como
proclamamos no Salmo: “O Senhor é o meu auxilio e a minha libertação”.
Por isso, os discípulos, nós os discípulos do Senhor, somos fracos e
pecadores – todos nós somos! – mas enquanto permanecemos fracos e
pecadores, somos chamados a viver com alegria e coragem a nossa fé, a
comunhão com Deus e com os outros, a adoração a Deus e a enfrentar com
força as dificuldades e provas da vida.
Caríssimos irmãos e irmãs, a Virgem Santa, que vocês a veneram com o
título de “Senhora da Liberdade”, vos sustenta na alegria de servir o
Senhor e de caminhar na liberdade que Ele nos deu: na liberdade da
adoração, da oração e do serviço aos outros.
Maria vos ajude a serem Igreja materna, Igreja acolhedora e carinhosa
para com todos. Que Ela esteja sempre ao vosso lado, com doentes, com
vossos anciãos, que são a sabedoria do povo, com vossos jovens. Por
tudo, o vosso povo seja sinal de consolação e de segura esperança. Que a
“Senhora da Liberdade” nos acompanhe, nos ajude, nos console, nos dê a
paz e nos dê a alegria!
(Trad.: Canção Nova)
(06 de Julho de 2014) © Innovative Media Inc.
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