1. Inverno demográfico
Nas últimas semanas o governo começa a dizer que precisamos de atacar a crise de emprego e de natalidade e criou uma comissão para estudar políticas favoráveis. Como sabemos, nos últimos anos tem aumentado o número de desempregados, diminuído o número de nascimentos, subido o envelhecimento da população e o número de emigrantes. Em algumas zonas do país houve uma ligeira compensação com a entrada de imigrantes, sobretudo para sectores menos procurados pelos nativos, como é a área da agricultura.
Nas últimas semanas o governo começa a dizer que precisamos de atacar a crise de emprego e de natalidade e criou uma comissão para estudar políticas favoráveis. Como sabemos, nos últimos anos tem aumentado o número de desempregados, diminuído o número de nascimentos, subido o envelhecimento da população e o número de emigrantes. Em algumas zonas do país houve uma ligeira compensação com a entrada de imigrantes, sobretudo para sectores menos procurados pelos nativos, como é a área da agricultura.
Isto afectou mais o interior que o litoral e os grandes centros urbanos. Nos 17 concelhos da diocese de Beja houve um decréscimo de quase dez mil habitantes entre 2001 e 2011. Nos concelhos do litoral alentejano manteve-se a população, sobretudo devido aos imigrantes. Em algumas freguesias do litoral a população residente estrangeira é superior à autóctone, como, por exemplo, em S. Teotónio. Isto reflecte-se também na pastoral das paróquias, onde o número de baptismos, de crianças na catequese, de matrimónios e outras áreas tem vindo a diminuir.
Quais serão as causas? Certamente que são muito complexas e múltiplas e não podemos atribuir tudo à crise económica, pois já houve épocas de grande pobreza e, apesar disso, havia uma grande natalidade.
Consciente de que muitos factores ficam por nomear, na brevidade deste apontamento vou atrever-me a mencionar algumas causas. Em primeiro lugar, o individualismo e a falta de confiança na vida e no futuro é transversal a todos os problemas demográficos. Podemos dizer que o inverno, o frio, o encolhimento das pessoas sobre si mesmas tem aí a primeira causa.
Depois podemos também indicar o adiamento da constituição de família e da assunção da responsabilidade pela própria subsistência, a formação dilatada, as exigências do estilo de vida moderno e outras causas afins também contribuem para a crise demográfica.
Razões mais específicas e próximas para a desertificação do interior são a falta de investimento empresarial, social e cultural, concentrando tudo isso nos grandes centros do litoral. Mas isso torna-se um círculo vicioso. Um factor acarreta outro e quando se acorda já é tarde para romper esse círculo. Ultimamente fala-se do encerramento de muitas escolas do primeiro ciclo com menos de 21 alunos, a maioria no interior, como antes se falou dos centros de saúde, de repartições públicas, de outros serviços importantes para a qualidade de vida das pessoas.
Com a crise financeira e económica temos de reestruturar o país, fazer o indispensável com menos recursos. E aqui voltamos à primeira causa. Com o crescente individualismo ninguém quer perder o seu estatuto, tornar o seu estilo de vida mais austero, partilhar tempo e recursos em acções de voluntariado, para tornar a vida familiar e social mais atractiva no interior, dando-lhe a qualidade humana que não é possível no anonimato dos grandes centros urbanos.
2. Desafios às dioceses do interior
Esta situação coloca um grande desafio à Igreja e às dioceses do interior. Não havendo jovens, também dificilmente surgirão candidatos para futuros padres. No entanto, a proximidade às pessoas não se faz apenas através do clero. É necessário fazer das nossas pequenas comunidades centros de vida fraterna, de formação humana e espiritual, de partilha das alegrias e das tristezas, dos êxitos e dos fracassos, tornando os nossos ambientes mais transparentes, de pessoas próximas e atentas umas às outras. Isto faz-se com o envolvimento de todos, com muito voluntariado dos leigos e boa coordenação diocesana.
Esta personalização comunitária do ambiente das nossas aldeias e vilas do interior deve necessariamente começar pela família, fomentando a coresponsabilização de todas as gerações pelo bem de todos, cada um atento aos outros, sobretudo dos mais frágeis, comunicando-lhes o carinho de que carecem. As nossas paróquias, clero, colaboradores e amigos devem dar prioridade a este contacto humano e descobrir com imaginação e criatividade os meios simples para o facilitar. Mesmo com meios pobres se consegue criar ambientes de confiança e alegria entre as pessoas. Aqui está um meio ao alcance de todos, para tornar as nossas terras do interior viveiros de alegria e fraternidade.
Para não me alongar na sugestão de meios ao nosso alcance, deixando-os à criatividade das gentes da nossa terra, indico apenas um da área cultural e artística, muito próprio do povo alentejano. O nosso povo gosta de cantar e tem belas canções, narrando a história das nossas terras e das nossas gentes. As nossas igrejas são belas e temos um rico património, que queremos dar a conhecer ao país e ao mundo. Fazer o levantamento dessa história e cultura, dando-lhes vida nos nossos ambientes, contribuirá para levantar a nossa auto-estima e despertar o interesse de turistas e de imigrantes para o segredo do nosso estilo de vida, alegre e fraterno, apesar da simplicidade de recursos. Também nisto todos podemos colaborar, para que não desertifique o interior e muito menos os seus habitantes fujam do ambiente triste e sem esperança para o qual nos deixamos empurrar.
A alegria do Evangelho começa por aqui. Nisto reside a nossa esperança e a nossa força.
† António Vitalino, Bispo de Beja
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