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domingo, 9 de novembro de 2014

Omissões e vocações

1. A culpa morreu solteira
 
Começo a minha nota desta semana por um dito frequente, mas pela negativa: a culpa não pode morrer solteira. Mas trata-se apenas da culpa do que fizemos mal ou também do que deveríamos fazer e não fizemos? Na verdade, ouvi esta semana alguém afirmar, diante de muitos notáveis da política, da economia, das empresas e da sociedade, de que somos também responsáveis pelo que não fizemos. Na confissão de culpas dos cristãos sempre se pediu perdão pelos pecados por pensamentos, palavras, obras e omissões. Por isso para quem assim se confessa pecador, nada de novo na afirmação feita perante notáveis. Mas na realidade isso raramente se põe em prática.

Sucedem-se os governos, mudam-se os responsáveis pela gestão dos serviços e empresas públicas, reconhecem-se erros cometidos ou falta de zelo, mas raramente alguém é chamado à responsabilidade. Por isso a culpa morre solteira e todos pagam por isso. Melhor dito, só não paga quem adiantou a sua recompensa imerecida. Assim não admira que muitos lutam pelo poder, pois, uma vez alcançado, já não precisam de se esforçar na luta pela realização do bem comum. Esta mentalidade não é de agora. Já na minha juventude havia muitas cunhas para o funcionalismo público devido à estabilidade e segurança do emprego. Num regime democrático, onde os governos e muitos serviços são sujeitos a sufrágio popular e concursos públicos, procuram-se arranjos rápidos e empregos para os amigos, sem critérios racionais e justos. Assim se vai criando uma sociedade arbitrária e do arranje-se quem puder.

Como inverter o caminho desta sociedade fundada no poder, no arranjinho, na corrupção? Temos de criar mecanismos baseados na verdade, na justiça, no amor ao bem comum. Os cristãos têm um imperativo de consciência que os leva a confessar as culpas e procurar emendar-se e reparar o mal feito. Este mês de Novembro começou com a celebração de todos os santos, através dos quais ouvimos o apelo: sede santos porque eu, o Senhor vosso Deus, sou santo. E nele ouvimos a proclamação das bem-aventuranças: felizes os pobres, os que procuram a justiça e a paz, os que sofrem por amor do Reino dos Céus, porque será grande a sua recompensa. Faltam-nos testemunhas de santidade, para mudar o cenário da irresponsabilidade e da corrupção.

2. Mensageiros do Evangelho da alegria
É preciso criar uma mentalidade fundada na verdade, no amor ao próximo, na justiça, na responsabilidade pelo bem comum, mesmo que isso não traga vantagens pessoais, mas antes sofrimento e incompreensões. Se lermos a Bíblia e olharmos bem para o testemunho de vida de Jesus Cristo e dos Apóstolos, descobriremos vidas pautadas por valores e critérios do amor e da gratuidade, hoje muito esquecidos. Quem os lembrará e tornará presentes pelo seu próprio estilo de vida? Os cristãos definem-se pelo seguimento e imitação de Cristo, até ao ponto de poderem exclamar com S. Paulo: Por Cristo, renunciei a todas as coisas e considerei tudo como lixo, para ganhar Cristo (Fil 3, 7-8).

Neste tempo do consumo egoísta, mais necessário se torna quem dê testemunho destes valores evangélicos. Mas só quem se deixa fascinar e apaixonar por Cristo, a pérola preciosa escondida aos olhos de muitos, é capaz de optar por uma vida consentânea com a de Cristo e viver com alegria a radicalidade do Evangelho das bem-aventuranças.

A semana de 9 a 16 de Novembro é dedicada pela Igreja aos seminários, onde se formam os servidores da alegria do Evangelho, como diz o lema deste ano. Um discípulo de Cristo e muito menos um missionário do Evangelho não pode ser um triste e desiludido. Por isso os seminários não podem educar pessoas sem ânimo, passivas e acomodadas. Os formadores nos seminários, apesar da escassez de seminaristas, não podem ser como mães-galinhas, protecionistas, sem exigências. O amor a Cristo e à humanidade tem de ser posto à prova, como o ouro no crisol. Jesus envia os seus apóstolos como ovelhas para o meio de lobos. Eles voltam alegres da missão e Jesus adverte-os para não se alegrarem pelos êxitos obtidos, mas pela certeza de que os seus nomes estão inscritos no Reino dos Céus. O cansaço da missão é compensado e superado pela alegria que anima o servidor do evangelho.

Muitas vezes, temos de nos recolher no silêncio da oração, confiantes no apelo do Mestre: Vinde a mim todos vós que andais cansados e oprimidos e Eu vos aliviarei... porque o meu jugo é suave e a minha carga é leve (Mt 11, 28-30). Só quem vive a paixão por Cristo e pela humanidade, só quem sabe equilibrar o trabalho apostólico e a oração, experimenta a alegria de ser constituído servidor do Evangelho. Olhando para o testemunho do Papa Francisco e de muitos missionários podemos sentir como é belo e necessário ao mundo este caminho iniciado no batismo, descoberto no chamamento para seguir Jesus e treinado ao longo dos anos de formação nos seminários. Por isso, nesta semana e de vez em quando ao longo do ano lembremos com gratidão os nossos seminaristas e os seus formadores, para que não falte ao mundo quem opta por ser testemunha e servidor da alegria do Evangelho.

Alegremo-nos também porque no dia 23 de Novembro, nos Jerónimos, vai ser ordenado bispo aquele que me vem ajudar na missão e será o meu sucessor à frente desta diocese, D. João Marcos. Quem não for aos Jerónimos poderá no dia 30, às 16,00 horas, na igreja de Santa Maria, em Beja, participar na sua apresentação aos diocesanos. Alegremo-nos ainda pelos três diáconos que vão ser ordenados no dia 8 de dezembro, na mesma igreja e à mesma hora. E rezemos pelos 3 seminaristas de Beja a estudar teologia em Évora e pelos dois candidatos ao seminário, a fazer o ano propedêutico em Faro. Oxalá todos venham a ser servidores do Evangelho da alegria.

† António Vitalino, Bispo de Beja


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