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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Uma vida contada em livro

Missão cumprida: biografia de Álvaro del Portillo*, de Hugo de Azevedo
(Encontro da Escrita-Diel, Lisboa 2008)

Missão cumprida foi o título que Mons. Hugo de Azevedo deu à biografia de Álvaro del Portillo que nos dá uma visão abrangente e profunda, e ao mesmo tempo amena, desta figura notável da Igreja em que a bondade e a fortaleza andaram sempre a par.

Na expectativa da sua próxima beatificação que decorrerá em Madrid, onde nasceu e fez os seus estudos, no próximo dia 27 de Setembro, valerá a pena ler, ou reler, esta primeira biografia de autor português.


O título que Mons. Hugo de Azevedo deu à biografia de D. Álvaro del Portillo significa talvez que a vida daquele que foi o colaborador mais imediato de S. Josemaria Escrivá se pode compendiar em ter levado a cabo quer as incumbências que lhe eram cometidas pelo fundador do Opus Dei em vida, quer os projectos que, por circunstâncias várias, S. Josemaria não conseguiu finalizar, quer em ter trabalhado silenciosamente e com afinco, anos e anos a fio, durante os trabalhos do Concílio Vaticano II e na Santa Sé.

Já na Introdução se intenta traçar o perfil de alguém que aliou o equilíbrio e a mansidão de carácter a uma fortaleza e segurança fora do vulgar. E, ao longo de catorze capítulos, o leitor é como que levado pela mão a acompanhar esta vida desde a infância até aos seus últimos momentos.

Torna-se difícil interromper a leitura, e não se diga que seja pelo imbricado de situações à espera de ver onde vão dar. Não, o que prende o leitor às páginas é, além da santidade de uma vida que se vai revelando aos poucos, a forma vivencial com que foram narrados os factos. O autor não é mero narrador, torna-se espectador atento: interrompe, por vezes, o ‘discurso’ para contar um ou outro episódio em que ele próprio tomou parte, ou que alguém amigo lhe contara. A exposição toma assim mais vida e os factos gravam-se com mais facilidade no interior de quem lê.

Por outro lado, o autor elabora sínteses perspicazes da história recente da Europa ou de algum país em particular (por exemplo descreve a situação política da Itália finda a segunda guerra mundial, altura em que alguns membros do Opus Dei se estabelecem em Roma) ou da própria Igreja antes e depois do Concílio Vaticano II a fim de enquadrar os factos e nos apercebermos da enorme sobrecarga de trabalho que recaiu sobre os ombros de Álvaro del Portillo nessa altura. Com efeito, ao longo das sessões do Concílio, a sua bondade e capacidade de criar consensos, tornou possíveis muitas das redacções dos textos finais de diversas Comissões.

Particularmente impressionante é acompanhar pela mão do autor (Capítulo XII) as etapas sucessivas do caminho jurídico do Opus Dei quer em vida do fundador quer, depois, com Álvaro del Portillo. Sem poupar esforços e orações, leva a bom termo, em 1982, a configuração jurídica da Obra como prelatura pessoal, conforme tinha sido “vista” por S. Josemaria desde o seu início em 1928.

Impressionante, também, é ‘assistir’ ao trabalho de anotar os escritos do fundador sobre o Opus Dei e sobre a sua vida interior. ‘Assistir’ também às numerosas deslocações pelo mundo, já como Prelado, para estar com os seus filhos em encontros multitudinários, quando a saúde é precária e os anos vão pesando… Com um temperamento muito diferente do do Fundador do Opus Dei, cultivou sempre o estilo de família unida, que o fez falar a multidões à medida que o Opus Dei ia crescendo, sem reparar no seu natural mais tímido. Recusara mesmo a profissão de advogado, à semelhança de seu pai, por não se sentir dotado para falar em público.

No recuado ano de 1939, quando Álvaro del Portillo era um jovem engenheiro, S. Josemaria em carta que lhe dirige, escrevera: “Saxum! Como vejo claro o teu caminho – longo – que tens de percorrer! Claro e cheio, como um campo recamado de espigas. Bendita fecundidade de apóstolo (…)!” (p. 69).

Saxum, rocha: será isso Álvaro del Portillo ao longo de uma vida dilatada e santa, se entendermos por santidade “cumprir o projecto divino que Nosso Senhor tem sobre cada um” (p. 316). É isso que nos revela a leitura desta biografia.
 

Isabel Cepeda
Bibliotecária e Investigadora
em manuscritos e livro antigo

*Nascido em 1914 em Madrid, era o terceiro de oito filhos. Pediu a admissão no Opus Dei em 1935, e desde logo se converteu no mais valioso auxiliar e apoio de S. Josemaria Escrivá, fundador do Opus Dei, de quem foi confessor e director espiritual desde o dia em que foi ordenado sacerdote em 1944, e o acompanhou até o dia do seu falecimento em 26 de Junho de 1975.
A 15 de Setembro de 1975 foi eleito primeiro sucessor de S. Josemaria à frente ao Opus Dei. Trabalhou na Santa Sé e deu o seu contributo no Concílio Vaticano II, em várias das suas Comissões.
O Papa João Paulo II, ao erigir o Opus Dei em Prelatura pessoal, em 1982, fê-lo Prelado e, em 1991, ordenou-o bispo
Em 1985 fundou em Roma o Centro Académico Romano da Santa Cruz que mais tarde viria a ser a Universidade Pontifícia da Santa Cruz. Durante o seu governo, o trabalho da prelatura estendeu-se por vinte novos países.
Faleceu no dia 23 de Março de 1994, poucas horas depois do regresso de uma peregrinação à Terra Santa. Neste mesmo dia João Paulo II foi rezar junto dos seus restos mortais.


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