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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Os mártires da Coreia do Norte no século XXI


Actualizado 15 de Agosto de 2014

Pablo M. Díez / ABC

Por crer em Deus e difundir a Bíblia, a senhora An Eun-sa, que tem 63 anos e oculta a sua identidade debaixo deste nome fictício, passou uma década encerrada numa cadeia do Norte e outra mais num campo de trabalho. Condenada pelo delito de “difundir superstições e práticas religiosas”, era uma das mártires que nutrem a igreja clandestina no dito país, o mais repressivo do planeta.

Aproveitando a sua visita à Coreia do Sul, onde beatificará amanhã sábado 124 mártires que deram a vida pela sua fé entre 1791 e 1888, o Papa recordará a nova perseguição religiosa que, em pleno século XXI, leva a cabo o regime estalinista do jovem ditador Kim Jong-un. Dando-lhe a sua particular boas-vindas, Coreia do Norte disparou ontem misseis de longo alcance sobre o Mar do Japão coincidindo com a chegada do Pontífice a Seul.
[A Coreia pede que o nome do mar seja "Mar do Este" e explica que o Japão impôs este nome injustamente durante as guerras do século XX].

Desde que fugiu da Coreia do Norte em 2011, aqui vive a senhora An Eun-sa, que nasceu no seio de uma família cristã formada por 20 membros. “Com uma Bíblia que tinha escondida em casa, o meu avô transmitiu-nos a sua fé em segredo porque a religião estava proibida”, recorda à ABC esta pequena mas enérgica mulher. Quando cumpriu os 30 anos, e enquanto trabalhava como farmacêutica num povoado próximo a Pyongyang, herdou essa Bíblia e continuou a tarefa evangelizadora que praticava a sua tia, que pregava com sigilo o cristianismo, ao mesmo tempo que atendia vizinhos e amigos.

Torturas e gulag

“Graças aos meus irmãos, que trabalhavam numa gráfica estatal, copiava versículos da Bíblia e depois reunia-me em lugares remotos do campo ou das montanhas com outros fiéis para que os memorizassem. Depois, queimávamos os papéis para não deixar rastro”, explica An Eun-sa, que estava em contacto com 18 células da igreja clandestina que somavam 200 membros.

Mas, em 1987, um deles descuidou-se com a língua e acabou sendo detida. “Torturaram-me durante um ano num centro de detenção, mas não denunciei ninguém”, orgulha-se a mulher. A modo de escárnio público, foi julgada num estádio perante uma multidão junto a um assassino, um homem que matou uma vaca para comê-la e um acusado de tráfico de pessoas. Enquanto a ela lhe couberam dez anos de cadeia, o seu marido, que era investigador médico, e os seus quatro filhos eram desterrados para um gulag para trabalhar numa mina. Durante os seguintes dez anos, não voltaria a vê-los. Nem a eles nem aos demais membros da sua família, que temiam represálias se a visitassem na prisão.

“Rezava diariamente”
“Levantavam-nos às cinco da manhã e trabalhávamos desde as oito até às oito da tarde cosendo uniformes e botas militares. Se não cumpríamos a nossa quota diária, reduziam-nos a comida, que eram uns pãezinhos de trigo e judias”, desfia a mulher. Por retrete não tinha mais que um buraco no solo e para lavar-se só lhe davam um balde com água. No seu entender, que sobrevivesse “foi um milagre porque todos os dias morriam presas por acidentes, tareias ou de extenuação. Pelas manhãs, algumas não se levantavam no quarto onde dormíamos superlotadas no solo”. Mas a interna número 1058, como constava no único uniforme que só se renovava, já puído, cada seis meses, saiu dali com vida em 1997 porque “rezava a Deus todos os dias”.

Depois da sua libertação, passou outros dez anos confinada com a sua família no gulag até que, finalmente, puderam todos instalar-se num povoado da província de Hamgyong Sur. Todos menos uma das suas filhas, que em 1998, e sem dizer a ninguém, tinha fugido da Coreia do Norte através da fronteira com a China. “Não soubemos que tinha fugido para a Coreia do Sul até 2009, quando pagou 12 milhões de won (8.800 euros) a um “resgatador” que entrou no Norte e nos tirou dali a mim e ao meu filho mais novo”, revela a mulher referindo-se às redes que ajudam a escapar os refugiados norte-coreanos.

Operadas muitas delas por missionários cristãos, guiam os evadidos através da China para cruzar o Laos e, desde aí, entrar na Tailândia, onde pedem asilo à Embaixada da Coreia do Sul em Bangkok. À senhora An, que ainda tem o seu marido e duas filhas mais na Coreia do Norte, esta viagem levou-lhes só oito dias, mas milhares de fugitivos, sobretudo mulheres, acabam caindo nas máfias que as prostituem ou vendem aos camponeses chineses da fronteira por 1.215 euros.

Alimentos e medicamentos
Para socorrer estes refugiados, a ONG Helping Hands, dirigida pelo veterano activista cristão Tim Peters, envia-lhes desde Seul alimentos e medicamentos e financia projectos educativos e casas de acolhimento para uma centena de órfãos cujas mães foram sido deportadas para a Coreia do Norte. Além disso, consegue através dos seus contactos na fronteira ajuda para meio milhar de membros da igreja clandestina.

“Pedimos-te, Senhor, que ilumines o Papa Francisco nesta importante visita para que alce a sua voz contra a perseguição que sofrem os cristãos na Coreia do Norte”, rogava na terça-feira Tim Peters durante a sua reunião semanal nas “Catacumbas” de Seul, de onde organiza o auxílio dos novos mártires do século XXI para salvá-los do jugo de Kim Jong-un.

Durante a Guerra Fria, são João Paulo II foi decisivo para derrotar o comunismo na Europa do Este, mas o último bunker estalinista continua resistindo na Coreia do Norte.


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