A amargura do arcebispo caldeu de Kirkuk, frente ao êxodo da população causado pela guerra
Roma, 09 de Julho de 2014 (Zenit.org)
"Nós, cristãos, estamos desaparecendo do Iraque. Assim como
aconteceu com os nossos irmãos na Turquia, Arábia Saudita e África do
Norte. Até mesmo no Líbano, somos agora uma minoria". Palavras amargas
proferidas por Monsenhor Yousif Mirkis durante uma conversa recente com
Ajuda à Igreja que Sofre.
O arcebispo caldeu de Kirkuk, no norte do Iraque, disse à fundação
pontifícia que como resultado da conquista de algumas regiões do país
por parte do Estado Islâmico do Iraque e do Levante (Isis) aumentou a
possibilidade de que outros fieis decidam emigrar.
Desde que a guerra começou em 2003, centenas de milhares de cristãos
fugiram do país, deixando a sociedade iraquiana sem um componente
essencial. Apesar de pequena minoria, a comunidade cristã sempre se
vangloriou de uma instrução e um nível cultural bem acima da média
nacional. "Há onze anos, representávamos apenas o 3% da população -
observou o prelado – apesar de que o 40% dos médicos especializados eram
cristãos. Assim como a maioria dos intelectuais, dos escritores e dos
jornalistas". Mérito da educação difundida pelas muitas escolas
dirigidas pela Igreja e por uma mentalidade cristã tradicionalmente
aberta e multilingue. "Obviamente, muito do nosso dinamismo se perdeu
por causa do êxodo maciço de fiéis", disse o arcebispo.
A abertura rumo ao Ocidente e a identificação errónea entre a minoria
e os países "infiéis" é sem dúvida uma das razões que colocam os
cristãos na mira dos extremistas. Para Monsenhor Yousif Mirkis o
antagonismo entre o mundo islâmico repropõe hoje a mesma divisão em
blocos da Guerra Fria. "Estamos testemunhando uma guerra entre a
modernidade e a sociedade fortemente ligada ao passado". O prelado
sublinhou que o nome escolhido pelos salafistas – em árabe “ancestrais
piedosos" - atesta o desejo de um retorno à sociedade do século VII.
Os cristãos não são o único inimigo de quem se esperava um tal
retorno ao passado. "É toda a comunidade intelectual que está sob
ataque, incluindo elites muçulmanas - disse o arcebispo – vejam que
desde o começo de 2013 morreram uns 180 professores universitários. Com
consequências desastrosas para toda a sociedade iraquiana". A solução de
uma situação tão dramática só pode ser um maior diálogo uma mais ampla
difusão da cultura. "É o único antídoto para o fanatismo que hoje ameaça
todo o mundo islâmico, e não apenas a nossa comunidade."
Monsenhor Mirkis continua a esperar em um futuro dos cristãos no
Iraque. No entanto, confessa que não é fácil encontrar palavras para
inspirar a mesma esperança nos fiéis, especialmente nos mais jovens. "O
que devo dizer para aqueles que me pedem uma razão para ficar? - se
pergunta - Nos últimos dez anos, perdemos um bispo e seis padres e
milhares de pessoas foram mortas durante os ataques. Posso compreender
perfeitamente porquê os os cristãos decidem ir embora". (Trad.T.S.)
(09 de Julho de 2014) © Innovative Media Inc.
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