Padre Luis Montes, do Instituto do Verbo Encarnado: pedimos que orem e denunciem o genocídio
Madrid, 10 de Novembro de 2014 (Zenit.org) Ivan de Vargas
O padre Luis Montes, sacerdote missionário do Instituto do
Verbo Encarnado, passou dezoito anos de ministério sacerdotal em países
do Oriente Médio onde os católicos são minoria e muitas vezes vítimas da
violência fundamentalista.
Foi missionário durante seis anos e meio na localidade palestina de
Ortas, situada ao lado de Belém, onde se ofereceu para participar da
fundação de um mosteiro contemplativo. Também ficou um ano no norte da
Jordânia e seis em Alexandria, no Egipto.
Nos últimos anos, atende uma paróquia em Bagdade, num Iraque há uma
década em pós-guerra depois da invasão norte-americana, com permanentes
atentados terroristas e com cristãos no fogo cruzado entre muçulmanos
fundamentalistas xiitas e sunitas. A situação se agravou no último ano
por causa do avanço da sangrenta milícia terrorista auto-proclamada
“Estado Islâmico” (EI).
Nesta entrevista com ZENIT, o padre Luis Montes explica as terríveis
provações que açoitam os cristãos no Iraque. Dos 300 mil fiéis que
restaram no país, 200 mil vivem como refugiados. “Os cristãos iraquianos
sofrem pressões e perseguição e são assassinados de maneira brutal”,
denuncia.
* * *
ZENIT: Quais são as principais causas da instabilidade no Oriente Médio?
Pe. Luis Montes: Os interesses mesquinhos dos poderosos, tanto dos
que exercem o poder sobre os seus povos e os desiludem permanentemente
quanto dos de fora, que se interessam só pelo valor económico e
estratégico da região.
ZENIT: Como é a situação das minorias, especialmente a dos cristãos?
Pe. Luis Montes: É absolutamente dramática. Pressionados,
perseguidos, assassinados das maneiras mais brutais, sofrendo toda forma
de violência, abandonados por quem poderia fazer alguma coisa. De 1,5
milhão de cristãos que havia antes da guerra, não restam mais do que 300
mil [no Iraque].
ZENIT: Eles vão conseguir sobreviver na região? Existe alguma possibilidade de parar o êxodo cristão?
Pe. Luis Montes: Sim, se aplicarem urgentemente os meios para isso. É
necessária ajuda humanitária maciça, cortar o financiamento externo do
Estado Islâmico, apoiar e pressionar o governo iraquiano para fazer uma
política inclusiva para todos e definir na ONU como deter esse grupo
terrorista e permitir que as pessoas voltem para os seus lares. O
problema é que são decisões corajosas que ninguém quer tomar. Preferem
medidas intermediárias, que não só não resolvem nada, mas que vão
provocar mais mortes no futuro.
ZENIT: O que o Estado Islâmico pretende?
Pe. Luis Montes: A implantação do califado. Primeiro nos países
muçulmanos, depois nos países que já estiveram alguma vez sob o islã,
como a Espanha, e, finalmente, no mundo inteiro.
ZENIT: Existe alguma possibilidade de entendimento com os jihadistas do auto-proclamado califado?
Pe. Luis Montes: Para eles, a própria ideia de diálogo já é uma
aberração. Eles rejeitam explicitamente. Mas, se não houvesse tantas
injustiças no Oriente Médio, o califado perderia muito da sua força.
Porque, evidentemente, muita gente foi arrastada para as suas filas pela
decepção e pela impotência diante do mal que eles têm sofrido.
ZENIT: Quais são as repercussões do conflito do Iraque no Ocidente?
Pe. Luis Montes: Este conflito traz insegurança para todo o mundo. Com o tempo, isso vai ficar mais claro.
ZENIT: Poderia nos falar dos sofrimentos e das alegrias dos cristãos no Iraque?
Pe. Luis Montes: Os sofrimentos vêm da maldade do coração humano e
são patentes. A crueldade não é só um fato, mas também um meio de
propaganda: crucificações, decapitações, torturas, estupros, sequestros,
saques etc. O que este povo está sofrendo é indescritível. As alegrias
vêm da força que Deus dá e que fazem com que esse povo seja um exemplo
para todo o mundo. Nós vemos aqui uma repetição do que aconteceu nas
perseguições dos primeiros séculos. Em nenhuma outra parte do mundo é
tão claro o que ensina o concílio Vaticano II: “A Igreja peregrina entre
as perseguições do mundo e as consolações de Deus, anunciando a cruz do
Senhor até que Ele venha (cf. 1 Cor 11,26). Ela é fortalecida pela
virtude do Senhor ressuscitado, para triunfar com paciência e caridade
sobre as suas aflições e dificuldades, tanto internas quanto externas, e
revelar ao mundo o seu mistério, mesmo que seja em penumbra, até que
ele se manifeste em todo o seu esplendor no final dos tempos”.
ZENIT: A fé dos cristãos, nestes anos de perseguição, saiu reforçada ou tem sofrido?
Pe. Luis Montes: As duas coisas. A fé sofrida é a fé que dá forças.
Aqui nós vemos o mesmo que no Calvário: a aparente derrota de Deus, na
realidade, é a grande vitória.
ZENIT: Qual é a situação neste momento em Bagdade?
Pe. Luis Montes: As pessoas não acham que o Estado Islâmico vá
conseguir entrar na capital com tropas porque a cidade está fortemente
protegida. Os atentados aumentaram (eles acontecem desde a invasão, na
verdade), mas a vida continua mais ou menos como antes. O que mais se
teme é que, aumentando o ódio, comece uma guerra civil aberta.
ZENIT: O senhor já pensou em abandonar o país?
Pe. Luis Montes: Deus nos chamou a esta missão e queremos ficar com este povo que merece tanto.
ZENIT: Que mensagem o senhor gostaria de mandar para os nossos leitores?
Pe. Luis Montes: Pedimos que todos orem e divulguem o que está
acontecendo. Temos que consciencializar o mundo do genocídio nesta região.
Temos que mobilizar os cristãos para que eles rezem mais. Em https://www.facebook.com/amigosdeirak e http://amigosdeirak.verboencarnado.net vocês podem acompanhar as
notícias [em espanhol, ndr] deste martírio que acontece debaixo dos
nossos olhos, além de mandar mensagens de apoio que nós repassaremos
para os nossos fiéis. Temos que aproveitar as vantagens das redes
sociais. É muito fácil agora compartilhar a informação. A quem puder,
convidamos também a enviar ajuda através da internet pelo seguinte link:
https://www.indiegogo.com/projects/relief-fund-for-persecuted-christians-in-iraq.
Quem não puder mandar muito, que mande algum pouco. Com pouco se faz
muito! 200 mil dos 300 mil cristãos deste país vivem como refugiados e
dependem de ajuda para viver. Em total, calculamos que há 1,6 milhão de
refugiados. O inverno está perto e a necessidade é urgente! Por último,
pedimos que todos vivam mais e melhor a caridade com as pessoas ao seu
redor. Isto que está acontecendo aqui é causado pelo ódio, e só o amor
pode vencê-lo. A caridade é uma força invencível, porque Deus é amor!
Quem quiser ajudar, de verdade, pode amar mais a Deus e o próximo.
(10 de Novembro de 2014) © Innovative Media Inc.
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