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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Entrevista com o embaixador da Polónia junto à Santa Sé: a queda do muro de Berlim e o fim do comunismo em seu país

João Paulo II nos trouxe a esperança que derrubou a Cortina de Ferro


Cidade do Vaticano, 10 de Novembro de 2014 (Zenit.org) Sergio Mora


Há 25 anos, aconteceu o que era então impensável: milhares de alemães orientais derrubaram o muro de Berlim, diante da inércia das autoridades comunistas. Era o início do fim do império soviético.

ZENIT conversou na última sexta-feira com o embaixador da Polónia junto à Santa Sé, Piotr Nowina-Konopka, que nos contou como viveu aqueles eventos e destacou que São João Paulo II foi um personagem-chave para o fim do comunismo como um todo.

ZENIT: Como o senhor recebeu e viveu a notícia da queda do Muro de Berlim?
Embaixador Nowina: Foi durante as primeiras semanas do novo governo da Polónia não comunista, nascido em 12 de setembro de 1989. Eu era ministro de Estado e recebíamos na Polónia a primeira visita de um líder de um país livre: o chanceler alemão Helmut Kohl.

ZENIT: O senhor fazia parte do sindicato Solidarnosc (Solidariedade)?
Embaixador Nowina: Sim, e também fui porta-voz de Lech Walesa no período da lei marcial. Depois, em Junho daquele ano, tivemos as eleições em que, pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial, foi eleito um ministro não comunista. Ainda havia todos os ressentimentos da guerra entre polacos e alemães e tinha começado um processo de pacificação entre os dois países. A fronteira entre a Polónia e a República Democrática da Alemanha (RDA, ou Alemanha Oriental) estava praticamente fechada. Existiam dois passaportes, um que permitia circular na área comunista e outro para o mundo inteiro. Este último era quase impossível de conseguir.

ZENIT: Antes da queda do muro, houve algum evento particular?
Embaixador Nowina: Foi se suavizando o hermetismo do lado polaco da fronteira com a Alemanha Oriental (RDA). Milhares de pessoas fugiram para o nosso país, pedindo asilo, e foram acolhidas pelos polaco. Eu me lembro bem, estava na chancelaria para assuntos internacionais. Dissemos a Kohl que não sabíamos o que fazer porque não tínhamos alojamentos suficientes, mas a população os acolheu. Muitos daqueles alemães, depois, voltaram à Polónia para agradecer pelo acolhimento que tinham recebido. A primeira porta que se abriu foi entre a Hungria e a Áustria, mas essa fronteira do Muro de Berlim era hermética. Da Polónia, podíamos chegar à Hungria pela Checoslováquia ou de avião.

ZENIT: Tinham alguma notícia sobre a queda do muro?
Embaixador Nowina: A resposta é: absolutamente não. Ninguém, nem sequer o chanceler Kohl, que estava em visita oficial à Polónia. Ele teve que suspender a viagem para voltar à Alemanha. Ele me disse: "Senhor ministro, o meu dever é estar lá. Desculpe, mas eu devo voltar".

ZENIT: Por que permitiram a queda do muro?
Embaixador Nowina: O governo e as autoridades não sabiam o que dizer. As mensagens eram contraditórias. A impressão é que não havia nenhuma autoridade.

ZENIT: Então foi um movimento popular que derrubou o muro?
Embaixador Nowina: Sem dúvida, sem dúvida, mas não era um movimento organizado como o nosso. Na Polónia, depois da viagem papal de 1979, a oposição democrática tinha se estruturado, depois aconteceu a greve do estaleiro de Gdansk. Veio a lei marcial e as repressões, até que aconteceu a mesa redonda e autorizaram a participação nas eleições. Nós vencemos nas urnas com 99% no Senado e com tudo o que nos permitiam na Assembleia, que era 36%.

ZENIT: Qual foi o papel de São João Paulo II na queda da União Soviética?
Embaixador Nowina: É uma história que começa antes mesmo da chegada de João Paulo II, porque, depois da Segunda Guerra Mundial, a Igreja católica na Polónia mantinha uma grande autoridade moral: defendia a liberdade do homem, da fé, da religião. Wojtyla, que era muito activo como cardeal, apoiava todos os pequenos grupos da oposição que não eram visíveis, porque estavam sob a pressão do comunismo. Com o conclave, as coisas mudaram. O ponto é a esperança, a esperança que ele nos deu.

ZENIT: Pode falar mais sobre esse “ponto”?
Embaixador Nowina: Em 1979, João Paulo II foi à Polónia e os comunistas ficaram furiosos, mas era muito difícil impedir que os polacos de todo o país se reunissem em torno do papa. Fizeram de tudo para diminuir a visita, com censura, com todo tipo de artifícios, mas um milhão ou mais de um milhão de pessoas foram a pé até Varsóvia para a missa. O famoso discurso do papa, “que o Espírito Santo desça sobre a terra e a transforme”, não era retórica. E as pessoas se deram conta de que, como elas, havia milhares e milhares, porque a estratégia do regime comunista se baseava na atomização dos opositores. E a Polónia católica teve a esperança de que as coisas mudassem.

ZENIT: O que aconteceu depois da viagem de João Paulo II à Polónia?
Embaixador Nowina: Em 1980, as greves começaram por motivos económicos, mas, depois, pela dignidade da pessoa. Eu tenho certeza de que foi um milagre, porque, tecnicamente, não tínhamos oportunidade. E, no fim, os comunistas aceitaram os sindicatos, que, em pouco tempo, tinham 10 milhões de filiados. Depois, o governo impôs a lei marcial para “evitar uma invasão soviética” e rompeu o diálogo entre governo e sindicatos até 1988. Apesar dos esforços do regime, houve uma queda drástica na produção. Sem conseguirem dar um jeito na situação económica, eles tiveram que retomar o diálogo com os sindicatos, o que levou à realização da mesa redonda. Foi aí que eles permitiram as eleições. Mas o ponto central de tudo foi a esperança.

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