João Paulo II nos trouxe a esperança que derrubou a Cortina de Ferro
Cidade do Vaticano, 10 de Novembro de 2014 (Zenit.org) Sergio Mora
Há 25 anos, aconteceu o que era então impensável: milhares
de alemães orientais derrubaram o muro de Berlim, diante da inércia das
autoridades comunistas. Era o início do fim do império soviético.
ZENIT conversou na última sexta-feira com o embaixador da Polónia
junto à Santa Sé, Piotr Nowina-Konopka, que nos contou como viveu
aqueles eventos e destacou que São João Paulo II foi um personagem-chave
para o fim do comunismo como um todo.
ZENIT: Como o senhor recebeu e viveu a notícia da queda do Muro de Berlim?
Embaixador Nowina: Foi durante as primeiras semanas do novo governo
da Polónia não comunista, nascido em 12 de setembro de 1989. Eu era
ministro de Estado e recebíamos na Polónia a primeira visita de um líder
de um país livre: o chanceler alemão Helmut Kohl.
ZENIT: O senhor fazia parte do sindicato Solidarnosc (Solidariedade)?
Embaixador Nowina: Sim, e também fui porta-voz de Lech Walesa no
período da lei marcial. Depois, em Junho daquele ano, tivemos as
eleições em que, pela primeira vez depois da Segunda Guerra Mundial, foi
eleito um ministro não comunista. Ainda havia todos os ressentimentos
da guerra entre polacos e alemães e tinha começado um processo de
pacificação entre os dois países. A fronteira entre a Polónia e a
República Democrática da Alemanha (RDA, ou Alemanha Oriental) estava
praticamente fechada. Existiam dois passaportes, um que permitia
circular na área comunista e outro para o mundo inteiro. Este último era
quase impossível de conseguir.
ZENIT: Antes da queda do muro, houve algum evento particular?
Embaixador Nowina: Foi se suavizando o hermetismo do lado polaco da
fronteira com a Alemanha Oriental (RDA). Milhares de pessoas fugiram
para o nosso país, pedindo asilo, e foram acolhidas pelos polaco. Eu
me lembro bem, estava na chancelaria para assuntos internacionais.
Dissemos a Kohl que não sabíamos o que fazer porque não tínhamos
alojamentos suficientes, mas a população os acolheu. Muitos daqueles
alemães, depois, voltaram à Polónia para agradecer pelo acolhimento que
tinham recebido. A primeira porta que se abriu foi entre a Hungria e a
Áustria, mas essa fronteira do Muro de Berlim era hermética. Da Polónia,
podíamos chegar à Hungria pela Checoslováquia ou de avião.
ZENIT: Tinham alguma notícia sobre a queda do muro?
Embaixador Nowina: A resposta é: absolutamente não. Ninguém, nem
sequer o chanceler Kohl, que estava em visita oficial à Polónia. Ele
teve que suspender a viagem para voltar à Alemanha. Ele me disse:
"Senhor ministro, o meu dever é estar lá. Desculpe, mas eu devo voltar".
ZENIT: Por que permitiram a queda do muro?
Embaixador Nowina: O governo e as autoridades não sabiam o que dizer.
As mensagens eram contraditórias. A impressão é que não havia nenhuma
autoridade.
ZENIT: Então foi um movimento popular que derrubou o muro?
Embaixador Nowina: Sem dúvida, sem dúvida, mas não era um movimento
organizado como o nosso. Na Polónia, depois da viagem papal de 1979, a
oposição democrática tinha se estruturado, depois aconteceu a greve do
estaleiro de Gdansk. Veio a lei marcial e as repressões, até que
aconteceu a mesa redonda e autorizaram a participação nas eleições. Nós
vencemos nas urnas com 99% no Senado e com tudo o que nos permitiam na
Assembleia, que era 36%.
ZENIT: Qual foi o papel de São João Paulo II na queda da União Soviética?
Embaixador Nowina: É uma história que começa antes mesmo da chegada
de João Paulo II, porque, depois da Segunda Guerra Mundial, a Igreja
católica na Polónia mantinha uma grande autoridade moral: defendia a
liberdade do homem, da fé, da religião. Wojtyla, que era muito activo
como cardeal, apoiava todos os pequenos grupos da oposição que não eram
visíveis, porque estavam sob a pressão do comunismo. Com o conclave, as
coisas mudaram. O ponto é a esperança, a esperança que ele nos deu.
ZENIT: Pode falar mais sobre esse “ponto”?
Embaixador Nowina: Em 1979, João Paulo II foi à Polónia e os
comunistas ficaram furiosos, mas era muito difícil impedir que os
polacos de todo o país se reunissem em torno do papa. Fizeram de tudo
para diminuir a visita, com censura, com todo tipo de artifícios, mas um
milhão ou mais de um milhão de pessoas foram a pé até Varsóvia para a
missa. O famoso discurso do papa, “que o Espírito Santo desça sobre a
terra e a transforme”, não era retórica. E as pessoas se deram conta de
que, como elas, havia milhares e milhares, porque a estratégia do regime
comunista se baseava na atomização dos opositores. E a Polónia católica
teve a esperança de que as coisas mudassem.
ZENIT: O que aconteceu depois da viagem de João Paulo II à Polónia?
Embaixador Nowina: Em 1980, as greves começaram por motivos económicos, mas, depois, pela dignidade da pessoa. Eu tenho certeza de
que foi um milagre, porque, tecnicamente, não tínhamos oportunidade. E,
no fim, os comunistas aceitaram os sindicatos, que, em pouco tempo,
tinham 10 milhões de filiados. Depois, o governo impôs a lei marcial
para “evitar uma invasão soviética” e rompeu o diálogo entre governo e
sindicatos até 1988. Apesar dos esforços do regime, houve uma queda
drástica na produção. Sem conseguirem dar um jeito na situação económica, eles tiveram que retomar o diálogo com os sindicatos, o que
levou à realização da mesa redonda. Foi aí que eles permitiram as
eleições. Mas o ponto central de tudo foi a esperança.
(10 de Novembro de 2014) © Innovative Media Inc.
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