Dos Beatles e Genesis a «A harpa de David»
| Desde Montserrat recomendam-te grupos de música rock cristã |
Actualizado 25 de Agosto de 2014
Enrique Chuvieco / ReL
Carles Xavier Noriega compagina as suas múltiplas actividades no mosteiro, entre elas a de dirigir a publicação Studia Monastica, com dedicar um tempo à que foi uma das suas paixões desde os 17 anos: a música pop. A sua primeira recordação foi o “Ob-la-di, ob-la-da” na rádio que havia acima do frigorífico da cozinha da minha mãe”, recorda.
Naquela época – ainda que não se chamassem assim - havia frikis e ele era um deles ao procurar, mudar e conseguir discos de Yes, Camel, Jethro Tull ou os seus preferidos Génesis, os primeiros que viu num concerto no seu Barcelona natal.
Há uns anos descobriu no Youtube grupos e solistas cristãos, maioritariamente protestantes, de todo o tipo de estilos e países que “falam explicitamente de Deus” nas suas canções e os quais apresenta diariamente no seu programa “A harpa de David” do mosteiro catalão. Aquela constatação sugere que Deus voltou a procurar nos interstícios da sua biografia, ainda que ele acredite que a sua vocação religiosa tem pouco que ver com a sua querência musical. Vocês que pensam?
- Como é isto de que despertaste com os Beatles?
A primeira recordação de música que tenho é escutar o “Ob-la-di, ob-la-da” na rádio que havia encima do frigorífico da cozinha da minha mãe. Depois seguiram outras canções.
Eras pequeno, não acabas de discernir as coisas e crês que todas as canções boas tenham que ser dos Beatles, ainda que não o fossem. Depois dás-te conta de que há mais música por detrás.
Na minha casa, havia discos de música clássica, com os quais eu sempre punha esses discos, mas isso durou até aos catorze anos. A partir daí comecei a descobrir outros grupos, como Supertramp, entre outros. Ao relacionar-te com os amigos, estes tem irmãos mais velhos que te levam a descobrir outros grupos. Além disso, deixam discos que me conduziram a introduzir-me no rock sinfónico ou rock progressivo - era a minha especialidade, mas ouvia de tudo - e vais a concertos. O primeiro foi Génesis, aos quais vi na praça de touros de Barcelona. Isso fica-te marcado.
- Que idade tinhas?
Dezassete anos. Tinha descoberto em 1980 ou 1981 a Génesis na televisão, quando começavam a por os videoclips que era uma coisa nova naquele então. Gostaram tanto que, a partir daí, foi quase obsessivo. Comecei a comprar todos os seus discos. Dás-te conta de que não só é Génesis – ainda que era o meu grupo preferido -, mas sim que são os seus componentes por separado: Peter Gabriel e Phil Collins (começava a sua explosão).
Depois descobres King Crimson, Yes, Camel ou Jethro Tull. É toda uma corrente: começas a encontrar amigos, a coincidir nos concertos…
- Dás um salto desde a música clássica ao rock sinfónico…
- Para mim, um dos grandes descobrimentos foi o Tales from Topographic Oceans, de Yes. Eles eram virtuosos com os instrumentos e sempre começavam os seus concertos com O pássaro de fogo, de Stravinski. De certa maneira tudo tem relação.
Naquele tempo não tens muito dinheiro para comprar os discos que queres e tampouco vais muito mais além do conhecido. Mas, a partir daqui, não te conformas já com os LP’s oficiais mas sim que começas a procurar coisas que te trazem algo mais: fazes-te coleccionista. Porque o teu amigo tem um LP com uma capa diferente. Começas a escrever-te com gente de todo o mundo, a intercambiar música, recolher direcções, habituar-te às feiras de discos ou a ir procura-los directamente e meter-te no mundo dos “fanzines”. Aí começa já a ser perigoso.
- Que tem que ver esta paixão musical – imagino que muito porque é a tua pessoa - com a tua vocação religiosa?
- Deve estar escondida: Deus saberá! Mas eu diria que não. O primeiro que pensei quando planeei a vocação foi que faria com a minha colecção de discos, porque não a ia trazer ao mosteiro. De facto sabia que tinha que renunciar a tudo isso. Mas na hora da verdade, é diferente, porque as coisas mudaram muito e vais à Internet e podes escutar qualquer coisa e mais. Sempre há algum momento de descanso aqui que te dá para escutar algo. Mas todos vamos evoluindo e já não é como há vinte anos.
- Que te continua sugerindo a música que gostaste sempre?
- Às vezes é simplesmente um descanso, um gozar da beleza. Por outro lado, em ocasiões é um salto de nível que te aproxima mais de Deus. E não só a música religiosa: escutando Yes intuis que aí há algo de Deus.
- Na beleza sempre há algo de Deus
- Por suposto. Às vezes, mudando um pouco as letras, falam-te de Deus. Além disso, descobres grupos que, fazendo actualmente pop, se referem explicitamente a Deus nas suas letras. São grupos maioritariamente protestantes e há algum católico.
- São os teus novos descobrimentos?
- Efectivamente. Descobri-os há dois ou três anos procurando no Youtube. São grupos cristãos que fazem música incrível. A partir daí começas a tirar do fio e topas com solistas e conjuntos muito bons que talvez não cheguem aos níveis espectaculares das formações às quais aludi antes, mas são muito dignos, como Hillsong, Jesus Culture, Josh Garrells, Gungor, Misty Edwards...
- O resultado: fazes um programa de rádio com grupos cristãos na emissora do mosteiro.
- Sim, chama-se “A harpa de David”, ponho todo o tipo de estilos: Pop, Rock, Progressivo, Hard, Reggae, Ska, Hip-Hop, Blues, Folk, Indie, Alternativa, Som filadelfia, Jazzy, Tecno, Experimental, Country, etc, ainda que todavia não me atrevi com o Trance, nem o Heavy.
Dedico aproximadamente vinte minutos diários a apresentar um grupo, a maioria são estadunidenses, mas também há da Austrália, Inglaterra, Alemanha… Basicamente cantam em inglês, mas começam a fazê-lo em castelhano porque as igrejas evangélicas estão expandindo-se na América do Sul. Além disso, na internet encontras as canções originais legendadas em castelhano ou português.
- Ouvem os programas os monges?
- Como é uma emissora que todavia está em fase de provas, de momento dedica-se maioritariamente a comentar leituras e passagens do Evangelho, ainda que de tanto em tanto há algum programa que tenta falar ao espírito de outra maneira; o meu inclui-se nesta categoria.
- Ouve-se no exterior do mosteiro?
- A cobertura é limitada porque o espaço radioeléctrico na Catalunha é muito complicada, mas pode-se escutar pela Internet indo à página da internet do mosteiro de Montserrat.
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