1. Dimensão social da evangelização
Na semana passada tiveram lugar em Fátima as jornadas anuais da pastoral social, desta vez sob o tema da dimensão social da evangelização, aprofundando e descrevendo concretizações do quarto capítulo da Exortação Apostólica Alegria do Evangelho, que tem por título esse preciso tema. Foram comunicações interessantes, que nos colocaram muitas interrogações sobre a qualidade da nossa fé e apostolado. Mas creio que estes números do documento papal tocam os fundamentos da missão da Igreja, porque nos apresentam a originalidade da vida de Cristo e do seu Evangelho.
Na Sinagoga de Nazaré Jesus apresentou a missão do Messias, que era Ele próprio, repetindo a profecia de Isaías: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa-Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e, aos cegos, a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor.» (Lc 4, 18-19).
Creio que ninguém tem dúvidas acerca do sentido destas palavras e de como Jesus as cumpriu na sua pessoa e na sua vida. A continuação desta missão no tempo e no espaço, através da história e do universo, foi confiada aos apóstolos e discípulos de todos os tempos e lugares. Estamos conscientes das suas exigências e da debilidade dos discípulos. Mas não podemos desculpar-nos com falsa apologética ou malabarismos exegéticos. Por isso todos os discípulos têm obrigação de fazer o exame de consciência, bater com a mão no peito por causa dos seus pecados, por pensamentos, palavras, acções ou omissões e aperfeiçoar o seu modo de seguir o Mestre e cumprir a missão que lhes foi confiada.
A fé sem obras é morta, diz o apóstolo S. Tiago. Mas também as obras sem fé, sem a confiança no Senhor da Messe e a disponibilidade em segui-Lo, amando-nos uns aos outros como Ele nos amou, fazendo uns aos outros como Ele fez, pode cair num puro activismo, que atribui tudo ao discípulo, como se pudesse mudar o mundo e resolver todos os seus problemas apenas a partir de si mesmo e das suas obras. Isto seria orgulho da nossa parte e mentira acerca da nossa dignidade e dos outros. Não somos máquinas ou activistas de alguma ideologia, mas filhos de Deus e irmãos uns dos outros, chamados a olhar e cuidar uns dos outros.
Em poucas palavras o Papa Francisco o diz no início do capítulo IV: Evangelizar é tornar o Reino de Deus presente no mundo. Ora isto tem repercussões comunitárias e sociais, como o Papa explica em todo este capítulo, que acentua muitas dimensões da vida e missão da Igreja, muitas delas esquecidas ou até mesmo deturpadas. Conscientes de todas as dimensões da nossa vida cristã e da vocação a que fomos chamados, temos de exclamar como S. Paulo: Ai de mim se não evangelizar.
2. Colocar os frágeis no centro
Todos somos tentados em pensar e agir como senhores e não como servos dos outros, sobretudo dos mais pobres, como se estes apenas fossem sujeitos passivos das nossas boas acções e nada nos tivessem a dar. Recordo os testemunhos de Jean Vanier, fundador da Arca, ou seja, de comunidades de e com deficientes, em que ele nos diz quanto recebe destes, muito mais do que aquilo que lhes dá. O mesmo podemos ler nos muitos livros de Henri Nouwen, um teólogo e psicólogo holandês, que mudou a sua vida de conferencista famoso quando se encontrou com as comunidades da Arca e nelas viveu. Muito conhecido é o seu livro O Regresso do Filho Pródigo.
Isto acentua o Papa Francisco na Exortação que estamos a comentar. Nos números 186 a 216 ele explica como deve ser a inclusão social dos pobres, que devem ser protagonistas da missão da Igreja. Olhando para Jesus Cristo, para o seu amor preferencial pelos pobres e pecadores, muito temos a aprender e mudar na nossa evangelização. Quando isto começar a acontecer, então poderemos falar da primavera da Igreja, tão sonhada pelo bom Papa S. João XXIII e que o Concílio Vaticano II e os Papas seus sucessores procuraram implementar na vida da Igreja. É isto também que eu sonho e convido todos a sonhar comigo, a arregaçar as mangas e organizar a diocese, as paróquias e serviços neste sentido.
Ao iniciarmos um novo ano pastoral, em que desejamos acentuar a dimensão da caridade na vida da Igreja, agradeço a todos os que com generosidade se esforçam por colaborar na nobre e exigente missão da Igreja diocesana, agora envolvida num Sínodo e exorto todos os colaboradores a unirem esforços no sentido de uma evangelização mais integral das comunidades, famílias e ambientes da nossa diocese, tendo em conta a grave crise de fé, de valores e de falta de trabalho que nos afecta.
Temos um longo caminho a percorrer, mas não desanimamos. Assim Deus nos ajude e Nossa Senhora das Dores, dia em que escrevo esta nota, interceda por nós. Na próxima semana, dia 22, teremos o encontro do clero. Vamos nomear novos arciprestes, escolher um novo Conselho Presbiteral, decidir algumas orientações e acções para o próximo ano pastoral e apresentá-las à diocese no Dia Diocesano, a 27 do corrente mês, altura em que nomearemos a nova Direcção da Caritas Diocesana. Estamos gratos a todos aqueles que animaram a diocese na área socio-caritativa durante estes últimos anos e pedimos a bênção de Deus e colaboração dos diocesanos com a nova equipa.
† António Vitalino, Bispo de Beja
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