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quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Albânia: após 40 anos de comunismo, o país sente o frescor do Evangelho

Mons. Segundo Tejado, subsecretário do Cor Unum, conta a ZENIT a sua experiência como sacerdote na Albânia e fala da reconstrução depois da queda do muro de Berlim


Roma, 10 de Setembro de 2014 (Zenit.org) Rocio Lancho García


Durante 40 anos, a Albânia teve uma constituição que proibia expressamente a prática religiosa. Quando o muro de Berlim caiu e o país se abriu à democracia, foi muito o que teve que ser começado de novo. Foi assim para a Igreja, que precisou recomeçar a evangelizar praticamente do zero.

"Pároco, construtor, director da Cáritas, secretário do bispo, secretário da Conferência Episcopal... Tinha que fazer de tudo. O que pediam e o que a realidade exigia. Um trabalho muito intenso, mas muito bonito". Ao se aproximar a viagem do papa Francisco a esse país dos Balcãs, neste próximo dia 21 de Setembro, mons. Segundo Tejado, sacerdote espanhol e actual subsecretário do Pontifício Conselho Cor Unum, contou a ZENIT como foram os seus anos na Albânia e o trabalho inicial da Igreja depois de tantos anos de opressão.

Em 1993, depois de trabalhar em Roma, o sacerdote foi para a Albânia ajudar a reconstruir a Igreja. Não tinha um cargo específico, porque o arcebispo de Tirana, a capital, tinha pedido um sacerdote para ajudar em “tudo o que tinha que ser feito”. Um ano depois da sua chegada, Tejado foi nomeado director da Cáritas Albânia.

O padre ficou oito anos nesse cargo, passando por todas as crises daquela época: a crise financeira de 1997, a crise social, a crise política. Tudo, em parte, por consequência da transição do regime comunista para uma sociedade democrática. Ele também sofreu de lá a guerra do Kosovo, em que as tropas sérvias expulsaram muitos albano-kosovares para a Macedónia e principalmente para a Albânia.

Naquelas circunstâncias, a Caritas teve muitíssimo trabalho. "Foi um trabalho completo", recorda Tejado, “porque era preciso reconstruir muitas estruturas. Em quarenta anos, praticamente tudo tinha sido destruído: igrejas, conventos e, acima de tudo, a comunidade eclesial como tal. Foram quarenta anos sem instrução, praticamente sem sacramentos. A Albânia era o único país cuja constituição proibia qualquer tipo de manifestação de tipo religioso. Houve sacerdotes que morreram por baptizar uma criança em Tirana”.

Mons. Tejado também nos fala dos sacerdotes que conheceu já bem idosos, quando, ao cair o muro de Berlim, eles foram soltos das prisões. Ele atesta que foi "um presente enorme conhecer aquelas pessoas que tinham sofrido tanto por causa da fé, por serem sacerdotes ou por dizerem que eram cristãos".

ZENIT: Como foi o percurso da Igreja na Albânia desde que o senhor chegou e até quando partiu?
Monsenhor Tejado: Foi um caminho muito longo e muito bom. O grande mérito dos primeiros bispos da Albânia, que João Paulo II criou no ano de 1993, foi fazer tudo do zero. Reconstruir um mínimo para começar a trabalhar. E não era fácil, porque não havia clero local. Agora tem os jovens albaneses, que têm que pegar a sua Igreja pela mão e levá-la adiante.

Era um tempo de “kairós”. O comunismo não tinha destruído as raízes do sentimento religioso natural. O processo de secularização consegue arrancar as raízes da religiosidade e depois fica muito difícil falar de Deus para as pessoas secularizadas. Mas eu me dei conta de que lá na Albânia era fácil falar do Evangelho; havia uma recepção muito viva do Evangelho. Porque você tem que considerar que os albaneses são muçulmanos, católicos ou ortodoxos por legado familiar, mas o povo albanês, depois dos quarenta anos de comunismo, era profundamente ateu. Era um povo que não conhecia Deus.

Também é necessário levar em conta que a Albânia olha para o Ocidente, histórica e culturalmente, mesmo tendo sido um país que pertenceu ao Império Otomano. A Albânia foi se modernizando muito rapidamente. Os processos de mudança do comunismo para uma sociedade mais aberta e democrática foram velocíssimos. Isso criou muitos problemas, especialmente entre as gerações diferentes. Você percebia uma grande tensão entre as tradições antigas e o mundo novo que ia chegando em grandes ondas.  

A Igreja se adaptava à nova realidade. Agora as igrejas estão mais ou menos reconstruídas. E a Igreja tenta ser o que ela tem que ser: sal, luz e fermento.

ZENIT: O que significou a visita de João Paulo II à Albânia em 1993?
Monsenhor Tejado: Eu cheguei depois, mas ainda existia o eco da visita. Foi fantástico, um sinal de esperança para um povo que tinha saído de tantos anos de opressão. A visita de João Paulo II foi uma coisa vinda do céu. Que um papa fosse lá... era algo imenso. Todo o povo, muçulmanos, ortodoxos e católicos, todos foram para as ruas. Vai ser igual com Francisco. A Albânia é um povo muito acolhedor e, quando eles dão o coração, é de verdade.

ZENIT: Podemos entender a próxima visita do papa Francisco dentro da perspectiva de “ir até as periferias da existência”?
Monsenhor Tejado: Claro. É o estilo do papa. Mas, atenção: é o estilo de todo cristão. O cristão verdadeiro não se rege por lógicas de poder, económicas ou de conveniência. O papa é uma pessoa primordial neste sentido. Convidaram e ele disse: 'Sim, eu tenho que ir lá'. O país pequeno, que tem menos habitantes, que economicamente tem menos... Esta é uma lógica cristã. Jesus escolhia os pequenos, não se rodeava de gente de poder para depois ter alguma recompensa. Ele não tinha essa lógica.

O papa falou do diálogo inter-religioso, que é muito interessante na Albânia. É verdade que eles são uma só etnia e que isso cria uma unidade de base muito importante. Na Albânia existe um diálogo constante entre as crenças religiosas, não é esporádico, é constante. E não há nenhuma que seja radical. Pelo que eu vi, o albanês não é fundamentalista por princípio.

ZENIT: Quais são os frutos que o senhor acha que esta visita do papa pode dar?
Monsenhor Tejado: Os frutos nós vamos ver depois. Eu acho que o primeiro fruto é uma palavra para a Europa, que está se construindo sobre bases de interesses económicos. E a Europa tem que começar a olhar e a se construir com outros critérios. E com estes sinais e decisões que o papa toma, eu acho que esta é a mensagem que ele tenta passar. Os critérios não podem ser só económicos ou estratégicos. Os povos se constroem com outras riquezas.

ZENIT: De que forma o testemunho de uma grande mulher albanesa, como a beata Teresa de Calcutá, está presente nesta nação?
Monsenhor Tejado: Os albaneses têm muito orgulho de terem tido uma mulher assim. Eu a conheci lá. E, aparentemente, é paradoxal que Deus tenha feito uma joia assim com uma mulher tão pequena e de uma nação tão pequena, olhando do ponto de vista mundano. A beata está presente em tudo. Para eles, é um orgulho nacional. O aeroporto é dedicado a ela, a praça mais importante de Tirana, o hospital... Há um sentimento muito bom e os albaneses a amam muito. Ela tinha um afecto especial pela Albânia, para onde voltou muitas vezes e fundou muitos conventos.

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