O líder da Comunhão e Libertação
apresenta o seu livro “A beleza desarmada” e recorda: "Não há relação
com a verdade se não for através da liberdade"
Cidade do Vaticano,
17 de Novembro de 2015
(ZENIT.org)
Luca Marcolivio
Um "novo começo" para a civilização ocidental e cristã após o
"colapso das evidências" no tocante à mãe de todas as liberdades: a
liberdade religiosa. Este e muitos outros temas são tratados pelo Pe.
Julián Carrón, presidente da Fraternidade Comunhão e Libertação, em seu
mais recente livro, “A beleza desarmada”. O livro foi apresentado neste
mês, no Vaticano, pelo autor e pelo cardeal Jean-Louis Tauran,
presidente do Pontifício Conselho para o Diálogo Inter-Religioso, junto
com o presidente emérito da Câmara dos Deputados da Itália, Luciano
Violante.
ZENIT conversou com Carrón, que fez um balanço dos seus dez anos à
frente do movimento e do legado de Luigi Giussani. O sacerdote espanhol
de 65 anos afirmou que não há nenhuma "virada religiosa" na Comunhão e
Libertação em detrimento do compromisso político e civil. Na verdade, o
movimento está passando por um processo de "personalização da fé", para
que ela robusteça a imersão do homem na realidade e na novidade que
Cristo traz à vida de cada um.
Zenit: Pe. Carrón, este ensaio pode ser considerado uma
espécie de “summa” dos seus dez anos como presidente da Fraternidade da
Comunhão e Libertação?
Pe. Carrón: Sim. É uma tentativa de compartilhar a nossa experiência
com tantas outras pessoas que estão enfrentando os mesmos desafios. Quem
sabe, este caminho que nós percorremos possa ser útil para os outros.
Zenit: O que o senhor quer dizer, no primeiro capítulo, ao falar de "novo começo"?
Pe. Carrón: Quero dizer um novo começo diante do colapso de muitas
evidências com a crise económica, a emergência educativa etc. Diante da
fadiga reconhecida pelos expoentes da cultura, é possível recomeçar a
partir desta situação. Estou convencido de que este novo início é
possível, que podemos encontrar o que nos fará recomeçar.
Zenit: Uma expressão-chave do livro é justamente "o colapso das evidências"...
Pe. Carrón: É uma expressão que eu tomei de um texto de Bento XVI. O
papa emérito lembrava que na época do Iluminismo, depois das guerras de
religião, a grande unidade europeia estava despedaçada. Pensava-se que
os valores partilhados por todos os europeus, os valores da tradição
cristã, poderiam permanecer como fundamento do "novo começo", mas fora
dos conflitos religiosos. Acreditava-se que, separando-os dos elementos
religiosos, aqueles valores poderiam durar. Depois de alguns séculos,
vemos que, como reconheceu o papa Bento XVI, aquela tentativa de
conservar para sempre alguns valores compartilhados por todos falhou.
Zenit: E o que se entende por "verdade na liberdade"?
Pe. Carrón: É um notável passo em frente na autoconsciência da
Igreja. Em seu célebre discurso à Cúria Romana em 2005, Bento XVI
enfrentou alguns dos pontos-chave do Concílio Vaticano II, entre eles o
da liberdade religiosa. A Igreja tinha se aprofundado na reflexão sobre a
relação entre verdade e liberdade. A reivindicação da liberdade é uma
questão muito moderna e a Igreja não chegou à liberdade religiosa
simplesmente por não ter sido capaz de convencer as pessoas da verdade
do cristianismo, mas porque não há nenhuma relação com a verdade se não
houver a liberdade religiosa. Este é um aspecto de como nós, cristãos,
podemos oferecer a verdade, que é crucial. Por isso, o título do meu
livro dá esta sugestão numa época como a nossa. Somente se o homem
encontrar a verdade desarmada, sem nenhum outro poder externo que não
seja o da própria verdade, somente assim é que a atratividade da verdade
vai poder se adequar à sensibilidade moderna e à única autêntica
relação com a verdade, que é a liberdade.
Zenit: Qual é o seu balanço dos dez anos à frente da Comunhão e Libertação?
Pe. Carrón: Estes dez anos têm sido para mim uma aventura fascinante e
uma graça para todos nós, por todos os desafios que enfrentamos, que,
no fim, são os desafios de todos. Para nós, foi a oportunidade de ver
como é valioso o que recebemos de Dom Giussani para lidar com estas
situações; isso nos dá a capacidade de compreender os fenómenos que
estamos vivendo, sem sucumbir à confusão, sugerindo-nos como lidar com
eles. Nós mesmos ficamos maravilhados.
Zenit: A herança de Dom Giussani é “pesada”?
Pe. Carrón: Para mim, Dom Giussani sempre foi um pai, apesar de eu
não ter tido uma convivência assídua com ele porque eu vivia na Espanha.
Mas os seus escritos foram decisivos para mim, por causa de um modo de
estar no real que foi marcado pelo relacionamento com ele e com tudo o
que ele propôs, principalmente como forma de conceber o cristianismo,
como proposta cristã, como possibilidade de verificação da fé. Aspectos
que, num momento como este, são cruciais.
Zenit: A media falou muitas vezes de uma suposta "virada
religiosa" no movimento sob a sua liderança, depois de anos de
compromisso político e social. Quanto há de verdadeiro nisso?
Pe. Carrón: Em 7 de março, na audiência com o papa Francisco, nós lhe
colocamos esta pergunta. E recebemos uma resposta que está na mesma
linha do que sempre tentamos fazer. Pela condição que recebemos, não
temos a intenção de renunciar ao nosso compromisso. O cristianismo tem a
ver com todos os aspectos da realidade: trabalho, família, cultura,
política. Nós temos outra maneira de conceber a fé. Como diz São Paulo,
"estejamos acordado ou dormindo, vivemos com Ele" (1 Tessalonicenses
5,10). Deus tem a ver com tudo. Nós não queremos renunciar ao nosso
compromisso na sociedade. Mas, para poder cumpri-lo, disse o papa, temos
que ter certeza de Cristo, ou, para colocar com as palavras de Dom
Giussani, precisamos da "personalização da fé". A CL vai no caminho
dessa personalização da fé, que lhe permite estar na realidade com a
novidade que Cristo introduz na vida.
Zenit: Os desafios da família, em particular, como devem ser vividos pelos cristãos de hoje?
Pe. Carrón: Se a fé é vivida realmente a sério, ela é capaz de
atender a todo o desejo de plenitude de uma pessoa quando encontra
outra. Se o amor é mais do que um início explosivo e brilhante, então
ele pode durar para sempre. Esta é a contribuição que o cristianismo
pode dar à família, assim como a tantos aspectos da vida.
(17 de Novembro de 2015) © Innovative Media Inc.
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