Contra a produção e partilha de embriões humanos
| Scola, à esquerda, e Schönborn, à direita, escrevem juntos desde Milão e Viena no Le Figaro, o famoso diário parisiense |
Actualizado 30 de Setembro de 2014
ReL
Não é nada frequente que dois cardeais de dois países diferentes (neste caso Angelo Scola, arcebispo de Milão, e Christoph Schönborn, arcebispo de Viena) escrevam num diário de um terceiro país (Le Figaro, na França) animando a população e a todos os europeus a manter uma mobilização em defesa dos seres humanos desde a sua concepção.
Neste caso os dois importantes cardeais escrevem contra a PMA ("procriação medicamente assistida" ou reprodução assistida, que neste caso se refere a métodos de produção de embriões, não a ajudas para que os matrimónios possam conceber ou melhorar a sua fertilidade) e a GPA ("Gestation pour Autrui", que dizer, a maternidade sub-rogada ou o uso de "ventres" de aluguer para gerar bebés para entregar a "pais clientes").
No fundo, bate uma mesma crítica: os seres humanos nestes sistemas não são engendrados, mas sim produzidos: pensa-se em seres humanos na sua fase de embrião e bebé como produtos. E portanto gera-se um mercado em torno a eles: estes seres humanos são mercadorias que se compram, vendem, encarregam e descartam (matam-nos ou congelam) se são defeituosos.
Este é o texto no FIGAROVOX/TRIBUNE
Ángelo Scola, cardeal arcebispo de Milão
Christoph Schönborn, cardeal arcebispo de Viena
Há cem anos o nosso continente estava afundado numa guerra, arrastando atras dele o mundo num conflito do qual não soube medir as consequências.
A guerra de 1914-1918 colocou, de maneira trágica e nova, a questão do valor da vida humana: quantos homens e mulheres pagaram com o preço do seu sangue?
Quantas famílias choraram um filho, um pai, um irmão, um amigo que não voltou nunca mais? Quantos pais ficaram sem filhos e filhos sem pais? Toda a família europeia estava de luto.
Hoje, novas ameaças pairam sobre o nosso continente e colocam a mesma pergunta sobre o valor da vida humana, em termos diferentes.
Na nossa economia liberal, o mercado não pode converter-se na norma última, a necessidade não é a única bússola e o homem não pode transformar-se numa variável de reajuste entre a oferta e a procura.
Em diferentes países da Europa, as leis ou a regulamentação já permitem a maternidade substituta. Nós vemos nisso um duplo atentado à dignidade humana: contra as crianças por um lado, condenadas a «ser órfãos dos seus pais vivos» segundo a expressão de João Paulo II na sua Carta às famílias, e contra as mães pelo outro, cujo corpo é mecanizado, instrumentalizado, alugado.
Se nos inquieta a recente decisão do Tribunal Europeu de Direitos Humanos de instaurar filiações fictícias, há que aclamar a reacção viva, criativa, jovem e duradoura da França sobre esta questão. A França teve a valentia de dizer "não". O Presidente da República Francesa em pessoa comprometeu-se contra a maternidade sub-rogada.
A Manif Pour Tous (www.lamanifpourtous.fr/es/), actualmente bem conhecida em toda a Europa, já tinha advertido que mudar a natureza do matrimónio traria outras reivindicações que desnaturalizariam a adopção e levariam à fabricação de seres humanos.
Efectivamente, aí estão, em estado latente, todas as condições de uma escravidão moderna na qual a criança é concebida como uma mercadoria, um comércio no qual os mais ricos exploram os mais pobres, e uma aceleração da eugenesia ocidental.
Visto desde os nossos diferentes países, o que nos impressiona é que o movimento francês, inquestionavelmente levado em frente por numerosos católicos, constituiu-se com crentes de outras confissões, outras religiões e por não crentes.
Não se trata, portanto, de uma voz eclesial, mas sim de uma voz francesa que se faz ouvir, a nível tanto europeu como internacional.
A sua expressão, popular e cidadã, deveria servir de inspiração aos povos ocidentais e permitir à Convenção Europeia de Direitos Humanos adoptar uma resolução capaz de proteger os direitos da criança.
Não seria isto uma prolongação lógica da Declaração Universal dos Direitos do Homem? Há que garantir os direitos da criança a conhecer a sua origem e a crescer, na medida do possível, com o seu pai e a sua mãe, excluindo qualquer forma de contracto, já seja económico ou não, que lhe prive de um ou de ambos os progenitores.
A fundação de uma família não pode ser, de facto, a expressão da vontade de uns quantos. Se o biológico não faz toda a filiação, a filiação não pode fazer-se sem o biológico. Ela prolonga o que se iniciou no corpo.
Como expressaram os nossos irmãos bispos em França, se se abre o acesso à reprodução assistida ou à maternidade sub-rogada, toda a filiação se desorientará, pois uma geração de crianças se verá privada intencionalmente de um dos seus progenitores.
O Papa Francisco chama-nos sem cessar a sair de nós mesmos e ir às periferias: não se trata de geografia, mas sim de existência. Nas periferias da nossa humanidade encontram-se a extrema fragilidade, a pequenez e a pobreza: a dos anciãos e a da infância.
Foi a atenção prestada a estas periferias o que formou o coração da nossa civilização.
Não só queremos agradecer aos franceses o seu inesperado despertar e o seu estimulante compromisso - que será muito útil, no momento oportuno, nos nossos países -; queremos também chamá-los, sobretudo, a permanecer fiéis à sua história.
Não se trata aqui das suas raízes, mas sim dos ramos, dos brotos e dos frutos, em resume, do futuro da nossa Europa.
(Tradução ao espanhol de Helena Faccia Serrano, Alcalá de Henares, Espanha)
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