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domingo, 10 de março de 2019

És morno ...

É frequente escutarmos que é saudável deixar que os filhos busquem seus caminhos ou, de outra forma, que façam suas escolhas. Se falarmos de paladar, de gosto musical ou de vocação, não resta sombra de dúvida de que esta parece a direção correta. Em se tratando de paixão clubística, entretanto, a recomendação parece não valer. Que pai gostaria de ver um de seus filhos com a camiseta de um time rival? Creio que poucos seriam indiferentes porque torcer para uma agremiação desportiva é algo, digamos assim, tribal. Assim, um filho que esteja em hostes contrárias parece pertencer a outra taba ...

Pois bem, se com um clube de futebol um pai se ocupa, não o faria com suas crenças, com sua inclinação espiritual? Parece natural que sim, a menos que este pai tenha menos convicções espirituais que futebolísticas, seja um indiferente, um agnóstico. Confesso que ainda fico um pouco incomodado quando me deparo com pessoas assim e sequer imaginava, na juventude, que este comportamento se alastraria nos nossos dias quase como uma pandemia.

Há não muito tive a sorte de conhecer a associação internacional AIS (Ajuda à Igreja que Sofre), elevada à condição de Fundação Pontifícia no primado de Bento XVI. Fundada pelo sacerdote holandês Werenfried van Straaten, a AIS cobre áreas nas quais não há liberdade religiosa, particularmente aquelas nas quais cristãos são perseguidos. Recomendo aos interessados que se informem através do portal www.acn.org.br. Cumpre registrar que o Padre Werenfried ficou famoso por pedir aos flamengos que ajudassem refugiados alemães após a II Guerra, algo impensável num país que sofrera sob o domínio nazista. Perdoar é cristão, mas não é nada fácil.

Iniciativas como esta não contam com muita divulgação. Por quê? Lembro da insistência com que meu pai falava da perseguição que a Igreja sofre, da maledicência de seus detratores, dos ataques de seus inimigos. Isto num tempo muito anterior à nítida apostasia de nações europeias e à nova invasão cultural muçulmana no Velho Continente. Quando vejo as exigências da prática islâmica, consignadas na sharia, não posso evitar de recordar as palavras de Cristo: “meu jugo é suave e meu fardo é leve”. Fico a me perguntar se está distante o momento em que o mundo ocidental descobrirá, com arrependimento, a sabedoria e a verdade desta afirmação.

É perceptível a confusão de nosso tempo, gestada silenciosamente pelo relativismo, afetando inclusive a gente cristã. A ponto de uns e outros colocarem em dúvida a existência do inferno e o magistério da Igreja. Como se pudéssemos catar no Evangelho, a nosso talante, as passagens que aceitamos para constituir um evangelho particular. Assim cada qual seleciona o que lhe convém e atribui ao que rejeita a condição de coisa atrasada, alegoria, bobagem ou redação maliciosa da mão humana. Isto sem falar dos ataques mais grosseiros ao Vaticano e ao Papa.

Já entrei em embates desta natureza, buscando iluminar discussões. Como nem sempre o fiz com o mínimo de sabedoria, decidi me policiar neste campo minado, seja porque careço de melhor formação, seja porque não é sábio debater com eventuais mal intencionados, dispostos somente a polemizar para denegrir a instituição fundada pelo próprio Cristo.

Já escrevera sobre o tema em outras oportunidades, mas decidi retornar a ele depois de receber pela rede mundial uma charge em que Cristo, chicote à mão, expulsa o Papa Francisco, como fez com os vendilhões do templo. Trata-se da velha acusação de que a Igreja é riquíssima e deveria doar tudo que tem para eliminar a pobreza do mundo. Quem brande esta denúncia deve desconhecer o “pobres sempre os tereis” e sobretudo sequer suspeita o trabalho social da Igreja mundo afora, como o extraordinário testemunho da Ajuda à Igreja que Sofre.
  
O seriado italiano “Pode me chamar de Francisco” resumiu a trajetória do Cardeal Bergoglio até sua escolha no conclave. Numa passagem o Superior Geral da Companhia de Jesus o escolhe como provençal da América do Sul, porque é firme na doutrina, mas flexível com a humanidade. É o que de fato o Papa Francisco segue transmitido, demonstrando firmeza, humildade e amor pelos inimigos. Entre nós, os leigos, silenciar diante das injustiças assacadas contra a Igreja pode estar entre a caridade e a omissão. Não espero que se defenda a Igreja com o espírito de quem defende seu clube de futebol, mas sim para contrapor a verdade a tanta mentira. Acho que vale o risco. Melhor que sentar praça entre os mornos, cujo destino bíblico é lastimável.

J. B. Teixeira



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