Ia no carro a conduzir quando
passaram uma música que questionava: “És feliz neste mundo moderno?”
Precisamente num dia especial, aniversário de uns dos meus filhos, em que pela
minha mente surgiram toda uma série de situações vivenciadas. Uma delas foi
aquando do seu nascimento. Apesar de diariamente referir ao médico que não me
sentia bem. Nunca valorizou as minhas queixas, encontrando sempre uma
justificação alheia à realidade que vivenciava. A família questionava-se, não
achando normais os meus sintomas. Comentava-se que estava pior do que antes de
nascer o aniversariante. Até que um dia já não consegui levantar-me da cama…
Tenho unicamente presente duas frases: “Já não dá tempo levá-la para a sala de
operações. Fica nesta”. E outra: “Uma senhora enfermeira à cabeceira da cama,
referindo: “O seu tipo de sangue é raro. Foi um sacerdote franciscano que doou
o sangue para que se fizessem as transfusões necessárias”. Nunca soube, nem
saberei jamais, quem me doou o sangue que permitiu salvar a minha vida. Quem
quer que fosse só tenho a agradecer reconhecidamente. Bem-haja!
Passaram-se muitos anos. Hoje tudo
teria certamente sido diferente. Resolvi parar na Fundação Calouste Gulbenkian.
Apetecia-me caminhar um pouco nos seus jardins já que o dia estava convidativo.
Novamente, fui invadida pelas memórias. Passei neste local bons momentos.
Quantas caminhadas feitas neste jardim admirando as flores, as plantas, as
árvores, os lagos, as refeições ligeiras nos seus restaurantes, os inúmeros
congressos que promovi e em que participei, os concertos… Saí mais leve dos
jardins. Tudo tem o seu tempo. Continuei o meu percurso. Passei por locais onde
tinha desenvolvido trabalho em várias áreas de âmbito social. Todo este tempo
de luta parecia agora encontrar-se a uma enorme distância temporal. Alguns dos
locais que frequentava antigamente, tinham dado lugar a novos negócios. A
florista era agora um restaurante, entre outros. As avenidas tinham sofrido
igualmente algumas mudanças para melhor servirem a população. Os passeios mais
amplos, com espaço para se passear. Também para as bicicletas e trotinetes. São
os novos tempos com os seus aspetos positivos e negativos que exigem de quem já
tem mais algum tempo de vida, procurar sempre esforçar-se por se adaptar e
integrar, melhor ou pior, às novas exigências de uma sociedade sempre em
constante mutação, sob pena de se sentir excluído. Não é isso, de modo algum,
que se pretende. Mas que se possua a capacidade de acompanhar a evolução do
tempo, as suas novas exigências, no caso de se considerar que constituem um
contributo em prol do bem-estar da humanidade e dos seus valores fundamentais.
O passeio continuou neste dia de
aniversário. O dia já vai longo. À noite virão apagar as velas e cantarmos os
parabéns. É preciso organizar e preparar o jantar. Oferecer o dia a Nossa
Senhora. Pedir a sua proteção para os anos vindouros. Olhei para a Igreja Nossa
Senhora de Fátima, onde tantas vezes assisti à missa. Fiz uma comunhão
espiritual referindo interiormente:
“Eu quisera receber-Vos com toda a pureza, humildade e devoção com que Vos
recebeu Vossa Mãe Maria Santíssima”.
Ao regressar a casa abri o
computador. Tanta informação recebida através do e-mail, do Facebook, do Linkedin. Muitos Tweets de Donal Trump, de
Juan Guaidó, de António Guterres, entre
outros. Encontramo-nos mesmo numa época cada vez mais global. Leio o que
entendo ser útil. Há que saber optar e definir prioridades. Recordei que se
celebra no dia 2 de Junho, 2019, o 53º Dia Mundial das Comunicações Sociais que
tem como lema: “Somos membros uns dos outros” (Ef, 4-25) das comunidades de
redes sociais à comunidade humana”. O Papa Francisco refere: “Desde que se
tornou possível o homem dispor de internet a Igreja tem sempre procurado que o
seu uso sirva o encontro das pessoas e a solidariedade entre todos… gostaria de
vos convidar a refletir sobre o fundamento e a importância do nosso
ser-em-relação a descobrir, nos vastos desafios do atual panorama comunicativo,
o desejo que o homem tem de não ficar encerrado na própria solidão… abrir o
caminho ao diálogo, ao encontro, ao sorriso, ao carinho… Esta é a rede que
queremos: uma rede feita não para capturar, mas para libertar, para preservar
uma comunhão de pessoas livres… onde a união não se baseia nos “likes” mas na verdade”.
Novamente, questionei se era
feliz neste mundo moderno, com tantas solicitações e dispersão. Mas já fazem
parte da minha vida. É este o momento em que vivo, a época em que me devo
integrar. O problema está dentro de nós, nas nossas escolhas e opções de vida.
Devemos ter consciência das nossas fraquezas, dos nossos limites, das nossas
tentações e saber resistir às tentações. Nem sempre conseguimos. São Josemaria escreveu in Sulco: “ Por razões humanas quem não sabe dominar-se a si mesmo
nunca influirá positivamente nos outros, e o ambiente vencê-lo-á logo que satisfaça
os seus gostos pessoais, será um homem sem energia, incapaz de um esforço
grande quando for necessário”.
Bem, a família está a chegar para
o jantar. Tenho de me apressar. Por ironia do destino, o meu filho ao chegar, ao
ouvir a música que aqui refiro denominada Shallow,
que deu o mote para este artigo, disse-me que tinha ganho o Óscar de melhor
música original. A vida tem destas coisas! E fomos felizes neste mundo moderno,
pelo menos durante o jantar. O dia de amanhã a Deus pertence!
| Maria Helena Paes |

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