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domingo, 10 de março de 2019

Distorções

Planejamos passar o feriado em São Lourenço do Sul, animados pela previsão do tempo: sol pleno na sexta-feira e no sábado, com chuva no domingo. Como regressaríamos no início do domingo, velas ao vento e vambora. Encontramos a laguna cheia de gente, sob um sol digno de gratidão ao Criador. Naquela noite, antes de me entregar ao sono, depois de um fim de tarde promissor, fiquei a recordar uma cena que presenciara alguns dias antes.

Uma funcionária, ocupada com a limpeza, desempenhava suas tarefas na recepção da empresa e olhava de soslaio um calendário disposto sobre o balcão. Dirigiu-se então a um visitante que aguardava atendimento e indagou quantos dias havia naquele mês. A pergunta não deixava dúvidas: aquela senhora era analfabeta. De pai e mãe, como se dizia antigamente.

Trinta e um foi a resposta. Apoiou o queixo sobre as costas de uma das mãos, que por sua vez se apoiavam no cabo de vassoura e disparou: “Ah, este é o mês em que os patrões nos tomam um dia a mais de trabalho ...”. Certamente não faria este contraponto nos meses de fevereiro, parece ignorar que existem férias e esquece que existe o décimo terceiro salário ... Afinal de contas, são treze salários para onze meses trabalhados.

O analfabetismo daquela senhora é obviamente deplorável, como deplorável também foi sua manifestação a respeito dos empregadores, traindo a visão mais rudimentar de que a sociedade é dividida entre explorados e exploradores, entre coitadinhos e monstros, entre a senzala e a casa grande. Como é que chegamos nesta cizânia? Por que trilhos nosso trem social foi se aproximando da estação de uma guerra civil?

Neste tempo de profunda recessão, com desemprego de milhões e milhões, esta visão simplória tem o dom de piorar tudo. Quantos empresários, muitos deles apenas sobrevivendo, debaixo de mau tempo, decorrência óbvia da recessão, estão dispostos a contratar? Vilipendiados pelo mantra dos pregadores da cizânia e perdedores contumazes na justiça do trabalho, planejam aumentar seu quadro de colaboradores? Infelizmente, não.

A fábula do velho, do burro e do menino ganha vida em países como o Brasil, impregnado de preconceitos que ainda se alimentam da chaga da escravidão e de um passado de governos autocráticos. Damos ouvidos a palpites e acabamos no desvão das incertezas, vitimados pela dúvida. Caminhar lado a lado contou com o deboche de um grupo de jovens. O velho então montou no burro, o menino tomou as rédeas e passou a puxá-lo. Até que um grupo de mulheres denunciaram o que viram como vergonhoso. O menino e o velho trocaram de lugares até encontrarem outro grupo, que protestou contra o desrespeito das gerações mais novas. Como pode um menino deixar um velho a pé enquanto desfruta do burro? Montam os dois no burro.

Mais alguns metros e os defensores dos animais vociferaram contra um velho e um menino que estavam a desconjuntar o pobre animal. Assim parece o Brasil: velhas cantigas, cantilenas mofadas, a aposta no fracasso e refrões que atacam tudo e quase todos. Malfeitores eleitos conforme as conveniências e as circunstâncias, somos em essência um povo desunido.

Dias atrás participei na capital de um encontro de colegas de ginásio e científico. Oportunidade para rever amigos, lembrar coisas pitorescas, rir de grandes mancadas e dar a cada um a chance de aproximar-se dos que mal escutamos no passado. É notável como alguns evoluíram. Tiraram bom proveito de seus dias. Com um deles conversei sobre democracia. Penso que nos perdemos ao permitir o comando de minorias. Por óbvio as minorias devem ser respeitadas, mas se as suas ideias e mantras assumirem o controle, a democracia, o regime das maiorias, se foi.

Voltemos ao velho e ao menino. Chegaram ao absurdo de levar o burro nas costas. Qualquer semelhança com a nossa pesada máquina estatal não é mera coincidência. Coisas que brotam do desrespeito ao bom senso, este pecado grave que responde pelos nossos descaminhos.

No dia seguinte mal acreditei no clima. Céu embarafustado e vento. Mas a previsão não era de sol pleno? Tomara que reencontremos o caminho. E que as opiniões que temos de sobra e as soluções que imaginamos não tenham a mesma firmeza de nossas previsões do tempo.

J. B. Teixeira



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