Planejamos passar
o feriado em São Lourenço do Sul, animados pela previsão do tempo: sol pleno na
sexta-feira e no sábado, com chuva no domingo. Como regressaríamos no início do
domingo, velas ao vento e vambora. Encontramos a laguna cheia de gente, sob um
sol digno de gratidão ao Criador. Naquela noite, antes de me entregar ao sono,
depois de um fim de tarde promissor, fiquei a recordar uma cena que presenciara
alguns dias antes.
Uma funcionária,
ocupada com a limpeza, desempenhava suas tarefas na recepção da empresa e
olhava de soslaio um calendário disposto sobre o balcão. Dirigiu-se então a um
visitante que aguardava atendimento e indagou quantos dias havia naquele mês. A
pergunta não deixava dúvidas: aquela senhora era analfabeta. De pai e mãe, como
se dizia antigamente.
Trinta e um foi a
resposta. Apoiou o queixo sobre as costas de uma das mãos, que por sua vez se
apoiavam no cabo de vassoura e disparou: “Ah,
este é o mês em que os patrões nos tomam um dia a mais de trabalho ...”. Certamente
não faria este contraponto nos meses de fevereiro, parece ignorar que existem
férias e esquece que existe o décimo terceiro salário ... Afinal de contas, são
treze salários para onze meses trabalhados.
O analfabetismo
daquela senhora é obviamente deplorável, como deplorável também foi sua
manifestação a respeito dos empregadores, traindo a visão mais rudimentar de
que a sociedade é dividida entre explorados e exploradores, entre coitadinhos e
monstros, entre a senzala e a casa grande. Como é que chegamos nesta cizânia?
Por que trilhos nosso trem social foi se aproximando da estação de uma guerra
civil?
Neste tempo de
profunda recessão, com desemprego de milhões e milhões, esta visão simplória
tem o dom de piorar tudo. Quantos empresários, muitos deles apenas sobrevivendo,
debaixo de mau tempo, decorrência óbvia da recessão, estão dispostos a
contratar? Vilipendiados pelo mantra dos pregadores da cizânia e perdedores
contumazes na justiça do trabalho, planejam aumentar seu quadro de
colaboradores? Infelizmente, não.
A fábula do
velho, do burro e do menino ganha vida em países como o Brasil, impregnado de
preconceitos que ainda se alimentam da chaga da escravidão e de um passado de
governos autocráticos. Damos ouvidos a palpites e acabamos no desvão das
incertezas, vitimados pela dúvida. Caminhar lado a lado contou com o deboche de
um grupo de jovens. O velho então montou no burro, o menino tomou as rédeas e
passou a puxá-lo. Até que um grupo de mulheres denunciaram o que viram como
vergonhoso. O menino e o velho trocaram de lugares até encontrarem outro grupo,
que protestou contra o desrespeito das gerações mais novas. Como pode um menino
deixar um velho a pé enquanto desfruta do burro? Montam os dois no burro.
Mais alguns
metros e os defensores dos animais vociferaram contra um velho e um menino que
estavam a desconjuntar o pobre animal. Assim parece o Brasil: velhas cantigas,
cantilenas mofadas, a aposta no fracasso e refrões que atacam tudo e quase
todos. Malfeitores eleitos conforme as conveniências e as circunstâncias, somos
em essência um povo desunido.
Dias atrás
participei na capital de um encontro de colegas de ginásio e científico. Oportunidade
para rever amigos, lembrar coisas pitorescas, rir de grandes mancadas e dar a
cada um a chance de aproximar-se dos que mal escutamos no passado. É notável
como alguns evoluíram. Tiraram bom proveito de seus dias. Com um deles
conversei sobre democracia. Penso que nos perdemos ao permitir o comando de
minorias. Por óbvio as minorias devem ser respeitadas, mas se as suas ideias e
mantras assumirem o controle, a democracia, o regime das maiorias, se foi.
Voltemos ao velho
e ao menino. Chegaram ao absurdo de levar o burro nas costas. Qualquer
semelhança com a nossa pesada máquina estatal não é mera coincidência. Coisas
que brotam do desrespeito ao bom senso, este pecado grave que responde pelos
nossos descaminhos.
No dia seguinte mal
acreditei no clima. Céu embarafustado e vento. Mas a previsão não era de sol
pleno? Tomara que reencontremos o caminho. E que as opiniões que temos de sobra
e as soluções que imaginamos não tenham a mesma firmeza de nossas previsões do
tempo.
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| J. B. Teixeira |

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