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domingo, 10 de março de 2019

Da natureza

Preocupados em dar às gatas uma vida mais natural, passamos a soltá-las no terreno para que pudessem pular, brincar e aliviar-se. Antes do recreio, porém, prendíamos os cachorros numa área lateral, isolada por tela. A prática passou a trazer preocupações que não tínhamos porque a mais velha das gatas não atendia os chamados, nem mesmo o sacolejar da caixa com ração. Não raro andava à caça de lagartixas, com as quais se entretinha. Numa tarde desapareceu e imaginamos que transpusera o muro lateral, ganhando a rua. Só restava aguardar pelo retorno.

Noite cerrada, a chamei insistentemente por algumas vezes. Nada. Munido de uma lanterna, atravessei a cerca porque imaginei que talvez estivesse no canil. Alguns metros adiante o facho luminoso revelou um inesperado desfecho. Um dos cães a matara. Confesso que sofri mais do que imaginaria e só não chorei porque na minha idade o estoque de lágrimas de tristeza parece ter secado. Posso marejar os olhos facilmente por alegria ou pela emoção de ver algo grandioso, como o trabalho de voluntários entre doentes e miseráveis. Foi duro sepultar aquela gata, vitimada pela imprudente ingenuidade. Dela e nossa.

Menos de uma semana depois, ao me aproximar do canil da empresa vi que Téo, um robusto pastor alemão, estava a concluir a deglutição de uma galinha que tivera a infelicidade de cair em seu espaço. A voracidade era tanta que não restaram, além de penas, nem os pés da ave. Como recriminar estes cães se foi o insopitável instinto que os animou? Se fiz pouco caso da galinha, em compensação lastimei muito a pobre gata, cuja sagacidade havíamos superestimado.

Tais eventos me fizeram recordar a homilia de um beneditino na Igreja de Santo Américo, em São Paulo. Húngaro de nascimento, pregava sobre como evitar a derrota diante das tentações. Valeu-se da metáfora de cães ferozes, verdadeiros cérberos contidos por grades, como estas que cercam residências. Dizia que nada podem contra nós se não formos imprudentes, se não aproximarmos a mão da grade. Nem mesmo um mastim satânico, portanto, pode algo se dele nos mantivermos a uma sábia distância. Mas não é apenas na ação que podemos pecar. Também pela inação da omissão, que nos faz silenciar sobre a existência da grade.

Muito antes de Lutero a Igreja sofrera um grande cisma. Em 1054, com mútua excomunhão entre as lideranças, dividiu-se a cristandade entre o ocidente romano e o oriente ortodoxo. Foi um evento lastimável, que infelizmente segue vigente ainda hoje. Afora considerações de natureza política e econômica, havia outros pontos em conflito, como a palavra filioque, a controvérsia se o Espírito Santo provem apenas do Pai ou do Pai e do Filho. Assim, o tronco viu brotar um ramo. Hoje a árvore cristã tem dúzias e dúzias de ramos, alguns dos quais atacam o tronco, como as denominações que identificam o Papa com a besta do Apocalipse ... Nunca é demais relembrar que Diabolus significa “aquele que separa”, o caluniador.

Em tempos de mentiras eletrônicas, as fakes, é preciso acautelar-se, mas esta recomendação não é nova. Existe desde que o mundo é mundo, afinal o joio é joio porque nos confunde em meio ao trigo. Com reservas li a obra “O Cristo Histórico”, do alemão Hellmut Wolff. Confesso - com a vênia de minha indigência teológica,- que encontrei trigo em muitas páginas. Joio também, mas revisitei os tsunamis na história humana: a queda no Éden, o crime de Caim, o Dilúvio e a Torre de Babel, erros maiúsculos cometidos com a espada afiada do livre arbítrio.

A ingenuidade da gata e a infelicidade da galinha são metáfora da pregação do beneditino. Soberbo, o homem por vezes não só trisca a grade, senão a trespassa com o braço ou mesmo - valendo-se da escada que tem como degraus a concupiscência, o hedonismo e a vaidade,- pula a grade e se entrega de corpo inteiro. Por menosprezar o perigo ou julgar-se capaz da remissão a tempo. Wolff afirma que o homem precisa escolher entre sacrifício e culpa, que a consciência é o maior tesouro espiritual e que Satanás despertou no homem a insaciável curiosidade e não a elevação da consciência.

Na sua ânsia de viver moderna e confortavelmente, as palavras humildade, misericórdia e salvação não fazem parte do léxico do homem contemporâneo. Wolff exalça Kierkegaard, que “profetizou a decadência e final ocaso da humanidade seduzida e confundida pelas ciências”. Geradoras de tantas benesses, as ciências podem também instilar o veneno mortal do relativismo que, num passe de mágica, faz a grade simplesmente desaparecer.

J. B. Teixeira



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