Preocupados em
dar às gatas uma vida mais natural, passamos a soltá-las no terreno para que
pudessem pular, brincar e aliviar-se. Antes do recreio, porém, prendíamos os
cachorros numa área lateral, isolada por tela. A prática passou a trazer
preocupações que não tínhamos porque a mais velha das gatas não atendia os
chamados, nem mesmo o sacolejar da caixa com ração. Não raro andava à caça de
lagartixas, com as quais se entretinha. Numa tarde desapareceu e imaginamos que
transpusera o muro lateral, ganhando a rua. Só restava aguardar pelo retorno.
Noite cerrada, a
chamei insistentemente por algumas vezes. Nada. Munido de uma lanterna,
atravessei a cerca porque imaginei que talvez estivesse no canil. Alguns metros
adiante o facho luminoso revelou um inesperado desfecho. Um dos cães a matara.
Confesso que sofri mais do que imaginaria e só não chorei porque na minha idade
o estoque de lágrimas de tristeza parece ter secado. Posso marejar os olhos
facilmente por alegria ou pela emoção de ver algo grandioso, como o trabalho de
voluntários entre doentes e miseráveis. Foi duro sepultar aquela gata, vitimada
pela imprudente ingenuidade. Dela e nossa.
Menos de uma
semana depois, ao me aproximar do canil da empresa vi que Téo, um robusto
pastor alemão, estava a concluir a deglutição de uma galinha que tivera a
infelicidade de cair em seu espaço. A voracidade era tanta que não restaram,
além de penas, nem os pés da ave. Como recriminar estes cães se foi o
insopitável instinto que os animou? Se fiz pouco caso da galinha, em
compensação lastimei muito a pobre gata, cuja sagacidade havíamos superestimado.
Tais eventos me
fizeram recordar a homilia de um beneditino na Igreja de Santo Américo, em São
Paulo. Húngaro de nascimento, pregava sobre como evitar a derrota diante das
tentações. Valeu-se da metáfora de cães ferozes, verdadeiros cérberos contidos
por grades, como estas que cercam residências. Dizia que nada podem contra nós
se não formos imprudentes, se não aproximarmos a mão da grade. Nem mesmo um mastim
satânico, portanto, pode algo se dele nos mantivermos a uma sábia distância.
Mas não é apenas na ação que podemos pecar. Também pela inação da omissão, que
nos faz silenciar sobre a existência da grade.
Muito antes de
Lutero a Igreja sofrera um grande cisma. Em 1054, com mútua excomunhão entre as
lideranças, dividiu-se a cristandade entre o ocidente romano e o oriente
ortodoxo. Foi um evento lastimável, que infelizmente segue vigente ainda hoje.
Afora considerações de natureza política e econômica, havia outros pontos em
conflito, como a palavra filioque, a controvérsia se o Espírito Santo provem
apenas do Pai ou do Pai e do Filho. Assim, o tronco viu brotar um ramo. Hoje a
árvore cristã tem dúzias e dúzias de ramos, alguns dos quais atacam o tronco, como
as denominações que identificam o Papa com a besta do Apocalipse ... Nunca é
demais relembrar que Diabolus significa “aquele
que separa”, o caluniador.
Em tempos de
mentiras eletrônicas, as fakes, é preciso acautelar-se, mas esta recomendação
não é nova. Existe desde que o mundo é mundo, afinal o joio é joio porque nos
confunde em meio ao trigo. Com reservas li a obra “O Cristo Histórico”, do alemão Hellmut Wolff. Confesso - com a
vênia de minha indigência teológica,- que encontrei trigo em muitas páginas. Joio
também, mas revisitei os tsunamis na história humana: a queda no Éden, o crime
de Caim, o Dilúvio e a Torre de Babel, erros maiúsculos cometidos com a espada afiada
do livre arbítrio.
A ingenuidade da
gata e a infelicidade da galinha são metáfora da pregação do beneditino. Soberbo,
o homem por vezes não só trisca a grade, senão a trespassa com o braço ou mesmo
- valendo-se da escada que tem como degraus a concupiscência, o hedonismo e a
vaidade,- pula a grade e se entrega de corpo inteiro. Por menosprezar o perigo
ou julgar-se capaz da remissão a tempo. Wolff afirma que o homem precisa
escolher entre sacrifício e culpa, que a consciência é o maior tesouro espiritual
e que Satanás despertou no homem a insaciável curiosidade e não a elevação da
consciência.
Na sua ânsia de viver moderna e confortavelmente, as palavras
humildade, misericórdia e salvação não fazem parte do léxico do homem contemporâneo.
Wolff exalça Kierkegaard, que “profetizou
a decadência e final ocaso da humanidade seduzida e confundida pelas ciências”.
Geradoras de tantas benesses, as ciências podem também instilar o veneno mortal
do relativismo que, num passe de mágica, faz a grade simplesmente desaparecer.
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| J. B. Teixeira |


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