Há alguns dias senti alguma necessidade de voltar a visitar
os nossos museus, como tinha o hábito de fazer anteriormente, na companhia da
minha irmã e do meu cunhado aos domingos de manhã. Eles já tinham partido, mas
a vida continua depois do luto feito. Posto isto, depois de uma consulta rápida,
verifiquei que o Museu Nacional do Azulejo, um dos mais importantes museus de Portugal,
dispunha de uma visita guiada no domingo de manhã. Achei que seria a altura
ideal para recomeçar. Este espaço conventual oferece igualmente exposições
temporárias, concertos, teatro, workshops…Sem
mais delonga, agendei a visita para não desmotivar. Em boa hora o fiz. Vale
mesmo muito a pena. É lindíssimo, é pisar história e cultura. Enquanto
aguardava o início da visita procurei recordar o que me tinha impressionado
pela positiva há muitos anos atrás. Veio-me à memória toda a beleza e riqueza da
Igreja da Madre de Deus e o almoço no restaurante que estava excelente. Bem ia
começar a visita. Integrei-me no grupo em que era a única portuguesa. Estranhei
tendo questionado se era frequente acontecer. Como resposta fui informada de
que em média, só 15% das visitas são de portugueses. Senti-me triste. Nem ao
domingo em que a entrada é grátis de manhã. Talvez não tenham conhecimento da
magnificência deste museu inserido no Convento da Madre de Deus, em estilo
gótico manuelino, possuidor de uma bela fachada ornamentada com belos portais e
janelas estilo manuelino, antigo convento de clausura das Irmãs Clarissas,
Franciscanas Descalças da primeira Regra de Santa Clara, fundado pela rainha D.
Leonor, em 1509. A título de curiosidade, a própria rainha, depois de viúva,
fez votos e quis obedecer. Desde então o convento ficou sempre integrado nas
Casas das Rainhas. Dona Leonor, casada com o rei D. João II, com o cognome de
“Príncipe Perfeito”, foi uma das mais notáveis soberanas portuguesas de todos
os tempos, sendo pela sua vida, importância, obra e legado, de salientar a
criação das misericórdias, hospitais, fundação do convento, ajuda aos mais
necessitados, entre muitos outros, mereceu vir a ser conhecida como a “Princesa
Perfeitíssima”, inspirado no cognome do marido. Dona Leonor quis ficar
sepultada neste convento, em campa rasa, nua de pedra, num local de passagem,
para que todos a pisassem, num gesto de humildade, da princesa mais rica da
Europa, querendo assim valorizar o sinal da pequenez das coisas do mundo,
perante a eternidade. O espaço conventual, um núcleo modesto inicial, começou
por ser constituído por algumas casas e quinta compradas à viúva de Álvaro da
Cunha, situado num local aprazível, banhado pelo rio, quintas e pomares. Foi
sofrendo diferentes intervenções arquitetónicas, com uma decoração luxuosa ao longo
dos séculos, tendo possuído um excecional património em ourivesaria e obras de
arte. A igreja só mais tarde viria a ser completada. Na época, e na pequena
igreja inicial, para 7 freiras, tornava-se importante que o majestoso Convento da
Madre de Deus possuísse relíquias já que assim atestava a sua grandeza. O
imperador Maximiliano I do Sacro Império Romano-Germânico ofereceu a D. Leonor,
sua prima, as relíquias de Santa Auta. A chegada das relíquias ao Convento da
Madre de Deus em 1517, encontra-se lindamente representada num tríptico que se
encontra no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa, que antigamente pertencia
ao Convento da Madre de Deus. Na verdade, este convento encontra-se repleto de
relíquias pelo que me foi possível visualizar. De referir, segundo me
informaram, que as 7 Monjas que vieram para o Convento eram de famílias nobres
facto que contribuiu para a grandiosidade deste espaço. Cedo o convento foi
considerado exíguo. D. João III empreenderia então uma enorme obra de remodelação
com uma nova igreja mais ampla e com um coro ficando a obra a cargo do
Arquiteto Diogo de Torralva. A antiga igreja de D. Leonor foi adaptada a Sala
de Capítulo. Reza a história que a devoção a este espaço foi tão sentida que D.
João III assistia algumas vezes à missa na tribuna real, segundo Frei Jerónimo
de Belém, para melhor expressar o seu amor,” se mandou retratar e à rainha sua
mulher e em dous quadros se acharão os seus retratos no coro”. Mas nos finais
do século XVII o rei D. Pedro II, a pedido das Irmãs Clarissas, mandou-o
reparar quase todo de novo, sobretudo a nível decorativo, obra a cargo de João
Rebello da Silva, reconhecido como um génio. Data dessa época (1670/1690) as
maravilhosas pinturas do teto da igreja, do coro alto e do corpo da igreja.
Datam de 1686 os impressionantes painéis de azulejos holandeses. Para além das
pinturas e azulejos, a igreja recebeu altares indiscritíveis, de uma beleza
majestosa, em riquíssima talha dourada, bem como o impressionante douramento
nas molduras das pinturas que decoram a igreja e o coro-alto. A não perder de
todo esta preciosidade que quase nos corta a respiração e nos deixa sem
palavras perante a sua grandiosidade. Não resisto a transcrever o testemunho
feito em 1707 de Frei Agostinho de Santa Maria perante as obras barrocas
concretizadas: “ A Igreja é um Céu aberto, não só pela espiritual consolação de
todos os que nela entram, mas ainda a ornamentação, o acervo, a sua riqueza,
que está toda cozida a ouro e ornamentada com ricas e excelentes pinturas”.
Por esta altura já pensava: Meu Deus, com tanta história,
isto é querer: “Meter o Rossio na Betesga” (como refere a expressão popular),
num artigo. Bem a visita continua. Chega uma turista muito nervosa. Tinha tido
dificuldade em chegar devido ao corte de trânsito, que desconhecia. Mais calma,
continuámos o percurso. Mas falar de museus é falar de factos históricos, de
cultura, de coisas da vida, ao longo das gerações, que importa preservar, dar a
conhecer e integrar nos nossos dias de hoje. É também falar de amores e
desamores, de intriga, de paixão, de guerras, de interesses, de património, dos
descobrimentos, de sofrimento e sobretudo, do orgulho de ser português. E bem,
faz-se tarde. Agora entendo o porquê de só me recordar da visita à igreja. O
melhor é voltar para continuar a visita e fazer noutro artigo. Entretanto aguço
o apetite dos leitores destacando: O impressionante coro-alto, isto é, o estilo
barroco no seu máximo esplendor. O sublime presépio da Madre de Deus em
terracota. Os azulejos hispano-mouriscos. Os quadros de Bento Coelho da
Silveira, azulejaria rococó pombalino, século XVIII, figura de convite, entre
outros, não deixando de referir a joia da coroa, em azulejaria, o melhor painel
do século XVIII, antes desconhecido, ou seja, a Vista Panorâmica de Lisboa
antes do terramoto de 1755, precioso documento que integra desde a zona de Madre
de Deus até Belém.
Tenho uma amiga, com quase cem anos à minha espera para
almoçar. Antes disso preciso de encontrar o caminho para Belém, já que o
Terreiro do Paço, mais precisamente a Avenida Ribeira das Naus, por decisão da
Câmara Municipal de Lisboa, encontra-se fechada ao domingo, devolvendo este
espaço aos lisboetas, às suas famílias e a quem visita a cidade no sentido de
proporcionar mais espaço para o lazer. O bem de uns é o mal de outros…mas desde
que concorra para o bem, tudo se suporta em prol de um bem maior. E assim dou
por concluída a Visita ao Museu Nacional do Azulejo a não perder numa futura
oportunidade.
| Maria Helena Paes |

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