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domingo, 10 de março de 2019

Uma Visita ao Museu Nacional do Azulejo

Há alguns dias senti alguma necessidade de voltar a visitar os nossos museus, como tinha o hábito de fazer anteriormente, na companhia da minha irmã e do meu cunhado aos domingos de manhã. Eles já tinham partido, mas a vida continua depois do luto feito. Posto isto, depois de uma consulta rápida, verifiquei que o Museu Nacional do Azulejo, um dos mais importantes museus de Portugal, dispunha de uma visita guiada no domingo de manhã. Achei que seria a altura ideal para recomeçar. Este espaço conventual oferece igualmente exposições temporárias, concertos, teatro, workshops…Sem mais delonga, agendei a visita para não desmotivar. Em boa hora o fiz. Vale mesmo muito a pena. É lindíssimo, é pisar história e cultura. Enquanto aguardava o início da visita procurei recordar o que me tinha impressionado pela positiva há muitos anos atrás. Veio-me à memória toda a beleza e riqueza da Igreja da Madre de Deus e o almoço no restaurante que estava excelente. Bem ia começar a visita. Integrei-me no grupo em que era a única portuguesa. Estranhei tendo questionado se era frequente acontecer. Como resposta fui informada de que em média, só 15% das visitas são de portugueses. Senti-me triste. Nem ao domingo em que a entrada é grátis de manhã. Talvez não tenham conhecimento da magnificência deste museu inserido no Convento da Madre de Deus, em estilo gótico manuelino, possuidor de uma bela fachada ornamentada com belos portais e janelas estilo manuelino, antigo convento de clausura das Irmãs Clarissas, Franciscanas Descalças da primeira Regra de Santa Clara, fundado pela rainha D. Leonor, em 1509. A título de curiosidade, a própria rainha, depois de viúva, fez votos e quis obedecer. Desde então o convento ficou sempre integrado nas Casas das Rainhas. Dona Leonor, casada com o rei D. João II, com o cognome de “Príncipe Perfeito”, foi uma das mais notáveis soberanas portuguesas de todos os tempos, sendo pela sua vida, importância, obra e legado, de salientar a criação das misericórdias, hospitais, fundação do convento, ajuda aos mais necessitados, entre muitos outros, mereceu vir a ser conhecida como a “Princesa Perfeitíssima”, inspirado no cognome do marido. Dona Leonor quis ficar sepultada neste convento, em campa rasa, nua de pedra, num local de passagem, para que todos a pisassem, num gesto de humildade, da princesa mais rica da Europa, querendo assim valorizar o sinal da pequenez das coisas do mundo, perante a eternidade. O espaço conventual, um núcleo modesto inicial, começou por ser constituído por algumas casas e quinta compradas à viúva de Álvaro da Cunha, situado num local aprazível, banhado pelo rio, quintas e pomares. Foi sofrendo diferentes intervenções arquitetónicas, com uma decoração luxuosa ao longo dos séculos, tendo possuído um excecional património em ourivesaria e obras de arte. A igreja só mais tarde viria a ser completada. Na época, e na pequena igreja inicial, para 7 freiras, tornava-se importante que o majestoso Convento da Madre de Deus possuísse relíquias já que assim atestava a sua grandeza. O imperador Maximiliano I do Sacro Império Romano-Germânico ofereceu a D. Leonor, sua prima, as relíquias de Santa Auta. A chegada das relíquias ao Convento da Madre de Deus em 1517, encontra-se lindamente representada num tríptico que se encontra no Museu Nacional de Arte Antiga em Lisboa, que antigamente pertencia ao Convento da Madre de Deus. Na verdade, este convento encontra-se repleto de relíquias pelo que me foi possível visualizar. De referir, segundo me informaram, que as 7 Monjas que vieram para o Convento eram de famílias nobres facto que contribuiu para a grandiosidade deste espaço. Cedo o convento foi considerado exíguo. D. João III empreenderia então uma enorme obra de remodelação com uma nova igreja mais ampla e com um coro ficando a obra a cargo do Arquiteto Diogo de Torralva. A antiga igreja de D. Leonor foi adaptada a Sala de Capítulo. Reza a história que a devoção a este espaço foi tão sentida que D. João III assistia algumas vezes à missa na tribuna real, segundo Frei Jerónimo de Belém, para melhor expressar o seu amor,” se mandou retratar e à rainha sua mulher e em dous quadros se acharão os seus retratos no coro”. Mas nos finais do século XVII o rei D. Pedro II, a pedido das Irmãs Clarissas, mandou-o reparar quase todo de novo, sobretudo a nível decorativo, obra a cargo de João Rebello da Silva, reconhecido como um génio. Data dessa época (1670/1690) as maravilhosas pinturas do teto da igreja, do coro alto e do corpo da igreja. Datam de 1686 os impressionantes painéis de azulejos holandeses. Para além das pinturas e azulejos, a igreja recebeu altares indiscritíveis, de uma beleza majestosa, em riquíssima talha dourada, bem como o impressionante douramento nas molduras das pinturas que decoram a igreja e o coro-alto. A não perder de todo esta preciosidade que quase nos corta a respiração e nos deixa sem palavras perante a sua grandiosidade. Não resisto a transcrever o testemunho feito em 1707 de Frei Agostinho de Santa Maria perante as obras barrocas concretizadas: “ A Igreja é um Céu aberto, não só pela espiritual consolação de todos os que nela entram, mas ainda a ornamentação, o acervo, a sua riqueza, que está toda cozida a ouro e ornamentada com ricas e excelentes pinturas”.

Por esta altura já pensava: Meu Deus, com tanta história, isto é querer: “Meter o Rossio na Betesga” (como refere a expressão popular), num artigo. Bem a visita continua. Chega uma turista muito nervosa. Tinha tido dificuldade em chegar devido ao corte de trânsito, que desconhecia. Mais calma, continuámos o percurso. Mas falar de museus é falar de factos históricos, de cultura, de coisas da vida, ao longo das gerações, que importa preservar, dar a conhecer e integrar nos nossos dias de hoje. É também falar de amores e desamores, de intriga, de paixão, de guerras, de interesses, de património, dos descobrimentos, de sofrimento e sobretudo, do orgulho de ser português. E bem, faz-se tarde. Agora entendo o porquê de só me recordar da visita à igreja. O melhor é voltar para continuar a visita e fazer noutro artigo. Entretanto aguço o apetite dos leitores destacando: O impressionante coro-alto, isto é, o estilo barroco no seu máximo esplendor. O sublime presépio da Madre de Deus em terracota. Os azulejos hispano-mouriscos. Os quadros de Bento Coelho da Silveira, azulejaria rococó pombalino, século XVIII, figura de convite, entre outros, não deixando de referir a joia da coroa, em azulejaria, o melhor painel do século XVIII, antes desconhecido, ou seja, a Vista Panorâmica de Lisboa antes do terramoto de 1755, precioso documento que integra desde a zona de Madre de Deus até Belém.

Tenho uma amiga, com quase cem anos à minha espera para almoçar. Antes disso preciso de encontrar o caminho para Belém, já que o Terreiro do Paço, mais precisamente a Avenida Ribeira das Naus, por decisão da Câmara Municipal de Lisboa, encontra-se fechada ao domingo, devolvendo este espaço aos lisboetas, às suas famílias e a quem visita a cidade no sentido de proporcionar mais espaço para o lazer. O bem de uns é o mal de outros…mas desde que concorra para o bem, tudo se suporta em prol de um bem maior. E assim dou por concluída a Visita ao Museu Nacional do Azulejo a não perder numa futura oportunidade.

Maria Helena Paes



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