Tornou-se um clichê ouvir,
particularmente na faixa etária dos jovens profissionais, utilizar na sua
linguagem do dia-a-dia o termo inglês "deadline", que surgiu como
fruto da globalização, tanto no meio universitário como também no profissional,
para transmitir a ideia de um limite imposto para tarefas ou trabalhos, um
prazo marcado.
Esta expressão generalizou-se, de modo
que tudo na vida parece andar a toque de stressantes deadlines. E assim
trabalham e vivem muitos, numa correria, com o objetivo de se cumprirem
deadlines marcados pelos chefes ou pelos próprios, que são levados muito a
sério, e ai de quem os não cumprir…
E não estará isso de cumprir prazos
muito bem pensado? Sim, desde que bem integrado, de forma realista, na vida
familiar e pessoal, obviamente. Quem não cumpre o seu dever o melhor que pode
será provavelmente intitulado ou intitulada, conforme o caso, de irresponsável,
ou de ter pouco sentido profissional, o que poderá levar inclusive a um
despedimento do emprego. Mas outra coisa é viver espartilhado por prazos
que são impensáveis de cumprir, e também de ultrapassar…
Na família, o marido vive sujeito aos seus prazos profissionais, tanto
quanto aos do emprego da sua mulher, e vice-versa. E os prazos, e o tempo – muito
mais ricos - que dizem respeito aos filhos e à família alargada? Não merecem ainda
muito mais respeito?
Torna-se óbvio que tal situação, sem as prioridades da vida bem definidas, traz
consigo a discussão e a queda na “profissionalite”, por vezes mais notória num
dos elementos do casal. E não falemos das consequências que tal facto traz para
a distribuição das tarefas familiares, em que se torna difícil decidir qual
pode colaborar menos em casa, já que há sempre quem se considere mais
sobrecarregado/a por deadlines no emprego, e isso parece ser ‘intocável’, quase
sagrado...
A confusão começa quando nenhum quer abdicar de um estatuto próprio,
para não dizer egoísta, que lhe permita chegar a casa, sentar-se no sofá ou
fazer o menos possível. Então surgem as dificuldades na família.
Quanto aos filhos, se os há, vivem o problema dos deadlines desde que nascem,
sofrendo a consequência do stress
familiar, sem terem o tempo dos pais, a que têm direito - e mais ainda - de que
têm necessidade vital para um desenvolvimento equilibrado, como todos sabemos...
Salve-se quem puder, e já agora, faça-se jus aos avós, quando conseguem
passar a sua paz e serenidade para a geração dos netos, e desempenhar a função
de bons co-educadores.
Na verdade, os pais têm de optar entre duas alternativas:
Ou delegam noutros o que seria a sua função, abdicando do tempo que
as crianças tanto necessitam para se sentirem amadas, refugiando-se nas múltiplas
atividades extracurriculares, ou fazem a opção de usar o seu tempo nobre com os filhos, para lhes passar
valores, para os ouvir, para os ver crescer, para os conhecerem bem e educarem
melhor, preparando-os para as escolhas que vão ter de fazer pela vida fora.
Num dos casos, correm o risco de criar jovens com quem mais tarde não vão
conseguir conversar, e que não conhecem tão profundamente quanto seria
necessário para poderem dialogar, porque já não vão ser ouvidos. Como o tempo
não recua, o que se perder pelo caminho, já não se recuperará. O que não se
disse, ficará por dizer e o tempo que não se deu, ficará perdido…
Portanto, os deadlines que não prejudiquem a família, que cada deadline
seja marcado, na secretária do emprego, pelos próprios, com o chefe ou os
colegas, mas sempre com a fotografia da família à frente (mesmo que invisível e
só no coração), de forma que não se troquem as prioridades da vida. É que esse
seria mesmo um engano vital…
Estabelecer bem as prioridades de cada um de nós, neste recomeço do ano, e
exigir - a nós e aos outros - a respetiva aplicação prática em cada dia pode
ser muito complexo, mas é também muito valioso para cada vida, e para as de quem
nos rodeia, a começar pelos mais próximos.
Um bom ano! Pessoal,
familiar, de trabalho e também de descanso para todos!
M. do Rosário Sarmento |
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