Ressurge o sonho das primeiras horas de seu pontificado: "Como eu queria uma Igreja pobre para os pobres"
Roma, 09 de Fevereiro de 2015 (Zenit.org) Antonio Gaspari
Tem despertado certo estupor a inauguração dos chuveiros e
da barbearia para os desabrigados, na Praça de São Pedro. Os chuveiros
foram instalados próximo aos correios do Vaticano, à direita da colunata
de Bernini. A iniciativa foi pessoalmente solicitada pelo Papa
Francisco. Nenhum Papa jamais havia feito isso.
A este respeito, devemos lembrar o que disse Jorge Mario Bergoglio
no dia 16 de Março de 2013, poucos dias depois da sua eleição à Cátedra
de Pedro, quando ele se encontrou com cerca de 6.000 jornalistas. Depois
de ler as primeiras linhas de seu discurso previamente preparado, ele
decidiu abandoná-lo e falou espontaneamente sobre o Conclave, como ele
havia sido eleito e por que ele escolheu o nome de Francisco.
Quando sua eleição tornou-se conhecida, o cardeal brasileiro Claudio
Hummes, sentado ao lado dele disse: "Não se esqueça dos pobres". Então, o
Cardeal Bergoglio imediatamente pensou em Francisco de Assis. Depois,
ele pensou da guerra, o que foi uma confirmação: Francisco, um homem de
paz. Por isso ele escolheu este nome, e tornou-se o primeiro Papa
Francisco na longa história da Igreja.
Ainda durante essa audiência, ele indicou o programa de seu
pontificado; o Papa Francisco parou, olhou para nós intensamente e muito
sério, disse: "Desejo uma Igreja pobre e para os pobres".
Descrentes muitos colegas comentaram no dialecto romano: “ma questo
Papa c’è o ci fà?” (‘Esse Papa está fazendo tipo?’). Estavam cépticos até
mesmo alguns padres que trabalhavam na Cúria, "vamos ver daqui há
alguns meses...”. Já se passaram quase dois anos desde aquele dia, e
Papa Francisco demonstrou que o seu programa de ajuda e atenção aos
pobres e marginalizados, o seu compromisso com a paz, não se trata de
uma retórica.
No consistório de 14 de Fevereiro, o Papa Francisco conferirá o
solidéu cardinalício a 15 novos cardeais, de todos os continentes. Com
excepção da nomeação de Dom Dominique Mamberti - cujo cargo de prefeito
do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica prevê a nomeação como
cardeal - para nenhum dos outros bispos era esperado a púrpura.
O Papa nomeou cardeais de países pequenos e pobres, na periferia do
mundo, como a ilha de Tonga, na Polinésia e o arquipélago de Cabo Verde,
ao largo da costa do Senegal. Ou cardeais de países onde a Igreja
Católica tem sido discriminada e perseguida como Hanói (Vietname) e Yangon
(Myanmar). Da Itália provenientes de dioceses ‘não cardinalícias’ como
Ancona e Agrigento. Compromissos que representam uma verdadeira
revolução e que respondem ao sonho de uma Igreja pobre para os pobres.
A liberdade absoluta e a determinação com que Francisco age é
apreciado por todos, mesmo aqueles de outras religiões e nações não
católicas. Sua radicalidade e coerência evangélica fazem dele o
personagem mais apreciado e amado do mundo. No ano passado mais de seis
milhões de pessoas vieram a Roma para assistir o Angelus no domingo e
participar da Audiência Geral. Mais de um milhão de cartas chegaram ao
Vaticano. Cerca de dezassete milhões de pessoas no Twitter seguem a
conta @pontifex. Em sua última viagem a Manila, nas Filipinas, sete
milhões de pessoas participaram da celebração da missa de encerramento.
Não há nenhum encontro em que o Papa argentino não reze ou faça
rezar. Em todos os encontros públicos e privados encontra tempo para
ouvir, observar, abraçar, consolar, encorajar, os doentes, os
deficientes, os que sofrem, os marginalizados, os representantes de
outras religiões.
Entre as muitas iniciativas que promove, pela paz e desenvolvimento, é
impressionante o que ele conseguiu fazer contra as velhas e novas
formas de escravidão. Os signatários do Acordo que ele propôs são
representantes de religiões que contabilizam mais de dois mil milhões e meio
de fiéis.
Graças a Bergoglio se reuniram em Roma a Hindu Mata Amritanandamayi
(Amma), considerada um guru e um Mahatma, também conhecido como "a santa
do abraço", dois líderes budistas, dois rabinos, o Patriarca ecuménico
ortodoxo, um imã, dois Aiatolás, um xeque e o arcebispo anglicano de
Canterbury. Todos muito disponíveis a assinar e apresentar ao mundo uma
declaração que tem o objectivo de erradicar, no período de cinco anos, o
horror das novas formas de escravidão. Da prostituição ao trabalho
infantil, da exploração económica e sexual aos exércitos que usam
crianças para lutar. Assim, o Papa Francisco conseguiu montar uma
espécie de ONU das religiões para combater a barbárie e extinguir
definitivamente a escravidão.
(09 de Fevereiro de 2015) © Innovative Media Inc.
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