Pe Pedro Barrajon explica os objectivos do curso "Exorcismo e oração da libertação", que examina a presença do maligno na humanidade e as formas de expulsá-lo
Roma, 09 de Abril de 2015 (Zenit.org) Maria Gabriella Filippi
A presença do maligno na alma humana e na humanidade tem
muitos aspectos misteriosos ou obscuros. No entanto, é uma presença que
pode ser detectada e derrotada. ZENIT falou com o padre Pedro Barrajon,
director do Instituto Sacerdos, promotor do curso Exorcismo e oração de
Libertação, que será realizado no Ateneu Regina Apostolorum do 13 ao 18
de Abril.
ZENIT: Como surgiu a ideia de um curso sobre exorcismo?
Pe. Pedro Barrajón: Este ano será a décima edição do curso Exorcismo e
oração de libertação, nascido a partir da solicitação de alguns
sacerdotes que na sua pastoral tinham casos concretos de pessoas com
influências maléficas: não sabiam lidar com tudo isso, então decidimos
dar-lhes um instrumento para avaliar estes casos.
ZENIT: Como são organizadas as "aulas"?
Pe. Pedro Barrajón: Quisemos dar uma estrutura sólida ao curso,
porque, sobre esta temática, pode-se cair facilmente no sensacionalismo e
em formas que não estão apoiadas por uma sadia teologia. Portanto, a
semana é organizada dessa forma: começa-se com uma sólida base
teológica, partindo da teologia bíblica sobre anjos e demónios e sobre
como situar a acção destes seres que estão presentes na realidade
invisível. Além desta parte existe também a teologia do exorcismo, na
qual se fala como a Igreja concebe o exorcismo, que é um sacramental com
um rito específico, que obedece a normas litúrgicas.
ZENIT: Além desta parte espiritual, teológica bíblica, quais ciências entram em diálogo com tudo isso?
Pe. Pedro Barrajón: Uma delas é a psicologia, porque é necessário
discernir entre os casos de possessão e as doenças psicológicas: a
psicologia nos apresenta quais são as enfermidades ou as anomalias
psicológicas que podem se confundir com os casos de possessão, de tal
forma que se se trata de uma doença psicológica, deve-se agir dando
ajuda a nível psiquiátrico e psicológico.
ZENIT: Em casos de possessão, deve haver um apoio psicológico?
Pe. Pedro Barrajón: Sim, em muitos casos, é necessário actuar nessas
duas frentes: no plano espiritual e psicológico. Portanto, recomenda-se a
colaboração de padres, psicólogos e psiquiatras, para não se trabalhar
de forma isolada.
ZENIT: As possessões demoníacas são comuns?
Pe. Pedro Barrajón: A acção comum é a tentação, a possessão não é
comum. A tentação nos induz ao mal, todos as sofremos e, no Pai Nosso,
dizemos todos os dias “livrai-nos do Mal”, ou seja, do Maligno. A acção
normal do demónio é a tentação. Uma ação extraordinária, mas possível, é
a possessão.
ZENIT: Esses fenómenos têm aumentado nos últimos anos?
Pe. Pedro Barrajón: É difícil dizer se os casos têm aumentado nos
últimos anos, infelizmente, Destes problemas não se fala muito.
Poderíamos dizer que o fenómeno é mais reconhecido, enquanto que houve
um tempo em que tudo se explicava com causas psicológicas. É necessário
distinguir. É verdade que nós vivemos em uma sociedade muito
secularizada, na qual, mais do que antes, se abre a porta ao ocultismo,
ao esoterismo, às práticas mágicas: isso pode ter uma influência real
com posteriores casos de possessão. Os casos de possessão não aumentaram
de modo exagerado, mas, certamente, há uma tendência a se aumentar, por
causa da distância de Deus e, especialmente, por causa de práticas
mágicas e de superstições neo-pagãs, que são uma porta para a acção
diabólica.
ZENIT: Quais podem ser as causas de possessão demoníaca?
Pe. Pedro Barrajón: Às vezes, as causas não são compreensíveis. O
diabo também agiu sobre grandes santos, como no caso do Pe. Pio ou do
Cura d'Ars, que tiveram fortes lutas físicas com o diabo, mas a causa
mais comum é culturar quem não é Deus: os ídolos, os poderes mágicos,
Satanás nas seitas satânicas... Ocultismo e magia são as primeiras
causas.
A palavra-chave, no entanto, é sempre 'discernimento', saber
discernir, como diz o Papa, tentando falar com a pessoa, tentando
avaliar a sua história, as possíveis causas de tipo psiquiátrico e
psicológico: se estas forem excluídas e a pessoa se sente assediada pelo demónio, então, é bom que faça uma oração de libertação (que não é um
exorcismo), ou um exorcismo mesmo, se se vê uma certa violência no
ataque maléfico.
ZENIT: Antes de entrar em contacto com os médicos ou os
sacerdotes, como é que uma pessoa nota uma influência maligna? Quais são
as manifestações e sintomas?
Pe. Pedro Barrajón: A pessoa às vezes não percebe de imediato a causa
porque experimenta um desconforto forte, adverte que está sendo
habitada por uma pessoa que não é ela mesma. No começo não é fácil
dar-se conta, nem sequer para aqueles que a rodeiam: comportamentos que
não são normais, nem sempre se reduzem à acção maléfica, mas, vendo que o
problema persiste e não encontra uma solução nos meios normais a
disposição, às vezes se dirige a um sacerdote. O sacerdote, muitas
vezes, não sabe o que fazer, mas um sacerdote com uma certa formação
neste campo pode intuir que possa se tratar de uma influência maléfica
e, neste caso, aconselhar um exorcista. Pela prática de exorcismo, o
exorcista percebe rápido se esta pessoa está à mercê do poder do diabo,
por exemplo, se na frente dos sinais sagrados existem reações violentas,
compulsivas, não normais: a angústia diante do sagrado não é normal. A
Igreja acrescenta depois outros sinais: a pessoa pode falar línguas que
não conhece, ou até sentir-se habitada por uma outra realidade pessoal,
apesar de não ter problemas de personalidade múltipla.
ZENIT: Qual é a diferença entre o exorcismo e oração de libertação?
Pe. Pedro Barrajón: Às vezes, é bom que, antes do exorcismo, se façam
orações de libertação: são orações não exorcísticas na qual se reza
para que a pessoa seja liberta do mal e da possível influência do mal.
Se isso funciona, o exorcismo é muito mais forte, porque no sacramental
se pede pelo poder de Cristo e no nome de Cristo, enviado pelo Pai para
derrotar o Maligno, para que a pessoa seja liberta. Alguns exorcistas
aplicam directamente o exorcismo, outros preferem fazer antes as orações
de libertação. A Igreja pede cautela ao exorcista. Há sempre uma espécie
de "intuito espiritual", a graça de estado que o exorcista tem para
perceber se a pessoa tem ou não necessidade de um exorcismo.
ZENIT: Porque, por muitos anos, até mesmo dentro da própria Igreja, o diabo foi quase esquecido?
Pe. Pedro Barrajón: Criou-se, talvez, uma espécie de racionalização
da teologia: o que não se entendia e o que parecia que não fosse
científico, foi deixado de fora: os casos em que se falava no Evangelho
de exorcismos de Jesus foram transformados em doenças psicológicas.
Tentou-se reduzir os mesmos milagres a causas científicas, a tal ponto
que, quando Paulo VI, em um famoso discurso em 1972, disse: "Parece que
por alguma rachadura o demónio entrou no templo de Deus”, foi uma
notícia que girou o mundo, porque falava do diabo. Hoje o Papa Francisco
fala muitas vezes e ninguém se assusta, mas em 1972 era diferente,
porque tinha se criado uma espécie de “falta de fé” nesse aspecto, o que
correspondeu a uma pastoral que não nomeou exorcistas. Os casos de
possessão, no entanto, continuavam e as pessoas não sabiam a quem
dirigir-se. Agora voltou-se a fazer exorcismos de uma forma mais
natural, a Igreja sempre os fez.
ZENIT: Como é necessário apresentar a acção do demónio para um crente?
Pe. Pedro Barrajón: Do ponto de vista de um crente, não precisa ter
medo do demônio, porque Deus é mais forte. Deus permite que o demónio
possa agir também de forma extraordinária, tanto é que todos os dias no
Pai Nosso rezamos “livrai-nos do Mal”, ou seja, do Maligno. A Igreja
sempre acreditou na acção do Demónio, que, porém, sempre foi limitada
pela acção de Deus: o demónio não é um Deus do mal, é uma criatura
limitada: tem um certo poder, mas não tem significado com relação a
Deus.
(09 de Abril de 2015) © Innovative Media Inc.
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