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quarta-feira, 15 de abril de 2015

Festas do Espírito Santo na Ilha Terceira, Açores

As festas do Espírito Santo nos Açores possuem uma estrutura tradicional comum. No entanto, apresentam bastantes variantes entre as várias ilhas do Arquipélago e, dentro da mesma ilha, entre os vários Impérios.

O ciclo da festividade tem início na noite do último domingo dos festejos, depois da arrematação das “promessas”, cujo produto reverte a favor da festa do bodo. À porta do Império procede-se à extracção dos “pelouros” - sorteio entre os irmãos para saber a quem caberá a organização das festas do Espírito Santo do ano imediato, normalmente em cumprimento de uma promessa. Uma urna contém o nome dos irmãos e a outra a data dos sete domingos em que se há de festejar o Espírito Santo, ou seja, entre a Páscoa e o domingo de Pentecostes ou, noutros casos, o domingo da Trindade.

A quem sair o número um no pelouro, ficará responsável pelos festejos na primeira semana e torna-se o guardião da coroa do Espírito Santo durante todo o ano, até ao domingo de Pascoela. Esse ou alguém da família que esteja presente, depois da festa, vai buscar a coroa ao Império e convida os parentes e amigos a acompanhá-lo. Organiza-se então o cortejo da “mudança”, que conduz a coroa ate à casa desse irmão. Ali é construído um altar com um trono na dependência mais ampla, o “meio-da-casa” ou o quarto de entrada, onde se coloca a coroa, assente na salva e com o ceptro atravessado; ao lado dispõe-se a bandeira. No ano seguinte, assim que acaba a Páscoa, entra-se em plena época do Espírito Santo.

Durante cada semana das festividades realizam-se as “alumiações” – veneração das insígnias do Divino na casa do Imperador -, reza-se o terço à noite no Império perante a coroa e o ceptro encimados pela pomba e canta-se o “pezinho” ao imperador e àqueles que realizam ofertas ao Espírito Santo. Em alguns festejos, existem também as “cantorias”.

Na sexta-feira, os bovinos são enfeitados e realiza-se a “procissão do vitelo”. Posteriormente, sacrificam-se os animais necessários para o bodo que o Imperador oferecerá no domingo aos convidados, retalha-se a carne para a sopa, o cozido e a alcatra do jantar e para os “quintões de esmola” a distribuir pelos pobres da freguesia. No sábado faz-se a distribuição de esmolas, compostas de carne, pão e vinho, benzidas pelo padre.

No domingo de manhã realiza-se a primeira procissão, encabeçada pela bandeira do Espírito Santo.

A “folia” vai buscar o Imperador Menino, representando inocência, a sua casa, com a coroa, o ceptro e a salva, transportados ritualmente por jovens vestidas de branco até à igreja. À porta da igreja o pároco espera o cortejo e asperge a coroa, o Imperador e acompanhantes, dirigindo-se depois para o altar-mor, onde é colocada a coroa. Na cerimónia da “coroação” o padre toma o ceptro, dá-o a beijar ao Menino e entrega-lho, e depois faz o mesmo com a coroa, colocando-a sobre a sua cabeça; asperge o Imperador, incensa-o e entoa-se o “Veni Creator Espiritus”. Muitas vezes não é o Imperador que é coroado, mas o parente mais próximo ou a pessoa que ele convida para esse fim, seja adulto ou criança. Dita a oração própria, coloca-se novamente a coroa sobre a banqueta e procede-se à celebração eucarística. Após o término desta, faz-se uma nova procissão até à casa do Imperador, onde se procede à cerimónia da “descoroação”.

É também no domingo que se realiza o bodo ou a “função”, grande banquete ritual, para o qual todos são convidados, ricos e pobres, habitantes ou forasteiros. A ementa da “função” é composta pela sopa do Espírito Santo, cozido (postas de carne de vaca, galinha, repolho e outros), alcatra, pão, armazenados nos Impérios ou nas despensas, pela massa sovada ou pelas rosquilhas e vinho. Os irmãos escolhidos para realizar o bodo designam-se de Mordomos. Quando há mais de um, designa-se de procurador o principal, que é o que leva a coroa e toma conta do dinheiro, enquanto os outros fazem os peditórios e recebem as esmolas.

Terminado o jantar, procede-se à “mudança”, ou seja, o Imperador segue em cortejo até ao Império ou em direcção à residência do Imperador da próxima semana, entregando-lhe as insígnias do culto do Paráclito. O processo é repetido nas três semanas seguintes, atingindo as festas do Espírito Santo o seu apogeu no fim de semana do domingo de Pentecostes, prolongando-se em muitos lugares até ao domingo da Trindade. Em algumas localidades, as festas estendem-se pelo verão, incluindo as “festas joaninas”, podendo ainda ser realizadas em finais de Setembro ou Outubro, pouco antes do “Advento”, como acontece no Império de São Carlos.

As procissões eram tradicionalmente acompanhadas pelos foliões, encarregados de anunciar, dirigir e orientar todas as cerimónias, dançando e cantando jocosamente. Hoje, na maioria dos casos, os foliões foram substituídos pelas filarmónicas, limitando-se quase exclusivamente a acompanhar as coroações e mudanças e a dirigir a “função” em casa do Imperador. Nos festejos realizam-se ainda as famosas touradas à corda, bodos de leite, distribuição de massa sovada aos irmãos, “cantorias” improvisadas, actuações das filarmónicas e de grupos folclóricos.







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