Cardeal Louis Sako
| Cardeal Louis Sako |
Actualizado 3 de Setembro de 2013
Tony Assaf / Aleteia
Quando em 2003 os Estados Unidos guiaram a coligação de aliados contra o regime de Saddam Hussein, o actual cardeal Louis Sako, hoje líder da Igreja católica do Iraque, era pároco em Mosul. Desde então, o purpurado sempre conservou nos olhos as imagens da destruição e as lágrimas que a guerra deixa atrás de si.
Por isto, ao ler as notícias que se publicam desde há alguns dias sobre Síria, não consegue esconder o seu ressentimento àqueles que se escondem atrás da bandeira da democracia e a liberdade outros interesses de outro tipo. O patriarca caldeu está convencido, além disso, de que uma intervenção militar nesta região acenderia a mecha que faria explodir um conflito confessional ainda mais destrutivo, que acabaria por criar um novo Oriente Médio dividido em pequenos estados.
- Eminência, você disse em várias ocasiões que uma intervenção militar contra a Síria seria um desastre, a erupção de um vulcão que terá consequências enormes em toda a região, e por isso convida ao diálogo. Mas no território sírio os massacres são contínuos… As notícias recebidas cada dia falam de horrores inimagináveis contra a população: decapitações, raptos, homicídios em massa, violações. Nem sequer se salvam as crianças. Frente a esta violência, perante estes ressentimentos, crê que é possível ainda um diálogo interno na Síria? Que tipo de diálogo?
- Creio que sempre é possível um diálogo valente que procure o bem comum e que inclua todos na política. A solução deve ser política e não militar. A guerra é sempre um mal, complica a situação e não resolve nada. Creio que um país neutral ou um grupo de políticos ou chefes religiosos poderiam organizar este encontro, porque não tem interesses.
Uma intervenção militar por parte de EUA matará muitos inocentes e destruirá infra-estruturas e casas (pensam no caso do Iraque) e não se sabem as suas consequências sobre a Síria e sobre os países vizinhos. Além disso, com que direito, vendem armas à Síria e Iraque e depois as atacam?
- Mais além da sua intenção de intervir militarmente, que recrimina você ao Ocidente: o que deveriam ter feito ou o mal que estão fazendo? Que espera exactamente dos países ocidentais?
- Não entendemos a política ocidental. Não há valores! Vede a situação no Egipto, Líbia, Tunísia, Iraque, Iémen e agora Síria, não entendemos porque querem mudar um regime ditatorial a favor de outro pior! No Egipto, foi-se Mubarak e veio Morsi: que mudança! Conflitos, corrupção e mais pobreza. O mesmo na Líbia, Iémen... Onde estão a democracia e a liberdade? Que faz o Ocidente para aplicar a democracia? Só são slogans e desculpas para fazer a guerra! Dez anos depois da invasão americana no Iraque não temos democracia. Cada dia há explosões, mortos e danos. Se o Ocidente quer verdadeiramente a democracia, deve educar as pessoas para a democracia e ajudá-las a realizá-la, e não criar tensões e conflitos. O Ocidente só vê os seus próprios interesses económicos! Que moral! As reformas fazem-se do diálogo e fazem falta tempo e boa vontade, e não bombas!
- Que sucederia no caso de uma intervenção militar? E que lição deve aprender o Ocidente do que sucedeu no Iraque? O que é que faz a situação síria tão complicada?
- Por desgraça hoje nem o Ocidente aprende a lição, nem tampouco o Oriente. Que aprenderam os americanos da guerra de Iraque? Que aprenderam os regimes da região para fazer as reformas? O que faz a situação síria tão complicada é a intervenção dos governos de outros países nos assuntos internos da Síria. Os países muçulmanos, Arábia Saudita, Qatar e Turquia apoiam a oposição sunita, assim como alguns países ocidentais. Por outro lado, o Irão, Hezbollah, Rússia estão a favor do regime.
É um conflito confessional que pretende um novo Médio Oriente dividido em pequenos Estados!
- Na situação síria há pelo menos três actores: o governo de Assad, os rebeldes da Syrian Free Army e as tropas da Al Qaeda, cada uma com os seus próprios apoios internacionais, como se podem sentar à mesa da mediação se as suas reivindicações são tão distintas? E como fazer que a violência cesse sem o compromisso armado de terceiros?
- Faz falta um consenso. Quando os grandes poderes não apoiam a violência mas sim que empurram para o diálogo, as coisas mudam. Estão os exemplos de Ghandi na India e de Mandela na África do Sul. A luta de uns contra outros é pelo poder, não para trazer democracia e reformas. Assim que não lhes vendam armas!
- Todos os líderes religiosos levantam a voz contra uma intervenção militar externa. Mas que se pode fazer em concreto para acabar com o conflito sírio?
- Fazer manifestações e marchas em todos os países para parar a intervenção: Mobilizar a opinião pública mundial para procurar soluções civilizadas e pacíficas!
- O mundo ocidental não entende porque os cristãos se puseram de parte do regime, e portanto vêem-nos como cúmplices do que o regime está fazendo. Tem medo os cristianos do Médio Oriente se os rebeldes, alguns fundamentalistas, tomam o poder? Poderia de alguma forma explicar qual é a situação dos cristãos e porque são em geral favoráveis ao regime? Que mensagem queria dar ao Ocidente para compreender qual é a situação dos cristãos, e compreender como deveria actuar?
- Pobres cristãos. São uma minoria sem importância que quer viver em paz e estabilidade.
Os cristãos aprenderam que a Primavera árabe trouxe desastres e não reformas. Os fundamentalistas aproveitaram a situação para aplicar a lei muçulmana, a sharia. Para eles, um ditador é melhor que um regime religioso fechado que não aceita os demais. O Ocidente não entende o discurso religioso dominante! Os muçulmanos crêem que atrás das suas desgraças (criação de Israel) está o Ocidente e os cristãos, e portanto a solução é um estado religioso e não um laico!
- Que interesses económicos, políticos e sociais poderiam estar por detrás de uma intervenção militar ocidental?
- Uma intervenção militar empobrece a todos e traz confusão e miséria. Há que abrir os olhos em redor e ver a situação na Líbia, Tunísia, Iraque, Egipto...
Tony Assaf / Aleteia
Quando em 2003 os Estados Unidos guiaram a coligação de aliados contra o regime de Saddam Hussein, o actual cardeal Louis Sako, hoje líder da Igreja católica do Iraque, era pároco em Mosul. Desde então, o purpurado sempre conservou nos olhos as imagens da destruição e as lágrimas que a guerra deixa atrás de si.
Por isto, ao ler as notícias que se publicam desde há alguns dias sobre Síria, não consegue esconder o seu ressentimento àqueles que se escondem atrás da bandeira da democracia e a liberdade outros interesses de outro tipo. O patriarca caldeu está convencido, além disso, de que uma intervenção militar nesta região acenderia a mecha que faria explodir um conflito confessional ainda mais destrutivo, que acabaria por criar um novo Oriente Médio dividido em pequenos estados.
- Eminência, você disse em várias ocasiões que uma intervenção militar contra a Síria seria um desastre, a erupção de um vulcão que terá consequências enormes em toda a região, e por isso convida ao diálogo. Mas no território sírio os massacres são contínuos… As notícias recebidas cada dia falam de horrores inimagináveis contra a população: decapitações, raptos, homicídios em massa, violações. Nem sequer se salvam as crianças. Frente a esta violência, perante estes ressentimentos, crê que é possível ainda um diálogo interno na Síria? Que tipo de diálogo?
- Creio que sempre é possível um diálogo valente que procure o bem comum e que inclua todos na política. A solução deve ser política e não militar. A guerra é sempre um mal, complica a situação e não resolve nada. Creio que um país neutral ou um grupo de políticos ou chefes religiosos poderiam organizar este encontro, porque não tem interesses.
Uma intervenção militar por parte de EUA matará muitos inocentes e destruirá infra-estruturas e casas (pensam no caso do Iraque) e não se sabem as suas consequências sobre a Síria e sobre os países vizinhos. Além disso, com que direito, vendem armas à Síria e Iraque e depois as atacam?
- Mais além da sua intenção de intervir militarmente, que recrimina você ao Ocidente: o que deveriam ter feito ou o mal que estão fazendo? Que espera exactamente dos países ocidentais?
- Não entendemos a política ocidental. Não há valores! Vede a situação no Egipto, Líbia, Tunísia, Iraque, Iémen e agora Síria, não entendemos porque querem mudar um regime ditatorial a favor de outro pior! No Egipto, foi-se Mubarak e veio Morsi: que mudança! Conflitos, corrupção e mais pobreza. O mesmo na Líbia, Iémen... Onde estão a democracia e a liberdade? Que faz o Ocidente para aplicar a democracia? Só são slogans e desculpas para fazer a guerra! Dez anos depois da invasão americana no Iraque não temos democracia. Cada dia há explosões, mortos e danos. Se o Ocidente quer verdadeiramente a democracia, deve educar as pessoas para a democracia e ajudá-las a realizá-la, e não criar tensões e conflitos. O Ocidente só vê os seus próprios interesses económicos! Que moral! As reformas fazem-se do diálogo e fazem falta tempo e boa vontade, e não bombas!
- Que sucederia no caso de uma intervenção militar? E que lição deve aprender o Ocidente do que sucedeu no Iraque? O que é que faz a situação síria tão complicada?
- Por desgraça hoje nem o Ocidente aprende a lição, nem tampouco o Oriente. Que aprenderam os americanos da guerra de Iraque? Que aprenderam os regimes da região para fazer as reformas? O que faz a situação síria tão complicada é a intervenção dos governos de outros países nos assuntos internos da Síria. Os países muçulmanos, Arábia Saudita, Qatar e Turquia apoiam a oposição sunita, assim como alguns países ocidentais. Por outro lado, o Irão, Hezbollah, Rússia estão a favor do regime.
É um conflito confessional que pretende um novo Médio Oriente dividido em pequenos Estados!
- Na situação síria há pelo menos três actores: o governo de Assad, os rebeldes da Syrian Free Army e as tropas da Al Qaeda, cada uma com os seus próprios apoios internacionais, como se podem sentar à mesa da mediação se as suas reivindicações são tão distintas? E como fazer que a violência cesse sem o compromisso armado de terceiros?
- Faz falta um consenso. Quando os grandes poderes não apoiam a violência mas sim que empurram para o diálogo, as coisas mudam. Estão os exemplos de Ghandi na India e de Mandela na África do Sul. A luta de uns contra outros é pelo poder, não para trazer democracia e reformas. Assim que não lhes vendam armas!
- Todos os líderes religiosos levantam a voz contra uma intervenção militar externa. Mas que se pode fazer em concreto para acabar com o conflito sírio?
- Fazer manifestações e marchas em todos os países para parar a intervenção: Mobilizar a opinião pública mundial para procurar soluções civilizadas e pacíficas!
- O mundo ocidental não entende porque os cristãos se puseram de parte do regime, e portanto vêem-nos como cúmplices do que o regime está fazendo. Tem medo os cristianos do Médio Oriente se os rebeldes, alguns fundamentalistas, tomam o poder? Poderia de alguma forma explicar qual é a situação dos cristãos e porque são em geral favoráveis ao regime? Que mensagem queria dar ao Ocidente para compreender qual é a situação dos cristãos, e compreender como deveria actuar?
- Pobres cristãos. São uma minoria sem importância que quer viver em paz e estabilidade.
Os cristãos aprenderam que a Primavera árabe trouxe desastres e não reformas. Os fundamentalistas aproveitaram a situação para aplicar a lei muçulmana, a sharia. Para eles, um ditador é melhor que um regime religioso fechado que não aceita os demais. O Ocidente não entende o discurso religioso dominante! Os muçulmanos crêem que atrás das suas desgraças (criação de Israel) está o Ocidente e os cristãos, e portanto a solução é um estado religioso e não um laico!
- Que interesses económicos, políticos e sociais poderiam estar por detrás de uma intervenção militar ocidental?
- Uma intervenção militar empobrece a todos e traz confusão e miséria. Há que abrir os olhos em redor e ver a situação na Líbia, Tunísia, Iraque, Egipto...
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