Tradução completa oferecida pela Radio Vaticano
Roma, 13 de Setembro de 2013
Publicamos a seguir a íntegra da carta que o Papa Francisco
enviou a Eugenio Scalfari, fundador e ex-director do jornal italiano "La
Repubblica". A missiva foi publicada nesta quarta-feira (11).
***
Ilustríssimo Doutor Scalfari, é com viva cordialidade que, embora
somente em grandes linhas, gostaria de tentar com esta minha, responder à
carta que, das páginas do ‘La Repubblica’, o senhor quis me endereçar
em 7 de Julho com uma série de reflexões pessoais suas, que depois as
enriqueceu nas páginas do mesmo jornal, no dia 7 de Agosto.
Agradeço-lhe, antes de tudo, pela atenção com que quis ler a
Encíclica Lumen fidei. Ela, de fato, na intenção do meu amado
predecessor, Bento XVI, que a concebeu e em grande medida a redigiu, e
do qual, com gratidão, eu a herdei, é dirigida não somente para
confirmar na fé em Jesus Cristo aqueles que nela já se reconhecem, mas
também para suscitar um diálogo sincero e rigoroso com aqueles que, como
o senhor, se definem como "um não crente há muitos anos interessado e
fascinado pela pregação de Jesus de Nazaré".
Parece-me, portanto, ser positivo não só para nós, individualmente,
mas também para a sociedade em que vivemos determo-nos para dialogar
sobre uma realidade tão importante como a fé, que diz respeito à
pregação e à figura de Jesus. Penso, particularmente, que existam duas
circunstâncias que tornam hoje necessário e precioso esse diálogo.
Isso, aliás, constitui, como se sabe, um dos objectivos principais do
Concílio Vaticano II, desejado por João XXIII, e do ministério dos Papas
que, cada um com a sua sensibilidade e o seu aporte, desde então até
hoje caminharam no sulco traçado pelo Concílio. A primeira circunstância
– como referida nas páginas iniciais da Encíclica – deriva do fato que,
ao longo dos séculos da modernidade, assistiu-se a um paradoxo: a fé
cristã, cuja novidade e incidência sobre a vida do homem, desde o
início, foi expressa precisamente através do símbolo da luz, foi muitas
vezes rotulada como a escuridão da superstição que se opõe à luz da
razão. Assim, entre a Igreja e a cultura de inspiração cristã, por um
lado, e a cultura moderna com marca iluminista, de outro, chegou-se à
incomunicabilidade. Chegou agora o tempo, e o Vaticano II inaugurou a
este propósito a estação, de um diálogo aberto e sem preconceitos que
reabra as portas para um sério e fecundo encontro.
A segunda circunstância, para quem procura ser fiel ao dom de seguir
Jesus na luz da fé, deriva do fato de que esse diálogo não é um
acessório secundário da existência do crente: é, ao invés disto, uma
expressão íntima e indispensável dela. Permita-me de citar ao senhor, a
propósito, uma afirmação a meu ver muito importante da Encíclica: como a
verdade testemunhada pela fé é a do amor – sublinha-se – "resulta claro
que a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o
outro. O crente não é arrogante; ao contrário, a verdade o torna
humilde, sabendo que, mais do que nós a possuirmos, é ela que nos abraça
e nos possui. Longe de enrijecer-nos, a segurança da fé nos coloca a
caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos" (n. 34). É
este o espírito que anima as palavras que eu lhe escrevo.
A fé, para mim, nasceu do encontro com Jesus. Um encontro pessoal,
que tocou o meu coração e deu uma direcção e um sentido novo à minha
existência. Mas ao mesmo tempo um encontro que foi possível graças à
comunidade de fé em que eu vivia e graças aos quais eu encontrei o
acesso à inteligência da Sagrada Escritura, à vida nova que, como água
que jorra, brota de Jesus através dos Sacramentos, à fraternidade com
todos e ao serviço dos pobres, imagem verdadeira do Senhor. Sem a Igreja
– acredite-me –, eu não teria podido encontrar Jesus, consciente de que
aquele imenso dom que é a fé é custodiado nos frágeis vasos de barro da
nossa humanidade.
Ora, é precisamente a partir daí, desta experiência pessoal de fé
vivida na Igreja, que eu me sinto à vontade para ouvir as suas perguntas
e para buscar, junto com o senhor, os caminhos ao longo dos quais
possamos, talvez, começar a percorre um trecho de caminho juntos.
Perdoe-me se eu não sigo passo a passo as argumentações propostas
pelo senhor no editorial do dia 7 de Julho. Parece-me mais frutuoso –
ou, ao menos, é mais natural para mim – ir de certo modo ao coração das
suas considerações. Não entro nem mesmo na modalidade expositiva seguida
pela Encíclica, em que o senhor entrevê a falta de uma secção dedicada
especificamente à experiência histórica de Jesus de Nazaré.
Observo apenas, para começar, que uma análise desse tipo não é
secundária. Trata-se, de fato, seguindo a lógica que guia o
desdobramento da Encíclica, de fixar a atenção sobre o significado do
que Jesus disse e fez, e, assim, em última instância, sobre o que Jesus
foi e é para nós. As Cartas de Paulo e o Evangelho de João, aos quais é
feita referência particular na Encíclica, são construídos, de fato,
sobre o sólido fundamento do ministério messiânico de Jesus de Nazaré,
atingindo seu auge resolutivo na Páscoa de morte e ressurreição.
Portanto, é preciso se confrontar com Jesus, eu diria, na concretude e
na rudeza da sua história, assim como nos é narrado sobretudo pelo mais
antigo dos Evangelho, o de Marcos. Constata-se então que o "escândalo"
que a palavra e a práxis de Jesus provocam em torno dele deriva da sua
extraordinária "autoridade": uma palavra, esta, atestada desde o
Evangelho de Marcos, mas que não é fácil fazer entender bem em italiano.
A palavra grega é "exousia", que na carta remete ao que "provém do ser"
que se é. Não se trata de algo exterior ou forçado, mas de algo que
emana de dentro e que se impõe por si só. Jesus, com efeito,
impressiona, surpreende, inova a partir – ele mesmo o diz – da sua
relação com Deus, chamado familiarmente de Abbá, que lhe confere essa
"autoridade" para que ele a use em favor dos homens.
Assim, Jesus prega "como alguém que tem autoridade", cura, chama os
discípulos a segui-lo, perdoa...coisas todas que, no Antigo Testamento,
são de Deus e somente de Deus. A pergunta que mais vezes retorna no
Evangelho de Marcos: "Quem é este que...?", e que diz respeito à
identidade de Jesus, nasce da constatação de uma autoridade diferente
daquela do mundo, uma autoridade que não tem como fim exercer um poder
sobre os outros, mas servi-los, dar-lhes liberdade e plenitude de vida. E
isso até o ponto de colocar em perigo a sua própria vida, até
experimentar a incompreensão, a traição, a rejeição, até ser condenado à
morte, até desabar no estado de abandono sobre a cruz. Mas Jesus
permanece fiel a Deus, até o fim.
E é precisamente então – como exclama o centurião romano aos pés da
cruz, no Evangelho de Marcos – que Jesus se mostra, paradoxalmente, como
o Filho de Deus! Filho de um Deus que é amor e que quer, com todo o seu
ser, que o ser humano, cada ser humano, se descubra e viva também ele
como seu verdadeiro filho. Isso, para a fé cristã, é certificado pelo
fato de que Jesus ressuscitou: não para triunfar sobre quem o rejeitou,
mas para atestar que o amor de Deus é mais forte do que a morte, o
perdão de Deus é mais forte do que todo o pecado, e que vale a pena
gastar a própria vida, até o fim, para testemunhar esse imenso dom.
A fé cristã acredita nisto: que Jesus é o Filho de Deus, vindo para
dar a sua vida para abrir a todos o caminho do amor. Por isso, o senhor
tem razão, ilustre Dr. Scalfari, quando vê na encarnação do Filho de
Deus o eixo da fé cristã. Tertuliano já escrevia: "Caro cardo salutis", a
carne (de Cristo) é o eixo da salvação. Porque a encarnação, isto é, o
fato de que o Filho de Deus veio na nossa carne e compartilhou alegrias e
dores, vitórias e derrotas da nossa existência, até o grito da cruz,
vivendo todas as coisas no amor e na fidelidade ao Abbá, testemunha o
incrível amor que Deus tem por cada ser humano, o valor inestimável que
lhe reconhece. Cada um de nós, por isso, é chamado a fazer seu o olhar e
a escolha de amor de Jesus, a entrar no seu modo de ser, de pensar e de
agir. Essa é a fé, com todas as expressões que são descritas
pontualmente na Encíclica.
Sempre no editorial do dia 7 de Julho, o senhor me pergunta, além
disso, como entender a originalidade da fé cristã, uma vez que ela se
articula justamente na encarnação do Filho de Deus, em relação às outras
fés que gravitam, ao invés disto, em torno da transcendência absoluta
de Deus.
A originalidade, eu diria, está justamente no fato de que a fé nos
faz participar, em Jesus, à relação que Ele tem com Deus que é Abbá e,
nessa luz, à relação que Ele tem com todos os outros seres humanos,
incluindo os inimigos, no sinal do amor. Em outros termos, a filiação de
Jesus, como ela nos é apresentada pela fé cristã, não é revelada para
marcar uma separação intransponível entre Jesus e todos os outros: mas
para nos dizer que, n'Ele, todos somos chamados a ser filhos do único
Pai e irmãos entre nós. A singularidade de Jesus é pela comunicação, não
pela exclusão.
Certamente, segue-se também disso – e não é uma coisa pequena –
aquela distinção entre a esfera religiosa e a esfera política que é
sancionada no "dar a Deus o que é de Deus e a César o que é de César",
afirmada com clareza por Jesus e sobre a qual, laboriosamente, se
construiu a história do Ocidente. A Igreja, de fato, é chamada a semear o
fermento e o sal do Evangelho, isto é, o amor e a misericórdia de Deus
que alcançam todos os seres humanos, apontando para a meta ultraterrena e
definitiva do nosso destino, enquanto à sociedade civil e política cabe
a tarefa árdua de articular e encarnar na justiça e na solidariedade,
no direito e na paz, uma vida cada vez mais humana. Para quem vive a fé
cristã, isso não significa fuga do mundo ou busca de qualquer hegemonia,
mas sim serviço ao ser humano, a todo o ser humano e a todos os seres
humanos, a partir das periferias da história e mantendo desperto o senso
da esperança que impulsiona a fazer o bem apesar de tudo e olhando
sempre além.
O senhor me pergunta também, na conclusão do seu primeiro artigo, o
que dizer aos irmãos judeus acerca da promessa feita a eles por Deus:
ela foi totalmente esvaziada? Esta é – acredite-me – uma interrogação
que nos interpela radicalmente, como cristãos, porque, com a ajuda de
Deus, sobretudo a partir do Concílio Vaticano II, redescobrimos que o
povo judeu ainda é, para nós, a raiz santa a partir da qual germinou
Jesus. Eu também, na amizade que cultivei ao longo de todos esses anos
com os irmãos judeus na Argentina, muitas vezes na oração interroguei a
Deus, de modo particular quando a mente ia ao encontro das recordações
da terrível experiência do Holocausto. Aquilo que eu posso lhe dizer,
com o apóstolo Paulo, é que nunca falhou a fidelidade de Deus à aliança
feita com Israel e que, através das terríveis provações desses séculos,
os judeus conservaram a sua fé em Deus. E por isso, a eles, nós nunca
seremos suficientemente gratos, como Igreja, mas também como humanidade.
Eles, além disso, justamente perseverando na fé no Deus da aliança,
lembram a todos, também a nós, cristãos, o fato de que estamos sempre à
espera, como peregrinos, do retorno do Senhor e que, portanto, sempre
devemos estar abertos a Ele e nunca nos encastelarmos naquilo que já
alcançamos.
Chego, assim, às três perguntas que o senhor me faz no artigo do dia 7
de Agosto. Parece-me que, nas duas primeiras, o que está no seu coração
é entender a atitude da Igreja para com aqueles que não compartilham a
fé em Jesus. Acima de tudo, o senhor me pergunta se o Deus dos cristãos
perdoa quem não crê e não busca a fé. Posto que – e é a coisa
fundamental – a misericórdia de Deus não tem limites se nos dirigimos a
Ele com coração sincero e contrito, a questão para quem não crê em Deus
está em obedecer à própria consciência. O pecado, mesmo para quem não
tem fé, existe quando se vai contra a consciência. Ouvir e obedecer a
ela significa, de fato, decidir-se diante do que é percebido como bom ou
como mau. E nessa decisão está em jogo a bondade ou a maldade do nosso
agir.
Em segundo lugar, o senhor me pergunta se o pensamento segundo o qual
não existe nenhum absoluto e, portanto, nem mesmo uma verdade absoluta,
mas apenas uma série de verdades relativas e subjectivas, é um erro ou
um pecado. Para começar, eu não falaria, nem mesmo para quem crê, em
verdade "absoluta", no sentido de que absoluto é aquilo que é
desamarrado, aquilo que é privado de qualquer relação. Ora, a verdade,
segundo a fé crença, é o amor de Deus por nós em Jesus Cristo. Portanto,
a verdade é uma relação! Tanto é verdade que cada um de nós a capta, a
verdade, e a expressa a partir de si mesmo: da sua história e cultura,
da situação em que vive etc. Isso não significa que a verdade é variável
e subjectiva, longe disso. Mas significa que ela se dá a nós sempre e
somente como um caminho e uma vida. Talvez não foi o próprio Jesus que
disse: "Eu sou o caminho, a verdade e a vida"? Em outras palavras, a
verdade, sendo definitivamente uma só com o amor, exige a humildade e a
abertura a ser buscada, acolhida e expressada. Portanto, é preciso
entendermo-nos bem sobre os termos, e, talvez, para sair dos impasses de
uma contraposição... absoluta, refazer profundamente a questão. Penso
que isso seja absolutamente necessário hoje para entabular aquele
diálogo sereno e construtivo que eu esperava no início deste meu dizer.
Na última pergunta, o senhor me questiona se, com o desaparecimento do ser humano sobre a terra, também desaparecerá o pensamento capaz de pensar Deus. Certamente, a grandeza do ser humano está em poder pensar Deus. Isto é, em poder viver uma relação consciente e responsável com Ele. Mas a relação entre duas realidades. Deus – este é o meu pensamento e esta é a minha experiência, mas quantos, ontem e hoje, os compartilham! – não é uma ideia, embora altíssima, fruto do pensamento do ser humano. Deus é Realidade, com "R" maiúsculo. Jesus no-lo revela – e vive a relação com Ele – como um Pai de bondade e misericórdia infinitas. Deus não depende, portanto, do nosso pensamento. Além disso, mesmo quando viesse a acabar a vida do ser humano sobre a terra – e para a fé cristã, em todo caso, este mundo como nós o conhecemos está destinado a desaparecer –, o ser humano não deixará de existir e, de um modo que não sabemos, assim também o universo criado com ele. A Escritura fala de "novos céus e nova terra" e afirma que, no fim, no onde e no quando que está além de nós, mas para o qual, na fé, tendemos com desejo e expectativa, Deus será "tudo em todos".
Ilustre Dr. Scalfari, concluo assim estas minhas reflexões,
suscitadas por aquilo que o senhor quis me comunicar e me perguntar.
Acolha-as como a resposta tentativa e provisória, mas sincera e
confiante, ao convite que nelas entrevi de fazer um trecho de estrada
juntos. A Igreja, acredite-me, apesar de todas as lentidões, as
infidelidades, os erros e os pecados que pode ter cometido e ainda pode
cometer naqueles que a compõem, não tem outro sentido e fim senão o de
viver e testemunhar Jesus: Ele que foi enviado pelo Abbá "para levar aos
pobres o alegre anúncio, para proclamar aos presos a libertação e aos
cegos a recuperação da vista, para libertar os oprimidos, para proclamar
o ano de graça do Senhor" (Lc 4, 18-9).
Com proximidade fraterna,
Francisco
in
Sem comentários:
Enviar um comentário