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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

A droga e o satanismo marcaram-no de jovem, mas hoje é missionário nas ruas da Guatemala

Hanns Myhulots, drogado, atirou-se de um terceiro piso
Hanns abraça uns jovens – a sua experiência convence-o de
que sentir amor e participação protege das drogas e das quadrilhas
Actualizado 10 de Setembro de 2013

Portaluz.org

O abandono e a solidão escureceram a sua infância. A sua família tinha tudo o que o mundo valoriza. Dinheiro, propriedades, luxos, mas o francês Hanns Myhulots não era feliz.

Cresceu com a angústia de ser incapaz para expressar os seus sentimentos frente aos seus pais. “Eram excessivamente trabalhadores e eu passava só em minha casa”.

Hanns recorda parte da sua história, enquanto caminha pelas ruas da Guatemala. Cada passo que dá é um milagre. As suas próteses metálicas na cintura e nas pernas ajudam-no a permanecer em pé. Mas tem um sentido… trabalhar pelos mais abandonados da sociedade.

Na rua, com a sida e as quadrilhas
Sou um missionário católico, fundador de Um mais para Jesus (www.unomasparajesus.org). Trabalhamos na Guatemala, El Salvador, Costa Rica, Honduras e Nicarágua com meninos da rua, quadrilheiros, prostitutas e meninos infectados com VIH/SIDA”.

Sem rodeios assegura que “encher os vazios com sexo ou drogas somente traz a destruição, a cadeia ou a morte”. 


Carência afectiva... E maus amigos
Desde os 9 anos, a droga nublou todos os seus desejos arrastando-o até o mais sinistro. “Tenho 98% de culpa por consumir drogas e os meus pais só 2% de responsabilidade. Não os culpo, mas cada vez que queria falar com a minha mãe, por exemplo, ela não podia e dava-me dinheiro”.

Esta carência afectiva motivou que procurasse sentir-se querido. “Na escola, encontrei um grupo de amigos, eram os piores vestidos e os mais abusadores, mas estavam comigo. Não me importava se faziam coisas más, eu queria ser como eles. Sentia-me bem ali, era parte do grupo, como a sua mascote. De facto, puseram-me uma coleira de cão; mas, fora de mim, não me importou, estava com eles”.

Junto a estes novos amigos explorou a droga e com só dez anos de idade já consumia duas gramas de cocaína por semana. “Se querias ser parte do grupo, tinha que segui-los, e eles tinham a cocaína. Aos 18, cheguei a consumir 20 gramas de cocaína por dia. Creio que jamais procurei as drogas. Estava faminto de alegria, carinho e necessitava sentir que pertencia a um grupo. Ninguém neste mundo disse «dá-me droga, quero provar», todos procuramos encher com qualquer coisa os vazios de amor”.

Roubando para drogar-se
Chegou ao cúmulo de roubar as plantas e o desinfectante sanitário da sua casa para satisfazer o seu vício, e quando já a tinha roubado, “não teve piedade e roubava casas de familiares. Depois disso, saí à rua a delinquir. Prenderam-me mais de trinta vezes por consumo de drogas e roubo. Assim, terminei destruindo a minha vida e mutilando a minha própria família”.

Dentro do grupo no qual participava, em pouco tempo aspirou a ser membro activo do bando. “Propuseram-me e aceitei submeter-me a uma iniciação. Corri mais de 100 metros, como me indicaram, enquanto nos últimos metros, desde um extremo ao outro do percurso, os integrantes esperavam-me com tacos e correntes. Deram-me a tareia do século e fui parar ao hospital com quatro costelas partidas. Mas sentia-me muito macho, pois tinha conseguido chegar à meta, sem chorar”.

Hanns nunca suspeitou que a sua irracional façanha era parte de um rito com uma conotação satânica… O grupo tinha todos os ingredientes de uma perigosa seita. “Quando saí do hospital disseram-me que já era membro do bando e fizeram-me uma tatuagem. Fui marcado tal como fazem com as vacas, com um ferro quente. Com o tempo dei-me conta que era uma seita satânica, Deus sabe porque não me dei conta nesse momento”.

Dando tombos o iniciado continuava consumindo cocaína, marijuana, heroína ou haxixe, num ciclo imparável.

Invocação de espíritos

Um dos ritos da seita que se lhe gravou na memória foi a invocação de espíritos. “Hoje sei que o diabo te faz cair num buraco, e para que caias mais rápido te enche de grassa para que tu resvales. Então estava ignorante, apanhado. Continuava afundando-me. Não me importei gastar milhares de dólares para conseguir droga, nem jogar infinidade de vezes à ouija, sacrificar virgens para Satanás, ou ter sexo com homens e mulheres dentro de um ritual satânico. Não me importavam todas as porcarias, porque finalmente nada disso me enchia”.

Drogado, atirou-se de um terceiro piso
O vício tocou fundo durante uma festa. Havia uma festa de drogas à sua disposição e produto da sua alucinação, sentiu que tinha asas. “Subi à varanda do terceiro piso do edifício no qual estava e lancei-me. Caí parado, as minhas pernas saltaram e a minha coluna ficou como um acordeão. Hoje tenho umas placas de ferro que dão um suporte parecido aos meus ossos. Estive dois meses em coma. Quando despertei, disse à minha mãe se podia coçar-me os dedos dos meus pés, e ela, pesarosa respondeu-me que eu já não tinha dedos”.

Um missionário disse-lhe...
Um missionário italiano, de nome Giusseppe Laurentti, que visitava hospitais para falar com viciados encontrou Hanns. “Ali, sem pernas. Ele disse-me: «Jesus te ama». Isso impactou a minha vida! Sendo perdoado, comecei um novo caminho. Consumi drogas, vivi na rua e tentei suicidar-me onze vezes; lancei-me de um edifício, passei dois meses em coma, e não estou morto, nem no inferno. Estou aqui, sou missionário católico e padre".

"Todos os dias luto contra as drogas; mas agora não combato só, Deus está comigo", acrescenta. "Não tens que ir ao inferno para dar-te conta que há um Deus que nos ama. Não olhava as minhas pegadas, porque o que estava carregando-me era Ele. Depois de muito tempo, dei-me conta que afinal, sempre pertenci a um grupo maior, o dos filhos de Deus”.


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