Lágrimas, calor e presença de Deus
Actualizado 6 de Março de 2013
P. J. Ginés/ReL
Não ficam muitos zoroastrianos, seguidores da religião do antiquíssimo profeta persa Zoroastro (também chamado Zaratustra). São talvez dois milhões e meio de pessoas, que vivem sobretudo no Irão (pequena minoria entre muçulmanos) e na Índia (diminuta minoria entre hindus). Na Índia usam também o nome de "parsis" (de onde vem "Pérsia"). Há além disso comunidades emigradas no Ocidente.
Cada dia visitava o Templo do Fogo
A uma família parsi da Índia pertencia Khurshid Jilla. "A minha mãe vinha de uma família de sumo-sacerdotes e eu desde a infância fui pessoa de oração", recorda esta mulher. "Visitava o Templo do Fogo todos os dias antes de ir à universidade e também durante a minha vida laboral".
Khurshid assinala os três princípios básicos do zoroastrismo: "Bons pensamentos, boas palavras e boas acções".
Trata-se de uma religião ética: não há predestinação, os homens são livres para actuar, e devem lutar escolhendo o bem e evitando o mal. Deus, o Deus do bem e a luz, é Ahura Mazda, e Zaratustra é o profeta humano que simplificou e perfilou a religião que lhe serve. Assim, ele ensinou que o fogo, a chama inextinguível que se mantém nos templos, não era um deus, mas sim um símbolo de Deus.
O profeta e o Avesta, o livro sagrado
Não se sabe quando viveu Zoroastro: em algum momento entre 900 e 500 antes de Cristo. É possível que ele compusesse alguns dos mais antigos "gatha", os cânticos mais primitivos do "Avesta", o livro sagrado zoroastriano. O resto do livro é muito posterior: crê-se que se recompilou ou compôs no século IV dC, e a cópia mais antiga que se conserva é do século XIII d.C.
"Eu acreditava em Deus, rezava regularmente e visitava o templo a maioria dos dias, e também queria ajudar aos pobres e necessitados", recorda Khurshid. Mas ela tinha a sensação de que "estas normas não eram bastante. Queria saber mais de Deus. Fazia perguntas sobre os rituais. Mas os anos passavam e senti que as respostas não respondiam aos mistérios que me inquietavam. Fazia-me perguntas sobre a morte. Aos 7 anos tive um sonho! Vi a outra vida, um lugar cheio de luz com um trono, que me impressionou profundamente. E sempre procurei respostas para este sonho deleitoso".
Só, sem trabalho, emigrante
Mas a vida foi complicada para a jovem Khurshid: a sua família rompeu-se, os seus pais morreram rápido, e ela encontrou-se com 34 anos de idade, só e sem trabalho como emigrante na Austrália. "Era um momento duro. Costumava sentar-me a fumar e olhar o céu fazendo-me perguntas: Porque nasci? Onde estás, Deus? Porque estou nesta situação? Estás vivo, podes ouvir-me? Podia estar horas assim".
Um dia de Julho de 2002, saiu a passear até Malabar Beach, em Sydney, e passou junto à paróquia católica de Saint Andrew. "De alguma forma, senti que tinha que entrar", recorda. "Não sei como explica-lo, mas senti que a igreja me chamava a entrar. Era um dia laboral ao anoitecer, e pensei que estaria encerrada. Mas para meu assombro estava aberta. Entrei e senti de verdade algo tão real! Era uma presença. A presença de Deus. Mas não pude entendê-lo, e pensei que tudo era muito estranho, assim que depois de estar um pouco, fugi".
Calor e lágrimas
"No dia seguinte voltei à mesma hora e de novo estava aberta a igreja. Obscura e fria. Mas senti um calor súbito, como se alguém me abraçava. E encontrei-me chorando. Não podia deixar de chorar e continuamente perguntava-me: porque choro?"
A partir dessa experiência, Khurshid começou a ir a essa paróquia e a assistir à missa. "Não entendia nada dos rituais católicos, e nenhum católico me os explicava. Comecei a visitar outras igrejas cristãs e encontros de oração. Vi que outros cristãos sentiam paixão pela sua fé em Jesus Cristo e que sabiam mais sobre a Bíblia. A minha sede por conhecer a Deus incrementava-se sem cessar e descobri que as perguntas que fazia a Deus estavam respondidas na Bíblia".
Cristo e a cura
Deu a boas-vindas a Cristo como um companheiro, e uma forma de aceder à sabedoria de Deus. "Cristo caminhava comigo, dirigia-me, falava-me de formas misteriosas, desdobrava mistérios ante mim. Comecei a centrar a minha mente Nele. O meu coração endurecido e desanimado começou a ter esperança. Encontrei consolo em Jesus. Comecei a experimentar cura de mente, corpo e espírito. Encontrei um trabalho, deixei de fumar. Podia já pagar as minhas dívidas e entendi que poderia gerir melhor a minha vida caminhando com Jesus".
Passaram 4 anos de exploração da fé cristã e a relação com Cristo. Em Junho de 2006 Khurshid rezava o Rosário e outras orações católicas. E sentiu o impulso de Deus a converter-se, a baptizar-se. O sentiu várias vezes, mas ela se negava.
Lealdade à fé dos ancestrais
"Tinha um sentimento de dever lealdade ao zoroastrismo. Não era só um tema de hábito ou cultura, era mais profundo. Se espera que se viveste nesta fé, morrerás nela. Era difícil renunciar à fé tradicional dos meus ancestrais. Interessava-me o cristianismo, que era uma forma de viver, e gostava de caminhar com Jesus, sentir o Deus vivo. Encantavam-me as orações, e havia tido experiências extraordinárias desde que conheci Jesus pessoalmente. Mas deixar ir o passado era uma luta. Pensei que podia continuar indo a vários grupos cristãos sem enfrentar o passo último da conversão".
Mas uma vez mais, Deus a guiou com sonhos.
"Sonhei com uma luz enorme, e ouvia que alguém me conduzia pela selva. Uma voz me disse: porque és tão teimosa? Porque não te baptizas? E respondi no sonho: ´sou zoroastriana´. Senti então que a voz era de Jesus e vi uma cascata enorme à distância. Ao aproximar-me da cascata, vi grandes gotas de luz branca que caíam ao meu redor, e a Jesus mesmo baptizando-me".
E nesse momento despertou. "Menos mal, só era um sonho", pensou. Mas essas imagens repetiam-se nesses pensamentos. E rezou: "Senhor, porque queres que me baptize?" E sentiu uma resposta que veio a ela: "Porque quero que faças o meu trabalho". E encontrou-se respondendo: "bom, quero fazer o teu trabalho".
A Eucaristia, a Virgem e a Cruz
Em Dezembro de 2006, ainda sem baptizar, fechou os olhos para rezar e à sua mente acudiram imagens da Crucificação e da Virgem ao pé da Cruz. Ela sentiu que Cristo e a Virgem queriam dizer-lhe algo sobre a Eucaristia. Escutou uma voz que dizia: "olha-me, isto é o que é a Eucaristia, não é só um pouco de pão, por isto tens de ser baptizada". Ajoelhou-se e chorou. "Senti que tudo era real, sucedendo ante mim. E entendi que era um ponto sem retorno. Soube que Deus queria que me baptizasse".
Baptizou-se em 7 de Abril de 2007, dia de Páscoa, na paróquia de Saint Christopher, cheia de "fogo e amor de Jesus na Eucaristia e nas minhas orações". "Encontrei um verdadeiro amigo, Jesus, e creio que há muito mais que vou conhecer de Deus, e de uma vida recta. Sou uma ´tarefa em processo´".
Actualizado 6 de Março de 2013
P. J. Ginés/ReL
Não ficam muitos zoroastrianos, seguidores da religião do antiquíssimo profeta persa Zoroastro (também chamado Zaratustra). São talvez dois milhões e meio de pessoas, que vivem sobretudo no Irão (pequena minoria entre muçulmanos) e na Índia (diminuta minoria entre hindus). Na Índia usam também o nome de "parsis" (de onde vem "Pérsia"). Há além disso comunidades emigradas no Ocidente.
Cada dia visitava o Templo do Fogo
A uma família parsi da Índia pertencia Khurshid Jilla. "A minha mãe vinha de uma família de sumo-sacerdotes e eu desde a infância fui pessoa de oração", recorda esta mulher. "Visitava o Templo do Fogo todos os dias antes de ir à universidade e também durante a minha vida laboral".
Khurshid assinala os três princípios básicos do zoroastrismo: "Bons pensamentos, boas palavras e boas acções".
Trata-se de uma religião ética: não há predestinação, os homens são livres para actuar, e devem lutar escolhendo o bem e evitando o mal. Deus, o Deus do bem e a luz, é Ahura Mazda, e Zaratustra é o profeta humano que simplificou e perfilou a religião que lhe serve. Assim, ele ensinou que o fogo, a chama inextinguível que se mantém nos templos, não era um deus, mas sim um símbolo de Deus.
O profeta e o Avesta, o livro sagrado
Não se sabe quando viveu Zoroastro: em algum momento entre 900 e 500 antes de Cristo. É possível que ele compusesse alguns dos mais antigos "gatha", os cânticos mais primitivos do "Avesta", o livro sagrado zoroastriano. O resto do livro é muito posterior: crê-se que se recompilou ou compôs no século IV dC, e a cópia mais antiga que se conserva é do século XIII d.C.
"Eu acreditava em Deus, rezava regularmente e visitava o templo a maioria dos dias, e também queria ajudar aos pobres e necessitados", recorda Khurshid. Mas ela tinha a sensação de que "estas normas não eram bastante. Queria saber mais de Deus. Fazia perguntas sobre os rituais. Mas os anos passavam e senti que as respostas não respondiam aos mistérios que me inquietavam. Fazia-me perguntas sobre a morte. Aos 7 anos tive um sonho! Vi a outra vida, um lugar cheio de luz com um trono, que me impressionou profundamente. E sempre procurei respostas para este sonho deleitoso".
Só, sem trabalho, emigrante
Mas a vida foi complicada para a jovem Khurshid: a sua família rompeu-se, os seus pais morreram rápido, e ela encontrou-se com 34 anos de idade, só e sem trabalho como emigrante na Austrália. "Era um momento duro. Costumava sentar-me a fumar e olhar o céu fazendo-me perguntas: Porque nasci? Onde estás, Deus? Porque estou nesta situação? Estás vivo, podes ouvir-me? Podia estar horas assim".
Um dia de Julho de 2002, saiu a passear até Malabar Beach, em Sydney, e passou junto à paróquia católica de Saint Andrew. "De alguma forma, senti que tinha que entrar", recorda. "Não sei como explica-lo, mas senti que a igreja me chamava a entrar. Era um dia laboral ao anoitecer, e pensei que estaria encerrada. Mas para meu assombro estava aberta. Entrei e senti de verdade algo tão real! Era uma presença. A presença de Deus. Mas não pude entendê-lo, e pensei que tudo era muito estranho, assim que depois de estar um pouco, fugi".
Calor e lágrimas
"No dia seguinte voltei à mesma hora e de novo estava aberta a igreja. Obscura e fria. Mas senti um calor súbito, como se alguém me abraçava. E encontrei-me chorando. Não podia deixar de chorar e continuamente perguntava-me: porque choro?"
A partir dessa experiência, Khurshid começou a ir a essa paróquia e a assistir à missa. "Não entendia nada dos rituais católicos, e nenhum católico me os explicava. Comecei a visitar outras igrejas cristãs e encontros de oração. Vi que outros cristãos sentiam paixão pela sua fé em Jesus Cristo e que sabiam mais sobre a Bíblia. A minha sede por conhecer a Deus incrementava-se sem cessar e descobri que as perguntas que fazia a Deus estavam respondidas na Bíblia".
Cristo e a cura
Deu a boas-vindas a Cristo como um companheiro, e uma forma de aceder à sabedoria de Deus. "Cristo caminhava comigo, dirigia-me, falava-me de formas misteriosas, desdobrava mistérios ante mim. Comecei a centrar a minha mente Nele. O meu coração endurecido e desanimado começou a ter esperança. Encontrei consolo em Jesus. Comecei a experimentar cura de mente, corpo e espírito. Encontrei um trabalho, deixei de fumar. Podia já pagar as minhas dívidas e entendi que poderia gerir melhor a minha vida caminhando com Jesus".
Passaram 4 anos de exploração da fé cristã e a relação com Cristo. Em Junho de 2006 Khurshid rezava o Rosário e outras orações católicas. E sentiu o impulso de Deus a converter-se, a baptizar-se. O sentiu várias vezes, mas ela se negava.
Lealdade à fé dos ancestrais
"Tinha um sentimento de dever lealdade ao zoroastrismo. Não era só um tema de hábito ou cultura, era mais profundo. Se espera que se viveste nesta fé, morrerás nela. Era difícil renunciar à fé tradicional dos meus ancestrais. Interessava-me o cristianismo, que era uma forma de viver, e gostava de caminhar com Jesus, sentir o Deus vivo. Encantavam-me as orações, e havia tido experiências extraordinárias desde que conheci Jesus pessoalmente. Mas deixar ir o passado era uma luta. Pensei que podia continuar indo a vários grupos cristãos sem enfrentar o passo último da conversão".
Mas uma vez mais, Deus a guiou com sonhos.
"Sonhei com uma luz enorme, e ouvia que alguém me conduzia pela selva. Uma voz me disse: porque és tão teimosa? Porque não te baptizas? E respondi no sonho: ´sou zoroastriana´. Senti então que a voz era de Jesus e vi uma cascata enorme à distância. Ao aproximar-me da cascata, vi grandes gotas de luz branca que caíam ao meu redor, e a Jesus mesmo baptizando-me".
E nesse momento despertou. "Menos mal, só era um sonho", pensou. Mas essas imagens repetiam-se nesses pensamentos. E rezou: "Senhor, porque queres que me baptize?" E sentiu uma resposta que veio a ela: "Porque quero que faças o meu trabalho". E encontrou-se respondendo: "bom, quero fazer o teu trabalho".
A Eucaristia, a Virgem e a Cruz
Em Dezembro de 2006, ainda sem baptizar, fechou os olhos para rezar e à sua mente acudiram imagens da Crucificação e da Virgem ao pé da Cruz. Ela sentiu que Cristo e a Virgem queriam dizer-lhe algo sobre a Eucaristia. Escutou uma voz que dizia: "olha-me, isto é o que é a Eucaristia, não é só um pouco de pão, por isto tens de ser baptizada". Ajoelhou-se e chorou. "Senti que tudo era real, sucedendo ante mim. E entendi que era um ponto sem retorno. Soube que Deus queria que me baptizasse".
Baptizou-se em 7 de Abril de 2007, dia de Páscoa, na paróquia de Saint Christopher, cheia de "fogo e amor de Jesus na Eucaristia e nas minhas orações". "Encontrei um verdadeiro amigo, Jesus, e creio que há muito mais que vou conhecer de Deus, e de uma vida recta. Sou uma ´tarefa em processo´".
in
Sem comentários:
Enviar um comentário