Páginas

quarta-feira, 9 de abril de 2014

Rejuvenescer na alegria da fé

1. Refazer a vida e o itinerário
Durante a Quaresma deste ano nas minhas notas semanais tenho estado a fazer uma leitura orante da mensagem e da vida de Jesus, a partir dos textos que a Igreja propõe para os domingos, fazendo alguma aplicação ao nosso tempo e cultura. Aproxima-se o final da Quaresma e entramos na Semana Santa, a Semana Maior dos cristãos, na qual celebramos os acontecimentos centrais e finais da vida de Jesus, a sua entrada triunfante em Jerusalém, a última ceia com os discípulos, carregada de ensinamentos e gestos, a prisão de Jesus, o seu julgamento sumário e condenação à morte de cruz, a que se segue a experiência inaudita da ressurreição, em que as mulheres e os apóstolos são envolvidos.

A partir destes acontecimentos os discípulos têm de refazer a sua vida, mudar o seu modo de pensar e começar um novo itinerário de missão. Desde há alguns anos que a Igreja coloca no Domingo de Ramos a jornada mundial de juventude, que, de três em três anos, se celebra num país diferente com a presença do Papa. Em 2011 foi em Madrid com o Papa emérito Bento XVI e no ano passado foi no Rio de Janeiro com o Papa Francisco, que convocou a próxima jornada com a sua presença para Cracóvia, na Polónia, em 2016, começando a preparação já este ano a nível das dioceses. O tema é a partir das bem-aventuranças, proclamadas e vividas por Jesus Cristo e que são a carta magna dos princípios fundamentais dos seus discípulos. Para este ano o Papa propõe aos jovens a primeira bem-aventurança: felizes os pobres em espírito, porque é deles o Reino dos Céus (Mt 5, 3). 

Que todos queremos ser felizes e procuramos a felicidade e os jovens são particularmente sensíveis a isso, é um facto incontestável. Mas em que consiste a felicidade ou o que dá alegria, satisfação e prazer aos jovens de modo duradoiro e consistente? As coisas, os amigos, o possuir e ter à disposição aquilo de que se gosta dá alegria, mas pode ser passageira, pois a relação de posse escapa à liberdade. Feito para amar, o coração da pessoa só nessa relação encontra a realização feliz da sua vida. Só no encontro de duas liberdades fiéis ao amor do outro que se deixa amar e se esvazia totalmente para o receber, pode haver alegria feliz, acontecer aquilo a que o Evangelho chama Reino dos Céus. A condição para que isso aconteça é esvaziar-nos de nós mesmos, do fardo do ter, tornarmo-nos mendigos do amor. É um caminho exigente e por vezes doloroso. Mas quem ama é capaz de aguentar muito sofrimento e encontrar energia para caminhar ao encontro do único capaz de inebriar e encher o seu coração.

O itinerário e o caminho da vida que se deixa marcar pelas bem-aventuranças proclamadas e vividas por Jesus Cristo fascinam o jovem, que não se contenta com a satisfação no efémero, no imediato, nos bens deslumbrantes do ter, nos prodígios da técnica, mas envereda pelo diálogo e pela relação interpessoal, que desperta a esperança e a alegria no outro. Muitas vezes experimentei uma imensa paz e alegria ao ouvir um obrigado ou contemplar um simples sorriso no rosto do pobre, do doente ou da pessoa a quem prestei atenção. No mundo das relações virtuais dificilmente se experimenta esta felicidade. Precisamos todos de reaprender a relacionarmo-nos em espírito e verdade, para experimentarmos a alegria autêntica e compreender o que significa Páscoa feliz.

2. O papel da juventude no mundo e na Igreja
Na entrada triunfal de Jesus em Jerusalém, que celebramos no Domingo de Ramos, diz-se que uma multidão saiu ao encontro de Jesus montado num burriquito, gritando: Hossana! Bendito o que vem em nome do Senhor! É um rei pobre, que não vem montado num cavalo, mas num jumento, o transporte dos pobres. Esta cena faz-nos lembrar o Papa Francisco, que prescindiu de muito aparato, para ir ao encontro dos pobres, dos doentes, dos jovens e das crianças, que, na sua simplicidade reconhecem a grandeza de Deus, que vem ao nosso encontro e nos faz gritar de alegria: Hossana!

Na sua mensagem o Papa diz que é muito triste ver uma juventude saciada de todos os bens materiais, mas fraca. Os jovens que escolhem Cristo são fortes, nutrem-se da sua Palavra e não se «empanturram» com outras coisas. Tende a coragem de ir contra a corrente. Tende a coragem da verdadeira felicidade! Dizei não à cultura do provisório, da superficialidade e do descartável, que não vos considera capazes de assumir responsabilidades e enfrentar os grandes desafios da vida.

No Alentejo verifica-se um envelhecimento galopante da população e um grande decréscimo da natalidade. Isto também tem reflexos na constituição das comunidades paroquiais, envelhecidas e tristes. Precisamos de nos abrir à juventude, ao seu espírito generoso e aberto, alegre e movido pela esperança. O Papa João Paulo II, que será proclamado santo a 27 de abril, iniciador das jornadas mundiais da juventude em 1984 e patrono da próxima jornada na Polónia, mesmo doente e idoso, atraía os jovens para Cristo. Em 1982, no parque Eduardo VII em Lisboa, dizia que os jovens têm uma conaturalidade com Cristo. Por isso serão os melhores evangelizadores dos jovens e da Igreja, porque a evangelização só será possível por contágio da alegria, diz o Papa Francisco na referida mensagem. A alegria do Evangelho brota dum coração pobre, que sabe exultar e maravilhar-se com as obras de Deus, como o coração da Virgem, que todas as gerações chamam «bem-aventurada» (cf. Lc 1, 48).

Oxalá a celebração da jornada diocesana da juventude, que vai acontecer este ano em Moura, no dia 12 e que marca o início da Semana da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus, nos rejuvenesça na alegria do Evangelho, apesar da crise económica e financeira. Como Jesus nos amou, amemo-nos nós também, vivendo para os outros e indo, de coração repleto da alegria pascal, ao encontro dos pobres, que têm muito para nos dar do que é mais importante na vida.


† António Vitalino, Bispo de Beja

Nota semanal em áudio:



Sem comentários:

Enviar um comentário