O padre Cantalamessa indica o valor das Escrituras para escutar o que sugere a cada um individualmente
Roma, 11 de Abril de 2014 (Zenit.org) Sergio Mora
O pregador da Casa Pontifícia, o padre Raniero Cantalamessa,
realizou nesta sexta-feira a última pregação da quaresma. Foi na capela
Redemptoris Mater do Vaticano, com a presença do Santo Padre, cardeais,
bispos e membros da cúria romana. O tema foi “Sobre os ombros de
gigantes - as grandes verdades da nossa fé contempladas pelos Padres da
Igreja latina".
O sacerdote disse que diante do ataque às Sagradas Escrituras, "a
Igreja opõe a sua doutrina e a sua experiência", e que na Dei Verbum, “o
Vaticano II reiterou a validade perene das Escrituras, como a palavra
de Deus para a humanidade". E sobre a sua validade considerou que
“talvez a prova mais convincente seja a da experiência”.
"A afirmação da divindade de Cristo em Nicéia, no ano 325, e do
Espírito Santo em Constantinopla, no ano 381, aplica-se integralmente às
Escrituras. Nela experimentamos a presença do Espírito Santo, Cristo
nos fala ainda hoje, o seu efeito sobre nós é diferente ao de qualquer
outra palavra; portanto, não pode ser simples palavra humana”, disse.
"Como quando em um quarto (recordou o sacerdote capuchinho)
iluminado pela ténue luz de uma vela se acende de repente uma poderosa
luz de néon. Cristo, que é ‘luz do mundo’, é também luz das Escrituras”.
Disse, entretanto, que "a contribuição mais significativa dos Padres
latinos, não está na descoberta de significados novos e ocultos da
palavra de Deus, mas na sistematização do vasto material exegético que
vinha se acumulando na Igreja, no desenho de um tipo de mapa para
orientar-se na sua utilização”.
O pregador da Casa Apostólica assegurou que “Gregório Magno e os
Padres no geral acertavam no ponto fundamental: que é preciso ler as
Escrituras tendo como referência Cristo e a Igreja. Já o faziam antes
deles, como visto, Jesus e os apóstolos”. Embora reconheceu que “a parte
obsoleta da sua exegese está em ter acreditado que podiam aplicar este
critério a cada palavra da Bíblia, de modo muitas vezes fantasioso,
forçando o simbolismo".
A distinção que evidenciou é “a diferença entre uma leitura pessoal e
uma leitura impessoal da palavra de Deus”, porque “os Padres se
aproximavam da palavra de Deus com uma pergunta constante: o que fala,
agora e aqui, à Igreja e a mim pessoalmente?” dado que as Sagradas
Escrituras “sempre têm novas luzes que devem irradiar e novas tarefas a
serem mostradas pessoalmente a cada um”. É, em definitiva, a doutrina
clássica da inspiração divina da Escritura, a que proclamamos como
artigo de fé no Credo, quando dizemos que o Espírito Santo é aquele que
“falou pelos profetas”.
E lembra que muitos Padre comparam a Escritura com um espelho e não
se precisa passar todo o tempo examinando a forma e o material com o
qual está feito, como os problemas críticos que a Escritura sugere, as
fontes, os géneros literários, etc., “mas colocar em prática os claros”
porque como diz Gregório ‘se entende realizando-a’.
Há duas maneiras de preparar uma pregação, disse o padre, uma é
“sentar-me na mesa e eleger eu mesmo a palavra para anunciar e o tema” e
depois colocar-me de joelhos para pedir apressadamente a Deus que
abençoe o que escrevi”, mas não é a via profética. “Temos que seguir a
ordem inversa: primeiro de joelhos, e depois na mesa”.
"Todos nós - disse o padre Cantalamessa – temos experimentado o que
pode fazer uma só palavra de Deus profundamente acreditada e vivida
primeiro por quem a pronuncia, e às vezes até mesmo sem sabe-lo; muitas
vezes deve-se constatar que, entre muitas outras palavras, foi a que
tocou o coração e conduziu a mais de um ouvinte ao confessionário”.
"Quero terminar esta meditação (concluiu o pregador) com um
pensamento de gratidão aos irmãos judeus, também como felicitação pela
próxima visita do do Santo Padre a Israel. Se a interpretação que damos
da Escritura nos separa deles, nos une o comum amor por elas”.
[Trad.TS]
(11 de Abril de 2014) © Innovative Media Inc.
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