Cem mil vivem na cidade e recordam o que se passou em 1915
Stefano Magni / La Nuova Bussola Quotidiana
Sobre a Síria publicam-se muitos dados: cem mil mortos, dois milhões de refugiados, dois anos e seis meses de conflito. Mas esquecem os cem mil cristãos arménios que vivem em Alepo. E os quase seis mil que abandonaram a Síria por temor de novas perseguições. Continua-se temendo a utilização de armas químicas por parte do regime de Bashar al Assad, mas se os rebeldes conquistam Alepo, quase cem mil arménios poderiam converter-se nas vítimas de um novo genocídio. Entre os muitos povos que temem uma intervenção estadunidense contra Assad, os arménios são os que temem mais.
Os arménios de Alepo: evocando 1915
A história dos arménios na Síria é tão dramática como desconhecida. Disto temos falado com Antonia Arslan, escritora, conhecida do grande público por ter escrito a novela La masseria delle allodole [A mansão das cotovias], um dos testemunhos mais emotivos do genocídio dos arménios de 1915, o crime cometido pelos Jovens Turcos, pródromo de todas as violências totalitárias do século XX.
Os arménios na Síria existem desde sempre – explica Antonia Arslan –. Em Alepo, uma cidade antiga e animada encruzilhada de povos, sempre houve arménios. E esta é a chave para entender porque as deportações que se seguiram aos massacres dos arménios em 1915 tinham como destino precisamente Alepo. E como isto salvou parte das vítimas.
Alepo, no terrível Verão de 1915 e durante o ano seguinte, mobilizou-se para salvar o maior número possível de deportados. Mobilizaram-se os arménios que viviam na cidade, os ocidentais que trabalhavam nela, o cônsul alemão de Alepo (Walter Rossler, uma figura extraordinária) e também a população árabe que, ainda que estivesse submetida ao Império Otomano, não partilhava o seu ódio contra os arménios.
O maior hotel de Alepo dessa época, o Baron’s Hotel (onde se hospedaram também Lawrence da Arábia e Agatha Christie) era propriedade de uma família arménia, e era a sede do estado-maior de Djemal Pashà, o terceiro dos triúnviros turcos responsáveis do genocídio. Também ele era um fanático, mas pelo menos era sensível a uma coisa: o dinheiro. Os outros dois triúnviros, Talaat Pashà e Enver Pashà, em 1916 precipitaram-se para encerrar esta "brecha" do genocídio que se havia aberto na Síria.
Efectivamente, nesse ano, uma série de batidas em Alepo tiveram como resultado a prisão e posterior deportação para os campos de concentração de Deir Ezzor de muitos arménios que tinham sobrevivido; nestes campos se levou a cabo uma verdadeira e própria "solução final". A comunidade que sobreviveu começou a aumentar de novo em Alepo, primeiro no período do mandato francês, depois com a independência da Síria».
Um regime não hostil
A relação dos cristãos arménios com o regime de Assad nunca foi conflituosa. E é por este motivo que facções da resistência agora os consideram "colaboracionistas".
Na realidade, segundo explica Antonia Arslan: «Os dois Assad, pai e filho, pertencem por sua vez a uma minoria religiosa, a dos alauita, que constitui 10% da população síria. No início era um regime nacionalista laico. Não dominou nunca a ideia de exterminar a causa da participação religiosa. Os arménios, assim como as outras minorias cristãs da Síria, viveram com uma certa tranquilidade até o estalar da guerra. A embaixadora italiana, Laura Mirachian (de origem arménia) sempre confirmou que a situação era estável, relativamente tranquila, para os arménios de Alepo. Não há dúvida de que o regime piorou e que os últimos anos foram terríveis. Mas culpar as minorias cristãs de todos os seus crimes é um argumento que usam aqueles que querem acabar com todas elas».
Como no Líbano
Com o princípio da revolução e a sua degeneração em guerra civil, as comunidades arménias «tentaram fazer o que fizeram as suas vizinhas durante a longa guerra civil libanesa (1975-1990): permanecer encerrados nos seus bairros, sem atrair a atenção das partes beligerantes. Algo que cada dia que passa é mais difícil. No Líbano, os arménios conseguiram salvar os seus distritos, mas agora voltam a estar em risco por causa da exportação da violência síria aos países vizinhos. A sua "política do caracol", a de estar encerrados nos seus próprios bairros, deriva também da recordação do genocídio turco: a experiência do extermínio é ainda demasiado recente para não sentir terror instintivamente».
Violação sistemática de mulheres
E se a resistência islâmica vencesse o regime de Assad? «Contaram-me já episódios terroríficos. Uma das dinâmicas clássicas deste tipo de "guerra" é a violação sistemática de raparigas. Raptadas das suas casas, violadas repetidamente e logo assassinadas quando estão reduzidas a um destroço. Ou convertidas à força ao islão e casadas com contractos de matrimónio que duram um dia. E depois casadas de novo com outro homem, e com outro,… Para ser, por último, repudiadas e assassinadas. O terror perante este tipo de violência é enorme, e é evidente que as milícias jihadistas querem a eliminação de todos os enclaves cristãos».
Quando Alepo estava a ponto de cair definitivamente nas mãos dos rebeldes, os arménios preparavam-se para o pior: «Em fins de Maio falava com monsenhor Georges Noradounguian (reitor do Pontifício Colégio Arménio), que tem toda a sua família em Alepo. Nesse momento parecia que os rebeldes estavam quase a conquistar a cidade. Ele contava-me que toda a sua família estava encerrada em casa, no bairro arménio. No momento em que chegaram os rebeldes, não ficava outra solução que deixar-se cair desde o terceiro piso. Em comparação com a violência, as torturas, a morte lenta e dolorosa, o melhor é o suicídio».
Em vista de uma possível vitória dos rebeldes, as comunidades arménias da Europa e América do Norte a única coisa que podem fazer é preparar uma fuga em massa. Se bem que: «Não creio que possam ter uma audiência com Obama. O presidente estadunidense evitou sempre pronunciar a palavra "genocídio" pelos factos de 1915, ainda que o havia prometido na campanha eleitoral. O que os arménios tentam organizar é, pelo menos, uma fuga. Temo que pensem que não haja nada que fazer para garantir a sobrevivência desta comunidade na Síria. Agora só existe a ideia de fugir e salvar-se da possibilidade de um novo genocídio».
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