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quarta-feira, 13 de março de 2013

O cardeal Zen, emérito de Hong Kong, recorda que na China um Partido ateu controla a Igreja

Denuncia a ineficácia e o pacto da Cúria

Zen louva as orientações de Bento XVI para a China, mas disse que os seus colaboradores as deformaram e assumiram um entreguismo a todo o custo com as autoridades chinesas.

Actualizado 12 de Março de 2013

P.J.G/ReL


Aos seus 81 anos, o cardeal Zen (José Zen Ze-kiun), bispo emérito de Hong Kong, não pode votar no Conclave mas tem muito claro o que pede do novo Pontífice: mão dura com o regime chinês e abandonar o que considera um caminho de pacto com as autoridades comunistas.

Por detrás de tudo na China, está o director de Assuntos Religiosos, Wang Zuoan, a autoridade política que mais tenta debilitar e danificar os católicos. "Através dele, um partido ateu gere a vida da Igreja e de todas as religiões", escreve Zen.

O cardeal tem claro que uma igreja de bispos e padres encarcerados pelo regime mantém a fé, enquanto uma igreja de bispos colaboracionistas e dominados pelo Partido Comunista a debilita. E na sua opinião esta é a linha que se seguiu durante o Pontificado de Bento XVI que há que corrigir.

"Bento XVI fez coisas pela China que não fez por nenhum outro país: dedicou-lhe uma carta específica, criou uma Comissão específica para a China com 30 membros dos dois mais importantes dicastérios; devemos estar-lhe agradecidos", assinala.

Mas o cardeal Zen crê que as boas intenções e orientações de Bento XVI foram debilitadas ou estropiadas por "outros que estavam próximo dele, que não seguiram a sua linha. Não estou aqui para julgar consciências, é provável que estes colaboradores cressem que ele não sabia bem a situação, que não era capaz de seguir uma boa estratégia. Em qualquer caso, esses colaboradores não implantaram as linhas que Bento XVI pedia para a Igreja na China", denuncia Zen num texto publicado na agência missionária AsiaNews.

As duas ferramentas de Bento XVI para a China são a Carta e a Comissão. As duas foram sabotadas, segundo o cardeal Zen.

"A Carta tem um perfeito equilíbrio entre simplicidade e claridade, mas este equilíbrio foi alterado por uma manipulação na sua tradução ao chinês, e uma interpretação tendenciosa", afirma.

E quanto à Comissão, assegura que não funciona, e que os seus conselhos, às vezes unânimes, nem sequer chegavam ao Papa, bloqueados por "chefes de departamento" na Cúria.

O resultado é que a Igreja durante estes anos tentou o "pacto a todo o custo" com as autoridades civis chinesas. "Cederam às pressões, crendo que era a única forma de que a Igreja na China sobrevivesse; em vez de animar uma postura firme, animavam ao submetimento [dos líderes católicos às autoridades comunistas]. Claro que os bispos na China sofrem pressões potentes, mas os que podemos falar livremente devemos dizer as coisas correctas, animando a testemunhar a fé!"

"O Papa, perante os acontecimentos na China, falava sempre de coragem; os que o rodeavam, por outro lado, falavam de entendimento, paciência... Cedendo terreno mais além dos limites aceitáveis, contra o consenso da Comissão", protesta o cardeal chinês.

E é que na China os agentes do governo se valem de bispos colaboracionistas, subornados e lisonjeados, "aos que conduzem pela nariz, obrigando-os a participar em ordenações ilegítimas, fazendo alianças com os piores elementos".

"Inclusive hoje há gente [na Cúria e na Igreja] que alimenta a ilusão de que com os novos líderes que tomam posse em Março haverá novas possibilidades", assinala Zen, mas rejeita estas ideias, assinalando que o novo líder da China, Xi Jinping, fala só de "impedir que suceda como na Rússia" (reformas que façam oscilar o regime). Fala de acabar com a corrupção no Partido, mas o cardeal insiste que "sem um mínimo de democracia é impossível que o Partido se cure".

"Tenho grande confiança na gente e os sacerdotes que ainda que estejam desorientados debaixo bispos indignos do seu nome aceitam sofrer, ir para a prisão pela fé e seguir evangelizando. Esta gente salva a fé na China. Há sacerdotes presos, interrogados, golpeados, torturados, presos durante dias, mas não deixam o seu amor e fé pelo Santo Padre. Muitos sacerdotes não aceitam as ordenações ilícitas, como Ma Daqin, o bispo auxiliar de Shanghai, que ao deixar a Associação Patriótica foi posto debaixo de prisão domiciliária".

Inclusive no caso deste último bispo detido, "a Santa Sé foi demasiado cuidadosa, não o apoiou com todo o seu peso, optou por uma política de prudência e moderação. E perdemos a oportunidade de ajudar outros bispos da China", lamenta.

Enquanto isso, os bispos colaboracionistas vão a banquetes e festas com autoridades do Partido em grandes carros, em troca de fazerem gestos de desobediência a Roma.

Este é o desafio que encontrará o novo Papa, e um exemplo de que a Cúria não estava servindo suficientemente bem a Igreja e o Papa anterior.




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