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domingo, 11 de janeiro de 2015

Era ateu e triunfava com as raparigas nos seus concertos: fugindo de uns criminosos Deus tocou-lhe

Raul Ukareda, organizador do festival Augustibluus 

Raul Ukareda, uma das melhores guitarras de blues do Báltico, chegou à Igreja e o baptismo depois de explorar no hedonismo, Oriente e a New Age
Actualizado 2 de Dezembro de 2014

Pablo J. Ginés/ReL


Raul Ukareda é um dos guitarristas de blues mais famosos do Báltico. Foi membro fundador da banda de blues mais famosa da Estónia, Compromise Blue, e guitarrista na Tanel Padar Blues Band, criada por Tanel Padar, ganhador da Eurovisão em 2001. É além disso o organizador desde 1993 do maior festival de blues do seu país, o Augustibluus (www.augustibluus.ee).

Respeitado como músico e como pessoa, Ukareda é um dos poucos católicos da Estónia. Mas só desde 2010. Há umas décadas era ateu, materialista, hedonista e estava metido em assuntos realmente turvos com gente perigosa.

Infância "de bons comunistas, ateus convencidos"
De menino, na sua infância na República Socialista Soviética da Estónia, nunca recebeu formação religiosa. "Éramos bons comunistas, ateus convencidos e materialistas práticos", recorda.

Só a sua avó tinha uma certa crença vaga num "Ser superior". Um dia, com 10 anos, Raul encontrou uma Bíblia num caixote.

- Que é isto, avó?

- Um livro antigo - disse ela rindo-se - mas não o abras e deixa-o onde estava. Não te vá acontecer como a um do meu povoado, que o leu e se tornou louco!

E essa foi a sua única relação com a palavra de Deus de criança: um conselho da avó desanimando-o.

A grande pergunta, contra o recebido
Aos 11 anos caiu de uma árvore altíssima que estava trepando. Durante uns instantes, depois da queda, pensou, mais além da dor e das fracturas: "Irei para o Céu? "Era uma pergunta estranha, os meus pais e professores tinham-me dito que depois da morte não havia nada".

Sem dúvida, desde então, a pergunta pelo Mais Além ficou presente sempre no fundo da alma de Raul.

O músico e o êxito
Aos 12 anos morreu o seu pai e ele voltou-se para o rock e os blues. E o seu grupo triunfou. Ele tinha 18 anos e conseguia coisas incríveis na União Soviética, como uma permissão para ir com o grupo tocar à Finlândia, onde pode beber vodka e tomar drogas até perder o conhecimento. Era um triunfador de 18 anos que podia fazer "o que quisesse".

"Introduziu-me no mundo do álcool, as drogas e as raparigas fáceis. Fiz coisas das quais prefiro não falar, porque ninguém gosta de recordar o seu passado criminoso. Nós fomos famosos. As raparigas punham-se histéricas nos nossos concertos. Com 20 anos, eu ganhava 5 vezes mais que qualquer profissional de tipo mediano". 

Raul Ukareda num solo de guitarra com Compromise Blue (7 min.) 

Escondido dos bandidos chechenos
Algo mudou quando se meteu "numa confusão" por causa de um carro passado de contrabando e um bando de bandidos chechenos que queriam recuperar o carro.

"Ameaçaram a minha família e senti pela primeira vez um medo indescritível. Refugiei-me em casa da minha tia onde passei vários meses fechado sem sair à rua, sem falar por telefone e sem assomar-me à janela. Não suportava estar escondido todo o dia".

Uma noite, nesse retiro forçoso e angustiante, teve uma experiência de lucidez mística.

"Sinto-me incapaz de descrevê-la. Estava deitado na cama, profundamente abatido, quando compreendi que aqui não se acaba tudo: há algo maior. Que estou fazendo com a minha vida? perguntei-me. Concluí, com uma lucidez estranha, que as coisas materiais em vez de saciar, aumentam a sensação de vazio. E decidi procurar um sentido para a minha existência".

Como tinha uma Bíblia na casa, folheou-a e tratou de lê-la, mas não entendia nada dela, e deixou-a.

Rezando ao Deus desconhecido
Depois, conseguiu chegar a casa de um parente em Inglaterra. Ali sentiu a necessidade de rezar, mas como tantos "homens soviéticos" não sabia a Quem nem como. Rezou, não sabia porquê, mas rezou. "A Quem, a Deus? Não sabia nada d’Ele. Mas tinha a certeza, no fundo da minha alma, de que Alguém me escutava".

Necessitava rezar para continuar vivendo, explica, ainda que ele mesmo duvidava: "não serão tudo isto fantasias?"

Mas na oração às vezes chegava sabedoria. Por exemplo, uma vez, enquanto rezava, entendeu que a vida era demasiado formosa para perdê-la em noites de sexo e álcool. 


Caiu o comunismo... E procurou no esoterismo
Quando caiu o comunismo na Estónia e desapareceu a URSS, legalmente, face à polícia, ele está "limpo" no novo país. Voltou à Estónia com 27 anos e conseguiu encontrar "um trabalho, a primeira ocupação completamente honrada da minha vida".

Era uma alma que rezava ao Mistério, que sabia que as coisas materiais - que tinha tido em grau extremo - não enchem, que necessitava Algo que o salvasse e desse sentido à sua vida...

Procurou nos livros de esoterismo, na filosofia hindu dos Hare Krishna, reflectiu sobre o karma, cantou matras, procurou no mundo do xamanismo, leu autores que mesclavam estudos com alucinogénios com rituais (supostamente) pré-colombianos, passou às religiões orientais... Foram dois anos de procura intensa, e continuava no mesmo sítio: "desorientado, só e sem razão para viver".

Procurava longe pela propaganda anticristã
Procurava o sagrado, o Mistério, muito longe, no exótico... Porque o tinham educado no desprezo ao cristianismo. "Na Estónia comunista o cristianismo tinha muito má fama, e desde pequeno me tinham dito que era uma superstição, um conjunto de mitos nos quais não acreditava ninguém salvo três ou quatro anciãs".

Mas agora descobria, lendo desde o seu país, considerado o menos crente da Europa, que havia milhões de cristãos, incluindo grandes génios criativos. Bach, Beethoven, Miguel Ângelo... Os clássicos antigos foram cristãos. "Até Tolkien, que triunfava durante esses anos com O Senhor dos Anéis!", recorda.

Tinha que averiguar mais, e foi a uma livraria.

- Quero um livro sobre o cristianismo - pediu.

- Mas, ortodoxo, protestante ou católico? -perguntou a balconista.

Raul ficou desconcertado. Qual era a diferença? Era importante? Procurou na Internet, e o que via não era muito edificante. Uns defendiam o Papa, outros diziam que era o anticristo. Que pensar desta desunião?

Procurando em diferentes igrejas
Começou a ir a uma igreja ali, outra além... Sem dar-se conta que eram de confissões diferentes. E os seus amigos ateus riam-se dele. Esperavam que as suas manias espirituais lhe passassem.

No ano 2000 a sua carreira musical estava bem assentada e pensou que podia dedicar tempo e esforço a estudar a sério o cristianismo. Inscreveu-se nuns cursos na universidade, com professores baptistas e luteranos. Não havia católicos. Assediou com perguntas um pastor luterano, um velho amigo que tinha voltado a encontrar.

E o amigo pastor luterano um dia disse-lhe:

- Raul, és um rebelde, procuras uma resposta racional para cada pergunta. O teu sítio é a Igreja Católica. 


E foi então quando foi ao catolicismo pela primeira vez, falando com o bispo Philippe, um francês formado na espiritualidade do Opus Dei (aqui o bispo fala do seu pastoreio na Estónia). Pode aprofundar na fé, entendê-la, aceitá-la. Baptizou-se, e em 2010 casou-se pela Igreja com a sua mulher, com a qual levava 20 anos, e baptizaram os seus filhos.

"Agora penso que a minha avó tinha razão: quem lê a Bíblia corre risco de tornar-se louco... Mas de alegria", conclui.

(Este testemunho, redigido por ReL, o tomámos do interessante livro de José Miguel Cejas "O baile depois da tormenta; relatos de dissidentes dos países bálticos e Rússia", que recomendamos pelos seus numerosos testemunhos de fé).




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