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domingo, 9 de março de 2014

Hematóloga ateia, de marido judeu, estudou 1.400 milagres da Igreja e admite que crê neles

Jacalyn Duffin participou num processo de canonização 

Jacalyn Duffin é também especialista em História da Medicina.
Actualizado 8 de Março de 2014

Carmelo López-Arias / ReL

No passado dia 14 de Fevereiro a BBC publicou um artigo da hematóloga canadiana Jacalyn Duffin sobre a sua participação na investigação de um milagre. A doutora, de 64 anos, é também uma prestigiosa historiadora: presidiu à Associação Americana de História da Medicina e a Sociedade Canadiana de História da Medicina, e é catedrática dessa disciplina na Queen´s University de Kingston (Canadá).

"Olhando pelo microscópio, vi uma letal célula de leucemia e decidi que o paciente cujo sangue estava examinando tinha que estar morto": era o ano 1986 e, ainda que ela nesse momento não o sabia, esse ia ser o seu primeiro contacto com as canonizações da Igreja. De facto, a mostra de médula que estava observando pertencia a uma jovem de trinta anos ainda viva, em quem se estava estudando um milagre com vista à canonização do primeiro santo canadiano, Marie Marguerite d´Youville (1701-1771), fundadora das irmãs da Caridade, beatificada por João XXIII em 1959 e efectivamente elevada aos altares por João Paulo II em 1990.

O curioso é que a Igreja parecia inclinada a descartar o caso como milagroso, porque havia uma possibilidade de que a primeira remissão da enfermidade da mulher pudesse atribuir-se à quimioterapia. Sem dúvida, "os especialistas em Roma aceitaram reconsiderar a sua decisão se um testemunho ´às cegas´ reexaminava as mostras de novo e encontrava exactamente o que eu acabava de encontrar", conta Jacalyn.

Ateia e casada com um judeu
Ela mandou o seu relatório sem saber para quê: "Nunca tinha ouvido falar do processo de canonização e não podia saber que a decisão requereria tanta deliberação científica". Bastante tempo depois, a doutora Duffin foi convidada a testemunhar perante o tribunal eclesiástico, e como o seu estudo primeiro e as suas palavras depois foram decisivas para impulsionar a causa, também foi convidada à cerimónia na Praça de São Pedro. "No princípio duvidei para não ofender as religiosas, porque eu sou ateia e o meu marido é judeu. Mas estavam encantadas de incluir-nos na cerimónia, e tampouco podíamos renunciar ao privilégio de ser testemunhas do reconhecimento do primeiro santo do nosso país".

Obsequiaram-na com um exemplar da Positio, o documento-de-documentos de todo o processo de canonização, que incluía todo o caso do milagre, incluídos os seus trabalhos e observações. "Logo compreendi entusiasmada que o meu trabalho médico estava nos arquivos vaticanos, e instantaneamente a historiadora que há em mim perguntou-se por outros milagres utilizados para canonizações passadas", recorda.

Investigação exaustiva: 1400 milagres
Assim foi como começou a sistematizar o estudo desses processos, até analisar 1400 milagres utilizados para a canonização de centenas de santos nos últimos quatro séculos, o que colocou num primeiro livro, Medical Miracles [Milagres médicos], a que se seguiu um segundo mais específico sobre dois santos mártires do século IV cuja devoção está crescendo notavelmente nos Estados Unidos e Canadá nos últimos anos: Medical Saints. Cosmas and Damian in a Postmodern World [Santos médicos: São Cosme e São Damião num mundo pós-moderno], publicado em 2013 pela Universidade de Oxford.

"Ainda que continuo sendo ateia, creio nos milagres", explica a doutora Duffin. Porquê? Explica-o noutro artigo publicado em 2011 em The Free Library, onde repassa sucintamente os milagres atribuídos a santos canadianos posteriores à pioneira Santa Maria Margarida de Youville.

Prejuízos
"Os ateus honestos têm que admitir que sucedem factos cientificamente inexplicáveis", disse: "A hostilidade dos ditos jornalistas [refere-se às acusações de "anticientífica" da crença nos milagres, com ocasião de uma beatificação] procede do seu próprio sistema de crenças: não existe Deus, logo não pode haver nada sobrenatural. Mas se os afectados atribuem esses factos a Deus por mediação dos santos, porque teria que prevalecer outro sistema de crenças sobre o dos afectados? Essa presunção revela o abismo, socialmente admitido, entre crer na ciência e maravilhar-se perante o inexplicado".

E acrescenta: "Os milagres ocorrem, e com maior frequência do que pensamos". Precisamente, e mais além das suas convicções pessoais, o testemunho de Jacalyn Duffin é um tributo ao rigor da Igreja ao examiná-los. O estudo que ela realiza revela, por exemplo, a evolução das causas médicas aduzidas nas curas milagrosas, e a importância percentual das curas no conjunto dos milagres considerados (95% até o ano 1800, 99% a partir de então).

Curas: exigem um testemunho imparcial
Aqui está a sua interessante reflexão: "As enfermidades que acabam em cura milagres mudam com o tempo, desde as infecções na era pré-antibiótica aos problemas neuronais na era pré-scanner e pré-neurocirurgia, ao cancro em tempos mais recentes. Em todo o momento, são as enfermidades que mais desafiam a ciência médica. Estes casos mostram também que os médicos estão muito implicados na determinação do Vaticano sobre o milagroso: não identificar milagres, mas sim declarar o prognóstico sem esperança e a surpresa da cura e refutar toda a possível explicação científica. Como testemunhos imparciais e frequentemente não católicos, os médicos são parte essencial do processo. De facto, a possibilidade de ter um testemunho corroborativo imparcial pode ser uma explicação de porquê a maior parte destes milagres são curas de enfermidades físicas. Os teólogos podem sugerir outras razões de porquê as curas são para muitos um sinal de transcendência. O Vaticano parece encontrar-se mais cómodo com a ciência médica que a medicina com a religião".


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