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terça-feira, 10 de setembro de 2013

O deteriorar dos homens que «abortam»: um pai chora a filha a quem nunca encontrou

Sucedeu há vinte e cinco anos e não consegue esquecer

Um encontro que nunca se produziu neste mundo.
Actualizado 9 de Setembro de 2013

C.L. / ReL

Muitos homens são responsáveis directos do aborto - perante o silêncio feminista -, por não querer ter o encargo das suas responsabilidades e induzir a mãe a matar o filho comum. Outros - como o caso que recolhia ReL recentemente – vêem-se impotentes quando queriam tê-los, mas a lei não lhes concede nenhum direito se a decisão da mulher se inclina pela supressão da gravidez.

Uma história de sofrimento
O caso que recolhe a blogueira católica Rebecca Frech parece responder a uma terceira tipologia: quando o aborto se produz por consentimento comum do casal. E também neste caso os efeitos sobre a consciência são devastadores.

Rebecca estava falando com um "velho e querido amigo" sobre a perda da sua filha Bernadette, quando esse amigo se veio abaixo: "Começou a chorar e a falar-me sobre a sua própria pequena. A menina que nunca conheceu e a quem ama sem reservas".

Frech pediu ao homem que escrevesse o seu testemunho de vida em silêncio como "pai pós-aborto", e reproduz num dos seus últimos posts a história dessa tragédia.

Um dia de Agosto de 1988
"Amo a menina que nunca encontrei. Jamais a levei pela mão, nem lhe revolvi o cabelo, nem lhe cantei canção alguma. Mas a amo igualmente": assim começa a história, anónima, do amigo de Rebecca. Que lamenta: "Não sei se é alta ou baixa, e os rasgos do seu rosto existem só na minha imaginação. Estou seguro de que o tom da sua voz e a alegria do seu riso rivalizam com o coro dos anjos. Os seus olhos, brilhantes, serão castanhos, talvez cor avelã. Mas tudo isso o perdi. Tudo o que tenho são memórias irreais de quanto pode ter sido".

Explica que há vinte e cinco anos, no mês de Agosto, essa menina à qual hoje ama "foi abortada": "A minha pequena. A minha única filha. Uma menina que agarra o meu dedo até hoje, mas que nunca me chamará papá. Uma menina que nunca sentiu o abraço protector do seu pai, porque o seu pai lhe falhou no momento em que ela mais necessitava".

Arrependido e reconciliado com Deus
O homem que escreve esta história fala brevemente de si mesmo, ainda que afirme já não ser o que era então, esse menino que frequentou um colégio católico, esse adolescente convertido "num idiota que ia às festas para embebedar-se".

Já deixou para trás os "Se ao menos tivesse..." ou os "Deveria ter feito...": "Admito que o que fiz, o que permiti que se passasse, foi um erro. Arrependi-me e cumpri a minha penitência. Estou reconciliado com a Igreja".

Mas "a reconciliação, ainda que apague o pecado, não tira a pena": "No meu coração há um buraco com a forma de menina, e esse buraco nunca será preenchida nesta vida".

Diferente atitude da mãe
Dois anos depois do aborto, o homem contraiu matrimónio com a rapariga: "Casei-me com a mãe da minha filha. Talvez penseis que me teria poupado muito sofrimento casando-me com outra pessoa, e não o discuto, mas naqueles dias eu estava convencido de que o aborto não era coisa minha, que eu não era o responsável. Não tinha nada que ver comigo. Foi com o passar do tempo quando me enfrentei com o facto de que eu sim era responsável, de que eu era pai, e necessitava redenção".

O aborto que cometeram continua sendo, sem dúvida, "um tema tabu" entre eles, "uma parede invisível e intransponível, que só se rompeu duas vezes nos últimos vinte e cinco anos".

"Não vou aprofundar o que se passou", continua, "salvo para dizer que a única pessoa que poderia ajudar-me a suportar a dor e a pena é a mesma pessoa que rejeita admitir que tenho razões para a dor e a pena. Ela não quer ou não pode admitir que matou a sua filha. Mas é algo de que eu tenho que falar. Seguir em frente sem falá-lo com ninguém é mais do que posso suportar".

Síndrome pós-aborto, também nos pais
O amigo de Rebecca afirma que "há muitos pais que lamentam o aborto e são incapazes de falar disso: a culpa, a vergonha, a inadaptação, o ter falhado em proteger os débeis, a solidão, o desapego, a incapacidade de estabelecer relações estáveis, a tensão da qual não se fala, as feridas emocionais... São pesos invisíveis que afligem as suas almas. Amam as crianças que existem só no seu coração, um amor desolado e não correspondido. Sei-o porque vivi".

E explica como e quando: "Derramei muitas lágrimas na solidão de uma habitação vazia, no Natal, quando todo o mundo tinha ido para a cama. Algumas canções evocam-me fortes emoções, como quando Fantine canta Os Miseráveis "I dreamed a dream" e disse: "Sonhei que a minha vida podia ser tão diferente do inferno que estou vivendo".

Algumas cenas da película são devastadoras, como quando em Salvai o soldado Ryan o capitão John Miller, ao morrer sobre a ponte da cidade francesa, diz ao soldado Ryan: "Earn this! Faz que isto valha a pena!".

E ele fez que valesse a pena, mas eu fico perguntando-me se valeu a pena a decisão que tomei na minha vida. Vi os meus irmãos com as suas filhas no dia dos seus casamentos, e penso que eu nunca serei pai.

Prostrei-me em adoração no solo das igrejas perante Deus bendito, rogando-lhe a Sua paz, pedindo-Lhe ajuda para livrar-me da dor. E Ele sempre me dá paz, mas o buraco na minha vida com forma de menina continua".

Rezar pela intercessão da pequena
"Mas não quero que desapareça", adverte: "Sei que sonha raro, mas é a verdade. Noutro tempo tentei preencher essa ausência com outras coisas, e sem dúvida aí permanecia. Durante anos tentei dar a outros propósitos (alguns bons, outros nem tanto) o amor que era para a minha filha, mas agora compreendo que isso não podia funcionar. Dei-me conta de que o amor nunca ficará satisfeito. Agora rezo com ela, e peço coisas por sua intercessão. Isso é o que me ficou".

Conclui explicando que não procura alívio na auto compaixão: "Lamento com cada fibra do meu ser o que sucedeu naquele dia de Agosto de 1988, mas não fantasio sobre o que posso ter sido. Fiz a escolha [choice] do aborto, e sofro as consequências dessa escolha [choice]. Como também a minha esposa, ainda que a sua rejeição a admitir que se equivocou gravemente impeça uma cura completa entre os dois. Quero-a, e perdoei-a. Não guardo nenhum ressentimento para com ela, e rogo a Deus que abrande o seu coração para que possa começar a redimir-se. Dado que é a mãe de todos os meus filhos, decidi manter o compromisso até o final, seja qual seja o final".

"Por último", conclui, "creio que a minha filha nos perdoou, e isso ajudou-me muito. E inclusive espero, pela inexplicável misericórdia e bondade de Deus, que Ele mesmo é também Pai, que finalmente nos encontraremos. Um encontro entre estranhos que sempre se amaram mutuamente, e no qual por fim poderei escutá-la dizer Papá!".


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