Livro de Massimo Borghesi ajuda a compreender o complexo momento actual, especialmente das questões do Oriente Médio
Roma, 05 de Setembro de 2013
Para a compreensão do complexo momento actual, especialmente
das questões do Oriente Médio, é interessante o recente livro de Massimo
Borghesi, Crítica da teologia política: De Agostinho a Peterson, o fim da era constantiniana (Marietti, Milão, 2013).
Referem-se a este livro as passagens centrais da entrevista concedida pelo autor a Paul Freeman, publicada em http://www.cristianocattolico.it/catechesi/etica-e-morale/teologia-politica-un-modo-per-usare-dio-a-sostegno-dell-ideologia-e-della-prepotenza.html .
Reproduzimos a seguir alguns trechos.
A teologia política se activa apenas em função de um adversário, de um
inimigo. Nisto, Carl Schmitt, o teórico da teologia política do século
XX, está muito certo. Não há uso político da religião se não há
inimigos. É o que foi visto depois de 1989: a era da globalização, uma
vez derrotado o comunismo, não precisa mais da consagração religiosa. O
capitalismo dos anos 1980 e 1990 não sabe o que fazer com a religião.
Ela volta a calhar depois de 11 de Setembro de 2001, com o choque de
civilizações que dividiria o Ocidente do islamismo radical. A desastrosa
guerra no Iraque é um marco da crise, pelo menos no Ocidente, a partir
desta perspectiva. Hoje, a Europa não é dominada por teologias
políticas, mas por um niilismo generalizado que tem sérias dúvidas sobre
o próprio futuro. O drama consiste em não se saber opor nada às
teologias políticas que provocam o derramamento de sangue no Oriente
Médio e no Norte da África, além do próprio cepticismo.
A teologia política não representa um ramo da teologia. Ela é uma
forma de secularização, isto é, de mundanização da fé. A confusão
decorre do fato de que não se distingue, habitualmente, entre a teologia
política e a teologia da política. A teologia da
política implica a transcendência do momento teológico sobre o momento
político; ela lida com a dimensão política em função do bem da civitas.
É uma relação indirecta. A Igreja não intervém directamente na política,
no Estado. Ela opera através de uma mediação ética, jurídica, sem a
pretensão de que as leis civis coincidam totalmente com a ética cristã. A
teologia política, pelo contrário, actua directamente. Ela precisa do
poder para ser. E isto ocorre tanto na sua versão de direita, em que a
Igreja se torna Igreja de Estado e o Estado se torna confessional,
quanto na de esquerda, em que a Igreja se torna, como em Metz, o sujeito
perenemente "crítico" das instituições mundanas, uma espécie da
contra-poder permanente. [ ... ]
A graça é o verdadeiro contra-poder. Por isso, o seu fruto é a humilitas.
A escolha inédita do papa Bento, de renunciar ao pontificado, assume,
deste ponto de vista, o valor de marcar época. Bento XVI é o papa que
iniciou o seu pontificado com o mandado de opor-se à sujeira na Igreja,
isto é, à mundanização e burocratização que caracterizou a vida na
Igreja ao longo dos últimos trinta anos. A teologia política, neste
caso, significava clericalismo, uso inescrupuloso do poder em função de
carreiras. É aqui que se encontra o fio condutor que, superando a
diversidade dos estilos, une o pontificado de Bento XVI ao de Francisco.
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