Homilia do Santo Padre em Tacoblan pronunciada sábado 17 de Janeiro
Roma, 18 de Janeiro de 2015 (Zenit.org)
Apesar da ameaça de tempestade na cidade de Tacloban, nas
Filipinas, o Papa Francisco dirigiu-se à cidade para presidir a Missa
com os fiéis que o aguardavam neste sábado, 17 de Janeiro. Apresentamos a
homilia na íntegra:
Ouvimos, na primeira Leitura, que temos um grande sacerdote que é
capaz de Se compadecer das nossas fraquezas, pois Ele mesmo foi provado
em todas as coisas, excepto no pecado (cf. Heb 4, 15). Jesus é
como nós. Jesus viveu como nós. É igual a nós em tudo; em tudo, excepto
no pecado, porque Ele não era pecador. Mas, para ser mais igual a nós,
revestiu-Se, tomou sobre Si os nossos pecados. Fez-Se pecado (cf. 2 Cor 5,
21): é São Paulo quem no-lo diz e ele conhecia Jesus muito bem. E Jesus
sempre nos precede: quando nós passamos através de alguma cruz, Ele já
passou antes.
E, se hoje nos encontramos todos nós reunidos aqui, 14 meses depois
de ter passado o tufão Yolanda, é porque temos a certeza de que não
seremos desiludidos na fé, porque Jesus passou antes. Na sua paixão,
tomou sobre Si todos os nossos sofrimentos. E quando – deixai que vos
faça uma confidência – quando de Roma vi esta catástrofe, senti que
devia vir aqui. Naqueles dias, decidi viajar até aqui. Quis vir estar
convosco. Um pouco tarde: dir-me-eis. É verdade, mas estou aqui.
Estou aqui para vos dizer que Jesus é o Senhor, que Jesus não
desilude. «Padre – pode dizer-me um de vós -, a mim desiludiu-me porque
perdi a casa, perdi a família, perdi aquilo que tinha, estou doente...».
É verdade isto que me dizes, e eu respeito os teus sentimentos; mas
olho para Ele ali pregado, e dali não nos desilude. Ele foi consagrado
Senhor naquele trono, e lá passou por todas as calamidades que nós
temos. Jesus é o Senhor! E é o Senhor a partir da Cruz; lá reinou! Por
isso, Ele é capaz de compreender-nos, como ouvimos na primeira Leitura:
fez-Se em tudo igual a nós. Por isso, temos um Senhor que é capaz de
chorar connosco, é capaz de nos acompanhar nos momentos mais difíceis da
vida.
Muitos de vós perderam tudo. Eu não sei o que dizer-vos. Mas Ele sim;
Ele sabe o que dizer-vos! Muitos de vós perderam parte da família. Eu
sei apenas permanecer em silêncio, acompanho-vos com o meu coração em
silêncio... Muitos de vós se puseram esta pergunta olhando para Cristo:
«Porquê Senhor?». E o Senhor responde a cada um a partir do seu coração.
Eu não tenho outras palavras, para vos dizer. Olhemos para Cristo: Ele é
o Senhor e Ele compreende-nos, porque passou por todas as provas que
nos atingiram.
E, junto d’Ele crucificado, estava a Mãe. Nós somos como a criança
que está no chão: nos momentos de aflição, de pena, nos momentos em que
não compreendemos nada, nos momentos em que temos vontade de nos
rebelar, só nos apetece estender a mão e agarrar-nos ao seu avental e
dizer-Lhe: «Mamã!» Como uma criança que, quando tem medo, diz: «Mamã!» É
talvez a única palavra que pode exprimir o que sentimos nos momentos
escuros: «Mãe! Mamã!».
Façamos, juntos, um momento de silêncio. Olhemos para o Senhor: Ele
pode compreender-nos, porque passou por todas estas coisas. E olhemos
para a nossa Mãe, e como a criança que está no chão agarremo-nos ao seu
avental e, com o coração, digamos-Lhe: «Mãe». Façamos, em silêncio, esta
oração; cada um diga-Lhe o que sente. [silêncio]
Não estamos sozinhos, temos uma Mãe. Temos Jesus, nosso irmão mais
velho. Não estamos sozinhos. Temos também tantos irmãos que, no momento
da catástrofe, vieram ajudar-nos. E também nós nos sentimos mais irmãos,
ajudando-nos, porque nos ajudámos uns aos outros.
Isto é tudo o que me ocorre dizer-vos. Perdoai-me se não tenho outras
palavras. Mas tende a certeza que Jesus não desilude. Tende a certeza
que o amor e a ternura da nossa Mãe não desiludem. E, agarrados a Ela
como filhos e com a força que nos dá Jesus, nosso irmão mais velho,
vamos para diante. Caminhemos como irmãos. Obrigado.
Depois da Comunhão
Celebrámos a paixão, a morte e a ressurreição de Cristo.
Jesus precedeu-nos neste caminho e acompanha-nos sempre que nos reunimos para rezar e celebrar.
Obrigado, Senhor, por estardes connosco hoje. Obrigado, Senhor, por
compartilhardes os nossos sofrimentos. Obrigado, Senhor, por nos dardes
esperança. Obrigado, Senhor, pela vossa grande misericórdia. Obrigado,
Senhor, porque quisestes ser como um de nós. Obrigado, Senhor, porque
estais sempre junto de nós, mesmo nos momentos de cruz. Obrigado,
Senhor, porque nos dais a esperança. Senhor, que não nos roubem a
esperança! Obrigado, Senhor, porque na cruz, no momento mais escuro da
vossa vida, Vos lembrastes de nós e nos deixastes uma Mãe. Obrigado,
Senhor, por não nos terdes deixado órfãos.
Que belas palavras de consolação acabámos de ouvir! Uma vez mais
foi-nos dito que Jesus Cristo é o Filho de Deus, o nosso Salvador, o
nosso Sumo Sacerdote que nos oferece misericórdia, graça e apoio em tudo
o que precisamos (cf. Heb 4, 14-16). Cura as nossas feridas,
perdoa os nossos pecados e chama-nos para sermos seus discípulos, como
fez com São Mateus (cf. Mc 2, 14). Louvemo-Lo pelo seu amor, a sua misericórdia e a sua compaixão. Louvemos o nosso grande Deus!
Dou graças ao Senhor Jesus por podermos estar juntos nesta manhã. Vim
para estar convosco, nesta cidade que, há catorze meses, foi devastada
pelo tufão Yolanda. Trago-vos o amor de um pai, as orações da Igreja
inteira, a promessa de que não estais esquecidos enquanto procedeis à
reconstrução. Aqui a tempestade mais forte de quantas já registadas no
planeta foi vencida pela força mais poderosa do universo: o amor de
Deus. Estamos aqui, nesta manhã, para dar testemunho deste amor, do seu
poder de transformar morte e destruição em vida e comunidade. A
ressurreição de Cristo, que celebramos nesta Missa, é a nossa esperança e
uma realidade que experimentamos mesmo agora. E sabemos que a
ressurreição só ocorre depois da cruz, aquela cruz que vós carregastes
com fé, dignidade e força dada por Deus.
Estamos aqui congregados, antes de mais nada, para rezar por aqueles
que morreram, por quantos ainda estão desaparecidos e pelos feridos.
Elevemos a Deus as almas dos mortos, as nossas mães, os nossos pais,
filhos e filhas, família, amigos e vizinhos. Temos confiança de que
eles, tendo chegado à presença de Deus, encontraram misericórdia e paz
(cf. Heb 4, 16). Mas resta muita tristeza por causa da sua
ausência. Para vós que os conhecestes e amastes – e que ainda os amais
–, a dor por tê-los perdido é real. Mas, contemplemos o futuro com os
olhos da fé. A nossa tristeza é uma semente que um dia desabrochará na
alegria que o Senhor prometeu a quantos acreditam nas suas palavras:
«Felizes os que choram, porque serão consolados» (Mt 5, 4).
Além disso estamos aqui hoje congregados para dar graças a Deus pelo
seu auxílio em tempo de necessidade. Ele foi a nossa força nestes meses
verdadeiramente difíceis. Perderam-se tantas vidas, houve tanto
sofrimento e destruição. E, no entanto, ainda somos capazes de nos
reunir para Lhe agradecer. Sabemos que Deus cuida de nós; sabemos que em
Jesus, seu Filho, temos um sumo sacerdote capaz de Se compadecer da
nossa dor (cf. Heb 4, 15) e sofrer connosco. A com-paixão de
Deus, o seu sofrer juntamente connosco, dá um significado e um valor
eternos aos nossos esforços. O vosso desejo de Lhe agradecer por todas
as graças e bênçãos, mesmo quando perdestes assim tanto, não é apenas um
triunfo da capacidade de recuperação e da força do povo filipino; mas é
também um sinal da bondade de Deus, da sua proximidade, da sua ternura,
do seu poder salvífico.
Demos graças ao Deus Altíssimo também por tudo o que se fez para
ajudar, reconstruir, prestar assistência nestes meses de necessidade sem
precedentes. Penso em primeiro lugar naqueles que acolheram e deram
guarida ao grande número de famílias deslocadas, aos idosos, à
juventude. Como é duro deixar a própria casa e os meios próprios de
subsistência! Agradecemos a quantos se ocuparam dos desabrigados, dos
órfãos e dos desamparados. Sacerdotes, religiosos e religiosas que deram
tudo o que podiam. A quantos de vós deram hospedagem e alimento às
pessoas em busca de segurança nas igrejas, conventos, casas paroquiais e
continuam a assistir aqueles que estão ainda em dificuldade, eu vos
agradeço. Sois uma honra para a Igreja, sois o orgulho da vossa nação.
Eu agradeço pessoalmente a cada um de vós, pois tudo o que fizestes pelo
último dos irmãos e irmãs de Cristo, foi feito a Ele (cf. Mt 25, 40).
Nesta Missa, queremos também agradecer a Deus pelos bons homens e
mulheres que prestaram serviço como operadores de salvamento e
socorristas. Agradecemos a Ele pelas inúmeras pessoas de todo o mundo
que ofereceram generosamente o seu tempo, dinheiro e bens. Estados,
organizações e pessoas individuais de toda a terra colocaram em primeiro
lugar os necessitados; trata-se de um exemplo que deveria ser seguido.
Peço aos líderes de governo, às agências internacionais, aos benfeitores
e às pessoas de boa vontade que não se cansem. Resta ainda tanto por
fazer. Embora as primeiras páginas dos noticiários tenham mudado, as
necessidades permanecem.
A primeira leitura de hoje, tirada da Carta aos Hebreus, incita-nos a
permanecer firmes na nossa confissão, a perseverar na fé, a
aproximar-nos com confiança do trono da graça de Deus (cf. Heb 4,
16). Estas palavras ganham uma ressonância especial neste lugar: no
meio de tanto sofrimento, não cessastes jamais de confessar a vitória da
cruz, o triunfo do amor de Deus. Vistes a força deste amor revelada na
generosidade de muitíssimas pessoas, em inúmeros pequenos milagres de
bondade. Mas constatastes também, nomeadamente na depredação, nas
pilhagens e na falta de respostas a este grande drama humano, tantos
trágicos sinais do mal, do qual Cristo nos vem salvar. Rezamos para que
isto nos leve a uma maior confiança no poder que tem a graça de Deus de
vencer o pecado e o egoísmo. Rezamos de modo particular para que cada um
se torne cada vez mais sensível ao grito dos nossos irmãos e irmãs
necessitados. Rezamos para que nos leve a rejeitar todas as formas de
injustiça e corrupção, que, ao roubar aos pobres, envenenam as próprias
raízes da sociedade.
Amados irmãos e irmãs, nesta grande provação sentistes de uma maneira
especial a graça de Deus, através da presença e amorosa solicitude da
Bem-aventurada Virgem Maria, Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. É a
nossa mãe. Que Ela vos ajude a perseverar na fé e na esperança e a ir
ter com quantos estão necessitados. Com São Lorenzo Ruiz, São Pedro
Calungsod e todos os Santos, que Ela continue a implorar de Deus a sua
misericórdia e amorosa compaixão para este país e para todos os amados
filipinos. Amen.
© Copyright - Libreria Editrice Vaticana
(18 de Janeiro de 2015) © Innovative Media Inc.
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