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terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Quebras da confiança

1. Rupturas ou acidentes de caminho?
Na última nota abordei a necessidade de restabelecer a confiança em todas as relações, para que a paz e o progresso sejam possíveis. Mas logo acontecem os actos de terrorismo em França e continuam em muitos outros continentes, mas sem o mesmo frenesim mediático. Tratar-se-á de rupturas que impossibilitam o restabelecimento da confiança ou simplesmente de acidentes de percurso, que vem fortalecer os construtores da paz?

No evangelho Jesus proclama felizes os construtores da paz, porque alcançarão o Reino de Deus. Apesar disso os seus seguidores têm sentido muitas dificuldades em seguir esse caminho e muitos foram e são vítimas de violência. Penso nos mártires ao longo dos séculos, mas também nos de hoje, em muitas partes do mundo. No entanto, são estas vítimas que vão mudando as mentalidades e atitudes, fazendo ver e crer que nunca haverá paz imposta pelo medo das armas e da violência, mas somente pelo dom da vida, o perdão e o amor, mesmo aos inimigos, como proclama Jesus. Os milhões de pessoas que saíram à rua para dizer não à violência e sim à liberdade de expressão e de religião dão força a estes valores fundamentais das sociedades democráticas.

Mas a liberdade de pensar, de expressão e de acção não são valores absolutos, isolados de tantos outros também importantes, como o respeito pela dignidade das pessoas, com as suas opiniões e crenças, o seu direito a ser tratadas com igualdade e como irmãos. Em nenhum caso podemos fazer justiça pelas próprias mãos ou tirar a vida a quem nos ofende. No entanto, as autoridades devem estar atentas e não permitir que os seus cidadãos, sejam maioria ou minoria, sejam maltratados ou difamados. O código moral dos cristãos é claro sobre como proceder. Mas quem não tem esses princípios deve respeitar, pelo menos, a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Por isso nem todos somos Charlies nem terroristas, embora sejamos contra todos os actos de violência.

No meio das manifestações de solidariedade para com todas as vítimas, temos de fazer o nosso exame de consciência, pessoal e colectivo, e bater com a mão no peito, pois todos temos culpas nas situações de violência que vão acontecendo no nosso planeta. A exploração de pessoas e povos, as desigualdades crescentes, a corrupção e o enriquecimento ilícito, as injustiças, o desemprego, o esbanjamento, o desrespeito pelas convicções étnicas e religiosas das pessoas, tudo isso cria ambientes de racismo e xenofobia, que fomenta a desconfiança e a violência. E nisto são tão culpados os fundamentalistas religiosos como os ideólogos ateus militantes, os indiferentes perante o mal do próximo e os que apenas falam mal dos outros e nada fazem para construir a paz.

2. O dom da fraternidade verdadeira

Com a celebração do Baptismo de Jesus por João Baptista terminou a quadra festiva de Natal e Jesus deu início à sua vida pública, anunciando o Reino de Deus. Jesus colocou-se na fila dos pecadores para receber o baptismo de João e santificar as águas, para que por elas e pelo Espírito Santo pudéssemos renascer, ou seja, nascer de novo, para vivermos nas pegadas de Jesus Cristo. Este nascimento é um dom da fé através da mediação da Igreja. No Baptismo pedimos à Igreja a vida eterna, ou seja, uma vida onde já não é o homem mortal do pecado que reina, mas Jesus Cristo com o seu Espírito. Este renascimento é um dom, mas é preciso deixar crescer a criança nova em nós, não apenas em estatura, mas também em sabedoria e graça, ao modo de Jesus, que passou no mundo fazendo o bem, perdoando, ensinando e entregando a vida por todos.

No Baptismo nasce o homem para a fraternidade universal, mas precisa de alimento para percorrer o caminho até à maturidade. O essencial desse alimento também é dom através da comunidade dos discípulos de Jesus, pois falta-nos a capacidade para nos auto-abastecermos. Na génese do homem novo há sempre essa colaboração entre o humano e o divino. As misturas feitas só a partir de nós mesmos tornam-se remédios sem simbiose dos elementos. Não têm energia para nos fazer crescer até à maturidade do homem segundo Jesus Cristo. Um simples voluntarismo ou moralismo não fomentam o homem fraterno ao modo de Jesus, livre e alegre na entrega de si mesmo para libertação do egoísmo, que faz secar a seiva da vida e da relação fraterna entre todos.

Estes pensamentos sobre o baptismo como raiz da vida nova de relações fraternas, baseadas no amor, que nos liberta do medo, da opressão e da tristeza surgem ao ver tantos milhões a marchar contra a violência, o terrorismo e pela liberdade de expressão e de religião. Isso é importante, mas creio que ficamos a meio caminho, se não renascermos para o ideal de homem que ama, perdoa e reza pelo seu inimigo, que se põe ao serviço, sobretudo dos mais frágeis, como o fez Jesus Cristo. Neste mundo de senhores, de desiguais, de acepção de pessoas, de injustiças, de corrupção, de indiferença perante o sofrimento de muitos milhões, de opressão e escravidão, será difícil eliminar a violência. Por isso é bom acordar e começar a caminhar. Mas não tenhamos ilusões. Temos um longo caminho a percorrer. Precisamos de alimentar a esperança, acolhendo com docilidade e gratidão os dons que a fé nos transmite.

† António Vitalino, Bispo de Beja

Nota semanal em áudio:




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