Actualizado 2 de Novembro de 2014
C.L. / ReL
C.L. / ReL
| The Boss revela-se como um leitor apaixonado, variado e profundo. |
A página literária do The New York Times está consagrada este fim-de-semana a uma detalhada entrevista a Bruce Springsteen sobre os seus gostos literários, que incluem clássicos como Herman Melville (acaba de terminar Moby Dick), Gabriel García Márquez, os grandes russos (Anton Chejov, León Tolstoi, Fiodor Dostoievski) ou William Faulkner e autores da literatura norte-americana actual como Richard Ford, Cormac McCarthy ou Philip Roth.
Revela-se como um leitor empedernido e com muito critério, ainda que aos seus 65 anos confessa que não começou a ler "seriamente" até que cumpriu os 28 ou 29, porque antes fugia das aulas e depois começou como "um músico de estrada": "Então chegaram Flannery O´Connor, James M. Cain, John Cheever, Sherwood Anderson e Jim Thompson. Estes autores contribuíram enormemente na volta que empreendeu a minha música por volta de 1978-1982".
É chamativa a presença, como primeira da lista, de Flannery O´Connor (1925-1964), uma das grandes escritoras católicas do século XX, destacável pela forma problemática e pouco complacente, mas profundamente ortodoxa (escrevia comentários bibliográficos de luxo para dois diários diocesanos da sua Georgina natal), com os quais abordava as questões da existência. (Clica aqui para ver algumas das suas obras publicadas em espanhol.)
Um pouco mais à frente, a implicação de The Boss com Flannery O´Connor acrescenta-se quando responde à pergunta: "Se tivesse que dizer um livro que o fez ser quem você é hoje, qual seria?". Aí Bruce é muito claro: "Um, seria difícil, mas as histórias breves de Flannery O´Connor afectaram-me muito. Nelas podes sentir a incognoscibilidade de Deus, os mistérios intangíveis da vida que confundiam as suas personagens, e com os quais eu, pela minha parte, me encontro diariamente".
Comentando esta entrevista, L´Avvenire, diário dos bispos italianos, encontra esses ecos de Flannery O´Connor num tema concreto de Springsteen, My father´s house [A casa do meu pai], que evocaria a parábola do filho pródigo. Nela, o cantor sonha com o regresso ao lar da sua infância para "sentir-se sacudido nos seus braços": "Despertei e imaginei os confrontos que nos separaram", conta a letra. Mas quando chega de novo à casa, há outra pessoa, uma mulher, que lhe diz que ali já não vive ninguém que responda a esse nome. E a casa fica ali, "fria e solitária", enquanto o cantor "atravessa essa auto-estrada escura na qual os nossos pecados ainda não foram expiados".
Um sonho sobre a culpa e o perdão, sobre o passado e o regresso, sobre as próprias raízes e a origem da dor, que desde logo Flannery O´Connor teria assinado.
Revela-se como um leitor empedernido e com muito critério, ainda que aos seus 65 anos confessa que não começou a ler "seriamente" até que cumpriu os 28 ou 29, porque antes fugia das aulas e depois começou como "um músico de estrada": "Então chegaram Flannery O´Connor, James M. Cain, John Cheever, Sherwood Anderson e Jim Thompson. Estes autores contribuíram enormemente na volta que empreendeu a minha música por volta de 1978-1982".
É chamativa a presença, como primeira da lista, de Flannery O´Connor (1925-1964), uma das grandes escritoras católicas do século XX, destacável pela forma problemática e pouco complacente, mas profundamente ortodoxa (escrevia comentários bibliográficos de luxo para dois diários diocesanos da sua Georgina natal), com os quais abordava as questões da existência. (Clica aqui para ver algumas das suas obras publicadas em espanhol.)
Um pouco mais à frente, a implicação de The Boss com Flannery O´Connor acrescenta-se quando responde à pergunta: "Se tivesse que dizer um livro que o fez ser quem você é hoje, qual seria?". Aí Bruce é muito claro: "Um, seria difícil, mas as histórias breves de Flannery O´Connor afectaram-me muito. Nelas podes sentir a incognoscibilidade de Deus, os mistérios intangíveis da vida que confundiam as suas personagens, e com os quais eu, pela minha parte, me encontro diariamente".
Comentando esta entrevista, L´Avvenire, diário dos bispos italianos, encontra esses ecos de Flannery O´Connor num tema concreto de Springsteen, My father´s house [A casa do meu pai], que evocaria a parábola do filho pródigo. Nela, o cantor sonha com o regresso ao lar da sua infância para "sentir-se sacudido nos seus braços": "Despertei e imaginei os confrontos que nos separaram", conta a letra. Mas quando chega de novo à casa, há outra pessoa, uma mulher, que lhe diz que ali já não vive ninguém que responda a esse nome. E a casa fica ali, "fria e solitária", enquanto o cantor "atravessa essa auto-estrada escura na qual os nossos pecados ainda não foram expiados".
Um sonho sobre a culpa e o perdão, sobre o passado e o regresso, sobre as próprias raízes e a origem da dor, que desde logo Flannery O´Connor teria assinado.
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