1. Pôr-se a caminho e subir
Desde o nascimento até à morte a vida do ser humano é um contínuo estar em saída, trilhando caminhos cuja direcção nem sempre se sabe e muito menos se compreende. Para muitos pensadores a vida não tem sentido, classificando-a até de absurdo, de seres condenados a ser livres, o que torna a própria liberdade um absurdo.
Desde o nascimento até à morte a vida do ser humano é um contínuo estar em saída, trilhando caminhos cuja direcção nem sempre se sabe e muito menos se compreende. Para muitos pensadores a vida não tem sentido, classificando-a até de absurdo, de seres condenados a ser livres, o que torna a própria liberdade um absurdo.
Mas entre o caminhar confiantes e com esperança de chegar a um fim feliz, há muitas experiências de avanços e recuos, entre antevisão alegre da realização plena e escuridão do desânimo da esperança perdida ou pelo menos cimentada de muitas dúvidas.
Essas nuvens adensam-se sobretudo se os nossos objectivos de vida se baseiam apenas no progresso material e os horizontes têm os limites de uma economia de austeridade, de recessão, de montanhas intransponíveis ou de vizinhos que invejam e ameaçam o nosso bem-estar, como podemos constatar no mundo global em que vivemos, mas de portas fechadas para acolher e integrar os outros, sobretudo os mais pobres, no mundo das nossas relações sociais.
Deixo estes breves pensamentos, que cada um pode aprofundar e aplicar à sua existência e ao quadro social e político em que vivemos, para propor uma alternativa proveniente de uma experiência da fé cristã, comprovada pela história, experimentada no presente por muitos que acreditam e ousam projectar a sua vida de acordo com essa fé, caminhando com esperança para um futuro com sentido, de realização plena do ser humano em todas as suas dimensões.
Os cristãos estão a viver e celebrar um tempo forte da sua fé, a Quaresma, um itinerário de quarenta dias até à Páscoa, em que são convidados a fazer a experiência do êxodo, um itinerário de saída de si mesmos, na escuta da Palavra de Deus e no seguimento de Jesus Cristo, que nos convida a subir o monte da revelação do sentido do seu e nosso caminho, não apenas subindo o monte da transfiguração, mas também o monte das Oliveiras e do Calvário, em Jerusalém, onde o sofrimento da Paixão e exaltação na cruz será seguido da experiência da alegria da ressurreição.
É este itinerário que proponho como leitura orante com a celebração da liturgia do segundo domingo da Quaresma.
2. Revelação do sentido no Monte Tabor
A liturgia deste segundo domingo da Quaresma apresenta-nos o desafio de Deus a Abraão para deixar o seu torrão natal e pôr-se a caminho da terra prometida. Fala também do convite de S. Paulo ao seu discípulo Timóteo para não ter medo de sofrer por causa do Evangelho, ou seja, do testemunho da boa nova que é a pessoa e a vida de Jesus. Mas apresenta-nos também o convite de Jesus a três apóstolos de subir com Ele o Monte Tabor, para compreenderem que a continuação do caminho para Jerusalém seria a manifestação do verdadeiro Messias, o Salvador que salva e liberta pela experiência do sofrimento e da morte, um absurdo para os pagãos, para quem não tem fé em Deus, um escândalo para os judeus que apenas acreditavam num Messias glorioso pelo poder e riqueza do mundo, mas glória para os seus verdadeiros discípulos, como escreverá mais tarde o apóstolo Paulo aos Coríntios.
Este contexto do episódio da transfiguração do Monte Tabor é importante, para compreendermos o seu sentido e significado para o nosso caminhar hoje, no subir penoso do monte do desprendimento dos fardos pesados e da experiência da paixão e fascínio por aquele que nos convida a subir. A subida do monte tem um significado forte na história bíblica em que Deus se revela ao seu povo, seja o monte Moriah com Abraão, seja o Monte Sinai com Moisés, o monte Horeb com Elias ou o monte Calvário com Jesus. Mas também na tradição religiosa dos místicos, como em S. João da Cruz com a Subida do Monte Carmelo.
Mas vejamos e apliquemos o que acontece no Monte Tabor. Na versão do Evangelho de S. Lucas diz-se que Jesus subiu ao monte para orar, como em tantos outros momentos significativos da sua vida. E, enquanto orava, os discípulos dormiam, porque estavam cansados. É neste contexto que os discípulos acordam e vêem Jesus transfigurado e rodeado de dois personagens significativos da história bíblica, Moisés e Elias, símbolos da Lei e dos Profetas, e ouvem a voz de Deus que proclama Jesus o Seu Filho muito amado, a quem devemos escutar e seguir. Isto significa que Jesus é a nova lei e o profeta a quem temos de escutar para chegar à terra prometida.
Mas o que nos diz Jesus e o que faz para lá chegar? Convida os discípulos e a nós, deslumbrados com aquela experiência de luz gloriosa, a ponto de esquecer a realidade, a descer o monte e segui-Lo até Jerusalém, onde se vai manifestar a crueldade do pecado da humanidade, condenando um inocente, mas também o amor até ao extremo de Jesus pelo seu povo, pronto a entregar a vida para o salvar.
Meditando sobre estes acontecimentos do nosso passado da fé, volto o pensamento para o presente, vejo o sofrimento de tantos pobres de bens materiais, sociais e espirituais e pergunto-me: terá sentido tanto sofrimento? É possível evitá-lo ou, pelo menos, aliviá-lo? Como? Qual o papel dos crentes e o meu neste empenho pelo bem do próximo, pelo bem comum?
São muitas as interrogações que me afloram à mente, mas, de repente, olho para as testemunhas da nossa fé, do presente e do passado, sobretudo Jesus Cristo, e vejo que é possível sofrer com os que sofrem, e viver com esperança. Alegres por podermos partilhar e aliviar o sofrimento, sem matar ninguém, mas dando a vida pelos outros. São estas vidas que têm sentido e dão esperança a um mundo coberto de densas nuvens. Por isso sinto que vale a pena continuar o nosso caminho quaresmal, escutando Jesus e seguindo-O, pois Ele é verdadeiramente o Caminho, a Verdade e a Vida e quer que tenhamos a vida em abundância, a vida plena, não apenas a vida do bem-estar material, que não tem sentido fechada em si mesma, mas só aberta aos outros e a Deus, que dá a plenitude do sentido da vida humana.
† António Vitalino, Bispo de Beja
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