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sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Uma família com 3 meninas muda-se para evangelizar um bairro pobre muçulmano de Marselha

Com água benta reparam o elevador! 

Um menino com uma planta verde, sinal de esperança nos bairros HLM, cinzentos, sujos, empobrecidos, envelhecidos
Actualizado 26 de Novembro de 2014

Eugénie Bastié/FigaroVox

Em Ceux du 11ème étage (Os do décimo primeiro andar, ndt), uma família católica conta a sua experiência: viver três anos num bairro de alugueres baixos no norte de Marselha, para pôr-se ao serviço dos mais pobres. É um testemunho cheio de lucidez e de esperança.

«Vós sois franceses; normalmente, as pessoas como vós vive em moradias!»: com estas palavras foram acolhidos Amaury, Marie-Alix e as suas três filhas nos bairros do norte de Marselha, onde eles escolheram viver durante três anos numa cidade HLM [siglas para Habitation à Loyer Modéré – Habitação de Renda Limitada. Sistema de habitações privadas ou públicas com alugueres baixos em França e também na Suíça, ndt].

Um pouco como Simone Weil, que ia às fábricas para falar de Sófocles aos operários e para viver na sua carne o sofrimento da sua condição; um pouco como Cristo, que veio à terra para partilhar a finitude do homem, eles foram às zonas estragadas da França contemporânea para ir ao encontro dos pobres «entre nós».

Ali se os conhece como os «franceses do décimo primeiro andar». Destacam pelo seu catolicismo, os caracóis loiros das suas filhas, a sua rejeição a ter televisão e esse absurdo desejo de ir deliberadamente ao inferno.

No meio do bairro, no meio de cubos de lixo atirados pelas janelas e de carros que se queimam por nada, «tão inúteis como Maria aos pés da cruz», eles escolheram ir ao encontro do outro para «tecer vínculos de amizade e pôr-se ao serviço das famílias em dificuldade».

Famílias estragadas por matrimónios arranjados onde o ecrã da TV substitui a vida comum, atravessadas pela espiral infernal assistência-consumismo.

Anciãos, da primeira geração, admitem descaradamente que votam em Marine Le Pen porque «temos trabalhado por este país que nos trata como menos que nada enquanto apoia pessoas que chegam do mundo inteiro e que nunca fez nada».

Jovens, uns drogados pelos videojogos, violentos, agressivos e obtusos, aos quais nada os afecta.

Outros, que se encerram num islão rigoroso para escapar à fealdade, mas com os quais é possível pelo menos falar de Deus.

Porque no coração do betão sem ideais «é com os nossos irmãos muçulmanos com os quais nós temos as mais belas discussões de ordem espiritual, o que dá à relação uma profundidade muito mais importante que com pessoas que não crêem em nada», declara Amaury Guillem.

Tem, sem dúvida alguma, uma certa ingenuidade comovedora, que também pode exasperar. A água benta, empregada para deitar aos camelos e reparar o elevador. Um certo carácter angelical: «Vês, os pequenos anjos aos quais rezamos cada manhã para que velem sobre nós, protegem-nos» disse Amaury à sua filha no meio das pedras que os adolescentes do bairro lançam por cima das suas cabeças.

Às vezes até quase caem mal por ter-se metido nesta bagunça feita de elevadores estropeados, urina nas escadas e insultos diários.

Mas há também pequenos milagres, resultado do trabalho subterrâneo levado a cabo pela perseverança.

Rita, imigrante italiana da primeira geração que volta a rezar o rosário.

Sabri, jovem árabe que abandona a rua e decide voltar ao colégio depois do seu baptismo.

Esses jovens muçulmanos que se vão de colónias e se reconciliam com a natureza e a simplicidade, mudando a violência pelo silêncio.

«Porquê enquanto 20 jovens franceses vão ao outro lado do mundo para ajudar as pessoas, só 1 ou 2 escolhem ficar para servir os pobres do nosso país?» pergunta-se no final do livro Amaury.

«As periferias morrem por falta de amor», atreve-se a dizer ele com uma constatação que faria empalidecer sociólogos profissionais.

Mas este livro não é um livro sociológico. É por isto que está cheio de esperança.

«Há que dizer alto e claro que esta escolha de ir viver num HLM é uma fonte de alegria».

É um testemunho, um convite a voltar a encontrar a radicalidade da mensagem cristã.

«Se nós pudéssemos dispor de algum meio para detectar a esperança, como o zahorí descobre a água subterrânea, aproximando-nos dos pobres veríamos torcer-se entre os nossos dedos a vareta de avelã» escreveu Bernanos, que Amaury Guillem cita no final do livro.

Quando chegámos ao final das 200 páginas deste ardente testemunho que tem a pureza do Evangelho não pudemos evitar a admiração. Tampouco a vergonha. Porque temos vontade de dizer-nos as palavras de Bernanos aos cristãos a propósito de São Francisco de Assis: «Vós o haveis aplaudido: vós deverias tê-lo seguido!».

Eugénie Bastié é jornalista de Le Figaro. Também escreve para a revista Causeur

(Tradução para espanhol de Helena Faccia Serrano, Alcalá de Henares)


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