Este pároco recebe o prémio de Human Rights Watch
| O padre Bernard Kinvi, dos religiosos de São Camilo, fez juramento de cuidar enfermos, sejam da guerrilha que sejam |
Actualizado 27 de Novembro de 2014
Leone Grotti/Tempi.it
Um sacerdote católico que arrisca a sua vida para salvar a de centenas de muçulmanos é uma notícia. Sobretudo se sucede na República Centro-africana, onde até há uns meses os rebeldes islamitas Seleka, frequentemente apoiados pela população muçulmana local, davam a caça aos cristãos.
Mas depois foram eles que foram caçados pelas milícias anti-balaka.
O padre Bernard Kinvi, sacerdote de 32 anos de Bossemptele, não dividiu nunca a sua população segundo o esquema perseguidor/perseguido, pois sabe quão fácil é passar de uma categoria à outra.
Assim, quando um homem cheio de amuletos no pescoço parou diante da sua missão em Janeiro pedindo-lhe que o seguisse se queria salvar a vida de um muçulmano, não o duvidou.
O padre Kinvi sabia que os anti-balaka, milícias na sua maioria animistas, odeiam os muçulmanos mas não poupam sofrimento tampouco aos cristãos.
«Disse-lhe que sim e subi na sua moto», declara o sacerdote a The Guardian. «Rezei durante toda a viagem. Nunca rezei tanto. Quando chegámos à aldeia, um menino gritou: “Já morreu”. Tinha chegado demasiado tarde, não consegui salvá-lo».
Nos meses seguintes a situação não melhorou.
Os anti-balaka começaram a vingar-se dos abusos passados matando dezenas de muçulmanos.
O padre Kinvi respondeu à violência abrindo as portas da sua missão situada na cidade, no noroeste do país, aos muçulmanos.
Os anti-balaka começaram a ameaçá-lo todos os dias: não entendiam porque um católico defendia os muçulmanos.
Leone Grotti/Tempi.it
Um sacerdote católico que arrisca a sua vida para salvar a de centenas de muçulmanos é uma notícia. Sobretudo se sucede na República Centro-africana, onde até há uns meses os rebeldes islamitas Seleka, frequentemente apoiados pela população muçulmana local, davam a caça aos cristãos.
Mas depois foram eles que foram caçados pelas milícias anti-balaka.
O padre Bernard Kinvi, sacerdote de 32 anos de Bossemptele, não dividiu nunca a sua população segundo o esquema perseguidor/perseguido, pois sabe quão fácil é passar de uma categoria à outra.
Assim, quando um homem cheio de amuletos no pescoço parou diante da sua missão em Janeiro pedindo-lhe que o seguisse se queria salvar a vida de um muçulmano, não o duvidou.
O padre Kinvi sabia que os anti-balaka, milícias na sua maioria animistas, odeiam os muçulmanos mas não poupam sofrimento tampouco aos cristãos.
«Disse-lhe que sim e subi na sua moto», declara o sacerdote a The Guardian. «Rezei durante toda a viagem. Nunca rezei tanto. Quando chegámos à aldeia, um menino gritou: “Já morreu”. Tinha chegado demasiado tarde, não consegui salvá-lo».
Nos meses seguintes a situação não melhorou.
Os anti-balaka começaram a vingar-se dos abusos passados matando dezenas de muçulmanos.
O padre Kinvi respondeu à violência abrindo as portas da sua missão situada na cidade, no noroeste do país, aos muçulmanos.
Os anti-balaka começaram a ameaçá-lo todos os dias: não entendiam porque um católico defendia os muçulmanos.
«Não foi uma decisão, simplesmente sucedeu. Como sacerdote, não posso apoiar que se mate um homem. Todos somos seres humanos: a religião não conta. Se também um anti-balaka viesse aqui e estivesse ferido, eu curá-lo-ia. Não me importa quem é, qual é a sua religião e que fez na sua vida. É um homem e eu o curo».
O padre Kinvi protegeu 1.500 muçulmanos. Aos que não conseguia defender, enterrava-os.
«Quando caminhava pela rua, os anti-balaka vinham dizer-me: nós fazemos o nosso trabalho, padre, e tu fazes o teu. Nós matamo-los e tu enterra-os».
Mês após mês, o padre Kinvi conseguiu transferir todos os muçulmanos que necessitavam deixar o país para o Camarões, onde estariam a salvo.
Fê-lo com a ajuda dos mesmos anti-balaka, «contagiados» de algum modo pelo seu comportamento.
«Estive semanas curando os anti-balaka. Um dia tinha que evacuar uns refugiados: um grupo de pessoas ajudou-me a subi-los para uns camiões. Muitos tinham talismãs no pescoço. Eram milicianos, mas nesse dia ajudaram-me».
Também os cristãos de Bossemptele foram contagiados pelo comportamento do padre Kinvi.
«No princípio os anti-balaka matavam todos os muçulmanos, um a um. Mas depois a gente começou a protegê-los e também eles deixaram de matá-los. Trouxeram-me muitos muçulmanos para que os defendesse e muitos cristãos esconderam-nos nas suas casas», arriscando as suas vidas.
Os esforços do sacerdote camiliano foram reconhecidos este ano por Human Rights Watch, que lhe outorgou o prémio Alison Des Forges.
O reconhecimento é entregue a «homens de valor que põe em risco as suas vidas para livrar o mundo de abusos, discriminação e opressão».
O padre Kinvi protegeu 1.500 muçulmanos. Aos que não conseguia defender, enterrava-os.
«Quando caminhava pela rua, os anti-balaka vinham dizer-me: nós fazemos o nosso trabalho, padre, e tu fazes o teu. Nós matamo-los e tu enterra-os».
Mês após mês, o padre Kinvi conseguiu transferir todos os muçulmanos que necessitavam deixar o país para o Camarões, onde estariam a salvo.
Fê-lo com a ajuda dos mesmos anti-balaka, «contagiados» de algum modo pelo seu comportamento.
«Estive semanas curando os anti-balaka. Um dia tinha que evacuar uns refugiados: um grupo de pessoas ajudou-me a subi-los para uns camiões. Muitos tinham talismãs no pescoço. Eram milicianos, mas nesse dia ajudaram-me».
Também os cristãos de Bossemptele foram contagiados pelo comportamento do padre Kinvi.
«No princípio os anti-balaka matavam todos os muçulmanos, um a um. Mas depois a gente começou a protegê-los e também eles deixaram de matá-los. Trouxeram-me muitos muçulmanos para que os defendesse e muitos cristãos esconderam-nos nas suas casas», arriscando as suas vidas.
Os esforços do sacerdote camiliano foram reconhecidos este ano por Human Rights Watch, que lhe outorgou o prémio Alison Des Forges.
O reconhecimento é entregue a «homens de valor que põe em risco as suas vidas para livrar o mundo de abusos, discriminação e opressão».
O padre Kinvi não fez o que fez para obter um prémio, mas sim para responder à sua vocação.
De facto, ele conta que não dormiu durante meses, por terror a que os anti-balaka entrassem na sua missão. Uma experiência que lhe fez entender o que significa ser sacerdote.
«Quando me ordenei sacerdote, prometi servir os enfermos à custa de por a minha vida em perigo. Disse-o, mas não sabia realmente o que significava. Sem dúvida, quando chegou a guerra entendi bem o que significa arriscar a vida. Ser um sacerdote não é só bendizer. É muito mais: significa estar ao lado daqueles que perderam tudo».
(Tradução para espanhol de Tempi.it de Helena Faccia Serrano, Alcalá de Henares)
De facto, ele conta que não dormiu durante meses, por terror a que os anti-balaka entrassem na sua missão. Uma experiência que lhe fez entender o que significa ser sacerdote.
«Quando me ordenei sacerdote, prometi servir os enfermos à custa de por a minha vida em perigo. Disse-o, mas não sabia realmente o que significava. Sem dúvida, quando chegou a guerra entendi bem o que significa arriscar a vida. Ser um sacerdote não é só bendizer. É muito mais: significa estar ao lado daqueles que perderam tudo».
(Tradução para espanhol de Tempi.it de Helena Faccia Serrano, Alcalá de Henares)
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