Páginas

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Porque em Espanha e Itália há menos suicídios que na Europa nórdica? Talvez seja o catolicismo

Islândia ou Suécia duplicam a Espanha... E a fé influi 

As mulheres tendem a suicidar-se com fármacos, os homens com actos violentos...
A religiosidade católica parece proteger mais do suicídio

Actualizado 6 de Novembro de 2014

José Ángel Antonio/ReL

O suicídio provoca em Espanha mais mortes que os acidentes de tráfico, os laborais e os homicídios ou assassinatos juntos. O professor da Universidade do País Basco Enrique Echeburúa apresentou alguns dados há poucos meses num congresso internacional da Sociedade Espanhola para o Estudo da Ansiedade e o Stress (SEAS) em Valência.

Em 2012 em Espanha registaram-se 3.539 suicídios consumados, 77% de homens, enquanto os homicídios ou assassinatos provocam entre 1.000 e 1.500 mortes anuais, os acidentes de carro uns 1.300 e os acidentes laborais perto de 550 em 2013.

As cifras de suicídio pode ser que estejam subestimadas: mortes que se contabilizam como acidentes de tráfico ou laborais, certas sobredoses ou afogamentos, poderiam ser também suicídios.

Em Espanha há campanhas institucionais contra os acidentes de tráfico e laborais, a Polícia combate os homicídios... Mas não há nada contra o suicídio.

Echeburúa explicou na sua exposição que "a crise influi pouco no suicídio desde um ponto de vista macrossocial", indica, com uma cifra de suicídios consumados "relativamente estável" entre 2.500 e 4.500 anuais em Espanha.

A influência religiosa na estatística
No mundo observam-se grandes diferenças: há uns 800.000 suicídios anuais; os países ex-soviéticos, onde a religião foi perseguida entre 40 e 70 anos, tem as taxas mais altas de suicídio.

Entre os países com menos suicídio estão Espanha e Itália, de cultura e tradição católica e ainda de bastante prática religiosa (24% da população vai ao templo pelo menos algumas vezes ao mês em Espanha segundo o CIS de Outubro de 2014; parece pouco, pouco em países nórdicos, de hegemonia protestante, a cifra de assistência ao templo nunca passa de 10%).

Segundo a OMS, em 2012, países de cultura protestante e quase sem católicos, mas com boa situação económica, mostravam uma taxa alta de suicídios (15,1 cada 100.000 habitantes na Islândia; 13,2 na Suécia; 11,2 na Dinamarca); na Espanha da crise e os despejos, era de 7,1.

É certo que países de cultura católica do norte mostravam uma taxa alta de suicídios (Irlanda, 11,5; Polónia, 20,5) mas a Irlanda estava sofrendo os efeitos da crise e arrasta feridas espirituais importantes, enquanto a Polónia sofre problemas de alcoolismo e restos da influência soviética. 

Estudos sobre "o efeito católico"
Lucas Giner, da Sociedade Espanhola de Psiquiatria, assinalava em Setembro, ao comentar um relatório global da OMS sobre o suicídio, que "parece que a religiosidade oferece certa protecção, em especial a religião católica. Nesse sentido Espanha e Itália mostram baixas taxas". Além disso, em "países islâmicos, as comunidades cristãs também tem taxas mais baixas", constata.

Giner considera mitos ideias que circularam sempre, de que o clima e as horas de luz protegem do suicídio nos países latinos enquanto o favorecem nos países nórdicos: "Os estudos não mostraram uma relação contundente", assegura. Também assegura que "é um mito que se se fala de suicídio se incita. Isso não é certo. A chave é como se fala disso". O que está claro, segundo o psicólogo é que "em 90% dos suicídios havia enfermidade mental".

O estudo do caso suíço
Uma análise da influência protectora do catolicismo frente ao suicídio, não já sobre a descrença, mas sim inclusive sobre o protestantismo, deu-se a conhecer em 2010, a partir dos dados estudados pelo epidemiólogo Matthias Egger, da Universidade de Berna. Analisaram os dados dos censos de mais de 1,7 milhões de católicos, de mais de 1,5 milhões de protestantes, e de mais de 400.000 indivíduos sem afiliação religiosa alguma, e os compararam com registos de mortalidade em 2005.

Ajustando esta comparação a outros factores sociológicos, como a idade, o estado civil, a educação, o idioma ou o grau de urbanização dos indivíduos analisados, os investigadores constataram que, entre as pessoas religiosas, os católicos apresentavam a taxa mais baixa de suicídios, e os protestantes a mais alta. Mesmo assim, o estudo demonstrou que entre as pessoas não religiosas se dava uma taxa de suicídios mais alta que entre as pessoas religiosas.

Este estudo demonstrou que a religião não parecia proteger as pessoas entre 35 e os 44 anos, mas sim em outras idades. E entre os anciãos de 84 e 95 anos, os protestantes mostraram o dobro da propensão para tentar suicidar-se e os não religiosos o quádruplo de propensão, em comparação com os católicos.

Outro dado é que a religião protege do suicídio mais as mulheres que os homens. São dados da Suíça, país onde o suicídio assistido é legal desde há anos e atrai "turismo suicida" de toda a Europa.

A família é chave
Uma protecção indirecta da fé pode dar-se através da família. Uma família forte, equilibrada, ou pelo menos com parentes próximos e disponíveis (que se dá quando há irmãos, primos, tios, e poucas vezes em países com famílias de um só filho) protege mais contra a solidão e o desespero. As famílias de tradição católica tendem a gerar tudo isso.

Em Espanha os suicidas costumam ter entre 40 e 60 anos de idade, se bem que se registam "picos" de incidência entre os maiores de 60 (37%) e entre aqueles que tem entre 15 e 30 anos (29%). Os métodos escolhidos pelos homens costumam ser mais violentos (forca ou disparos), enquanto entre as mulheres são mais frequentes as tentativas de suicídio com métodos menos agressivos (cortes, gás ou fármacos). No geral, os mais usados são enforcar-se, traumatismos (atropelado, lançamento desde altura, uso de armas brancas ou de fogo) e intoxicações (gás ou fármacos).

Os psicólogos consideram que se dão talvez 10% de suicídios de gente "lúcida", sem transtornos mentais, que calculam que não lhes vale a pena continuar vivendo. 

O suicida não vai necessariamente para o inferno
O Catecismo da Igreja Católica assinala que o suicídio é um acto grave e pode ser um sinal de rebelião radical e afastamento total de Deus. Mas o Catecismo assinala no seu ponto 2283 que “não se deve desesperar da salvação eterna daquelas pessoas que se mataram. Deus pode ter-lhes facilitado por caminhos que só Ele conhece a ocasião de um arrependimento salvador. A Igreja ora pelas pessoas que atentaram contra a sua vida”.

Em declarações à Aciprensa, o padre Guillermo Leguía, professor de teologia moral da Faculdade de Teologia Pontifícia e Civil de Lima (Peru) explica que não é correcto dizer que se uma pessoa se suicida vai para o inferno. “É correcto dizer que o acto de suicidar-se é um acto que está mal, mas ninguém pode fazer um juízo sobre os elementos que ocorrem no coração da pessoa que fazem que esse acto que está mal lhe seja plenamente imputável”. “Ninguém pode conhecer ou saber se o suicídio faz que a pessoa vá para o inferno. Além disso a Igreja não ensina isso”, precisa.

Fernando Chomali, Arcebispo de Concepção (Chile), especialista em bioética e membro da Pontifícia Academia para a Vida, no caso de um suicida é necessário considerar os aspectos psicológicos e psiquiátricos (como temos visto, só 10% das pessoas se suicidaria com fria lucidez mental) assim como o facto de que para todas as pessoas “a misericórdia de Deus é muito grande”. “Penso que há pessoas que chegam a um alto nível de desespero pela enfermidade; e pode ser que a eutanásia ou o homicídio terminem sendo uma ‘resposta’ à grande solidão que sente a pessoa”, comenta a ACI Prensa.

O P. Leguía disse também sobre este caso que “é importante distinguir entre o acto que a Igreja ensina que está mal (suicídio) e o pecador ao qual a Igreja sempre ama com um coração infinito e com uma misericórdia infinita. É bom, saber que às vezes há um conjunto de actos que ainda que estejam mal não são plenamente imputáveis ao actor”.

Fernando Chomali, que publicou este 5 de Novembro uma carta pastoral sobre a eutanásia que em países como o Chile o governo pretende aprovar, afirma que "o corpo não nos pertence, já que tem além disso uma dimensão social e por suposto outra sagrada”. Pede “apoio espiritual, humano e psicológico” para que as pessoas não se suicidem e previne: “é um caminho perigoso o que empreende a sociedade ao ser permissivo com a eutanásia”.

“A Igreja Católica diz não à eutanásia e à fúria terapêutica, e diz sim aos cuidados paliativos; e sobretudo se há muito amor e muito acompanhamento”, acrescenta o arcebispo.


in


Sem comentários:

Enviar um comentário